domingo, 13 de maio de 2012

Ténue tentativa de manter e preservar uma tradição muito querida

Sabes, nós as mulheres gostávamos mais desta festa que da do Verão. – dizia-me a Lúcia enquanto procedíamos ao arranjo da igreja e do andor de Nossa Senhora de Fátima. E frisava: É que sabes, era uma festa só de igreja. Então não tínhamos mais trabalho que este.

Mas então, como era a festa – questionava a Tilinha, ao que a Lurdes lhe respondeu de imediato:

A tia Helena trazia sempre outro padre uns dias antes, que todos os dias fazia um sermão em honra de Nossa Senhora. Depois, no dia 13 às 9h da manhã, era a missa das crianças. A outra era ao meio dia.

Então havia duas missas? - questionava uma vez mais a Tilinha.

Sim, porque eram as primeiras comunhões. As crianças da cruzada e os anjinhos eram vestidos em casa da tia Helena. Depois vinham em procissão até à igreja – acrescentaram quase em uníssono a Lurdes e a Lúcia. A outra era ao meio dia.




E assim se passou mais uma tarde de preparativos para a festa do 13 de Maio em Rebordainhos. Todas as mordomas estiveram em sintonia, e mais uma vez a nossa igreja foi decorada com uma única cor – o branco - pois a Luísa e o Dinis decidiram que a festa da 1ª comunhão da sua filha mais nova, a Daniela, acontecesse como antigamente, no dia 13 de Maio.

E foi bonito de se ver. Na hora da comunhão da Daniela voltámos a ouvir aquela canção que, acredito, todos nós recordamos com carinho: "Vinde ó meigas criancinhas"…

Para o Dinis e para a Luísa, os meus mais profundos agradecimentos pela decisão que tomaram.










E agora, apesar de não ter nada a ver com o que aconteceu hoje em Rebordainhos, mas porque directamente relacionado com a data, não posso deixar de mandar um grande beijo à pessoa que dedica horas e horas do seu tempo à manutenção deste blog.
Há uns anos atrás, no dia da 1ª comunhão da Amélia, nasceu a filha mais nova do tio João e da tia Teresa.

A FÁTIMA FAZ ANOS HOJE

Augusta

UMA SENHORA DIFERENTE

Este artigo foi-me inspirado pelo Ribordayn .



Todos conhecemos de sobra a imagem de Nossa Senhora de Fátima, da autoria de Guilherme Thedim, que a terá esculpido em parceria com seu irmão José.

Tanto quanto sei, a escolha da imagem fez-se entre duas alternativas, sendo preterida a de Teixeira Lopes. Gosto tão mais dela!

O seio evidenciado; a perna que sobressai, moldada pelo manto fino; os braços com carne; tudo isto apela à ideia de Maria que foi mulher. No rosto está estampada a dor que as pessoas são capazes de sentir. Esta imagem aproxima Nossa Senhora dos Homens, porque recorda a humanidade da mãe de Jesus e a torna tão semelhante às nossas mães!



Para os nossos compatriotas no Brasil, um dia da mãe muito feliz.

domingo, 6 de maio de 2012

sábado, 5 de maio de 2012

FEIRA DAS CANTARINHAS

Este artigo só servirá, provavelmente, para que quem está longe possa matar saudades. Acredito, no entanto, que vale a pena.

De há vinte e cinco anos a esta parte, à feira das cantarinhas associou-se a do artesanato, pelo que o tempo da feira já se não limita aos dias 2 e 3 de Maio. O Sapo publicou um vídeo que nos dá essa e várias outras informações (tentei incluí-lo aqui, mas por algum motivo não permite a leitura a partir do blog. Quem tiver interesse em vê-lo pode seguir a ligação, clicando no sublinhado)


Porque me lembro bem da sensação de esperar pelo regresso da mãe, não resisto a transcrever parte de um texto assinado pelo Sr. Padre Belarmino e colocado no portal do distrito de Bragança. Quem tiver curiosidade pode consultar todo o texto seguindo o link.

A Feira das Cantarinhas constituía uma celebração festiva. De véspera, à noite, preparavam-se os alforges com os produtos que se mercadejavam na feira: gradura, batatas. Tudo se acomodava de modo que sobrasse um pequeno espaço onde cabia também a ração dos animais. Enfeitadas iam também as albardas. Uma colcha de lá vermelha eu branca, tecida no tear da casa, enfeitava a burricada que fazia um arraial medonho. Os donos, seguros de que ninguém . iria violar os enfeites festivos dos animais, deixavam-nos seguros, à aldrabe de uma porta velha.

"(...) Todos se apressavam para escolher um lugar bom, onde a exposição dos produtos facilitasse a venda. Dos ventres flácidos dos alforges saía a gradura e outros produtos para vender. No largo de S. Vicente, a Praça Velha, junta-se em pequenos montículos a trouxa que vem chegando das aldeias mais distantes: Câmaras de Pinela, latoeiros, ferreiros e mais objectos artesanais. Também os objectos as vasilhas de cobre têm sempre um pequeno espaço para se arrumar. Hortaliça e renovos, chouriços secos, queijos e raminhos de cerejas apetitosas vão atafulhando todos os espaços até à metade da Rua Direita. Da Torre de D. Chama e de Alfaião, pequenos microclimas, vinham em canastras os pimentos, alfaces, tomates, beterrabas, que iam ser plantados no dia seguinte e fazem a fartura dos marranchos de qualquer casa.

Rua abaixo, rua acima, saracoteavam-se os compradores e vendedores. Dos lados do sul, nuvens negras ameaçavam chuva iminente. Fim da tarde aproxima-se. Compram-se os últimos presentes que fazem o enlevo da garotada.

O dia 3 de Maio, dia de feira e festa está quase a findar. Falta a cântara de barro que no campo acompanha os trabalhadores com a água fresca. Nossa Senhora da Serra dá de novo as merendas. Quer dizer, os dias alongam-se mais. Esta mobília, comprada no 3 de Maio, nunca mais se esgota. Ainda falta um caldeiro e um garabano para regar à mão os renovos e os feijões de que falámos.

Os homens vêm do Toural, onde tinham levado um vitelo e uma vaca para vender. O bom negócio foi também pretexto para fechar o negócio com uns copos de vinho.

Em sentido contrário, organiza-se agora o mesmo movimento para casa. À entrada da aldeia já aos filhos lhes tarda a chegada dos pais. Numa saquinha da merenda, feita de remendos de muitas cores, vão uns económicos ou súplicas, quando não alguns rebuçados, para sofrear a gulodice da garotada. Uma flauta de barro, mais um chapéu da palha salpicavam a noite e os dias seguintes de tons musicais. A monotonia nostálgica do pós festa regressa também no quotidiano dos dias que se seguem. Que esta breve descrição nos auxilie na compreensão de uma festa anual que já não se reconhece no barulho de uma multidão que não cabe nos espaços livres da Rua Direita."

quinta-feira, 3 de maio de 2012

UM CHEIRO ADOCICADO...


Por:
AIRES MARTINS


Começou por me dizer que o seu caso era igual a tantos outros e que de todos os lugares onde tinha estado, aquele era sem dúvida o seu preferido. Falou-me dos cheiros que sentia quando o galo cantava, cheiros adocicados, dizia ele, e acrescentava totalmente absorto nos seus pensamentos, era como se entrassem na alma e ali ficassem gravados para sempre. Entendes? Sim, respondi. Olhou-me no momento em que respondi, e como que à espera de sentir se a minha resposta era verdadeira, continuou. Sabes, no dia em que saí de lá, lembro-me de olhar para o lado, dentro de um autocarro, e ver lá no cimo duma pequena serra as casas, os telhados vermelhos, os imensos carvalhais e soutos que as envolviam, lembro-me de chorar por ter de abandonar a minha casa, a minha terra, os meus pais, os meus amigos…mas à medida que o autocarro avançava e as casas ficavam para trás, houve algo que me deu esperança, que acalentou o meu peito. Sabes o que foi? Não, respondi. O fumo que saía das chaminés das casas, e que cobria a aldeia de cheiros. Percebi que esse fumo ia continuar a sair das casas enquanto eu o conseguisse cheirar, estivesse onde estivesse. E hoje, passados estes anos todos, continuo a sentir aqueles cheiros adocicados da minha aldeia.

terça-feira, 1 de maio de 2012

UMA CANTIGA DE TRABALHO




Celebrar quem trabalha e o modo como o faz (ou fazia) é a minha forma de prestar homenagem a quem, com o seu suor, soube construir o nosso País.



CANTIGA DA SEGADA para cantar à hora do jantar, que é o meio-dia, tal e qual como o meu pai ma ensinou.





.................O LAVRADOR DA ARADA

.................Ó ditosa do lavrador que da sua arada vinha
.................Com o seu jugo às costas, a cavalo na burrinha.

.................Lá no meio do caminho encontrou um pobrezinho:
.................- "Lavrador, levas-me na tua burrinha?"

.................O lavrador se desceu e o pobrezinho subia,
.................levou-o para sua casa, para a melhor sala que havia.

.................Mandou-lhe fazer a ceia do melhor manjar que havia,
.................de galinhas e capões que outra coisa não havia.

.................Sentaram-se os dois à mesa, mas o pobre não comia:
.................os suspiros eram tantos que até a mesa tremia.

.................Mandou-lhe fazer a cama da melhor roupa que havia:
.................por baixo lençóis de seda, por cima lindas cortinas.

.................Lá pelo meio da noite, o pobrezinho gemia;
.................o lavrador se levantou, a ver o que o pobre tinha.

.................Encontrou-o crucificado numa cruz de prata fina
................- "Ai meu Deus, ai quem soubera quem em minha casa tinha!"

.................- "Cala-te aí, lavrador, que em tua casa falta nenhũa havia,
.................No Céu te estarão guardadas três cadeiras de fantasia:

.................Uma para ti, lavrador; outra para a tua família;
.................Outra para a tua criada, que ela também a merecia!"

sábado, 28 de abril de 2012

O PODER DA MÚSICA

Aqui há dias, o meu primo Luís do Brasil contou-me que, estando a sua mãe e minha tia Maria Amélia internada, lhe leu aquelas quadras do entrudo que publiquei. Mal as ouviu ler, ela começou a cantá-las. Emocionou-se ele ao ver e emocionei-me eu ao ouvi-lo contar-me.

É do conhecimento geral a doença que vitimou minha mãe, depois a tia Celeste, o tio António e, tragicamente, tem preso à cama o Evangelista, um dos amigos da nossa idade.

Lembrei-me de todos eles quando, ao ler o Jornal de Notícias, dei de caras com um artigo que me comoveu e que tem o seguinte título: O poder da música em pessoas com Alzheimer e vem acompanhado do segundo vídeo que publico agora. Aqui o deixo transcrito, porque vale a pena lê-lo e ver os vídeos.




Um videoclipe inspirador foi lançado por Michael Rossato-Bennett para promover o documentário "Alive Inside" e mostra a extraordinária terapia musical feita com pacientes que sofrem de Alzheimer ou demência (...).

Visto mais de 2 milhões de vezes, o documentário é narrado por um trabalhador de ação social e pelo neurologista Oliver Sacks e explora a ligação entre a música e a memória dos que sofrem problemas mentais degenerativos.

De todos os idosos entrevistados, um senhor chamado Henry é o que mais se destaca.

Henry, que sofre de Alzheimer, é primeiramente visto na sua cadeira de rodas sem responder a nenhuma questão. Contudo, depois de lhe ser entregue um iPod cheio de músicas e grandes hits dos seus tempos de juventude, Henry rejuvenesce.

O neurologista Oliver Sacks afirma que ele "fica iluminado! A sua cara assume expressão, os olhos abrem-se...ele fica animado com o que ouve.

"Após a conecção com o iPod, Henry inicia uma conversa lúcida sobre o seu amor pela música e o efeito que esta tem sobre ele.

"Dá-me a sensação de amor, de romance. Eu descubro agora que o mundo precisa de música. Têm aqui belas canções", diz Henry antes de começar a ouvir "I'll Be Home For Christmas" de Cab Calloway, que considera ser um dos seus artistas favoritos.

A estreia da mostra do documentário está agendada para o dia 18 de abril no Rubin Museum em Nova Iorque, enquanto que a organização "Music&Memory" de Dan Cohen está a colecionar novos e velhos leitores de MP3 para pessoas idosas nos Estados Unidos.

in JN de 12 de Abril de 2012

Podem ver muito mais no sítio original. É só clicar no sublinhado.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Caminhada Rural em Rebordaínhos


Dando seguimento ao projecto "Bragança Saudável, Bragança Solidária", no dia 14 de Abril realizou-e a caminha anual em Rebordaínhos com o apoio da Câmara Municipal de Bragança e da Junta de Freguesia de Rebordaínhos.

Os participantes concentraram-se no Largo do Prado, onde teve início o percurso em direcção à casa da floresta e depois descemos pelos Vales e terminou na casa da Junta onde nos esperava um almoço. Deixo aqui algumas fotos. Clique na foto para ampliar.

Deixo aqui um desafio: pelas indicações que dei do percurso podem-me dizer onde foram tiradas as fotos?


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Nota: quem tiver facebook pode ver mais fotografias que publiquei lá.

domingo, 22 de abril de 2012

AS NOSSAS PALAVRAS




Scrinium é a palavra latina que designa um armário para guardar livros e documentos importantes. Só os romanos mais ricos possuíam um, como aquele que vemos na imagem da esquerda; os muito ricos deveriam guardar os seus objectos preciosos em armários como o da direita (reconstituição do scrinium do imperador Adriano). Os mais pobres, porque nada teriam para guardar, também não precisavam de ter onde. Ontem como hoje.


Os segredos dos outros foram sempre alvo da curiosidade alheia, sobretudo se sabemos onde eles são guardados! Não sei se estou a abusar da imaginação, mas tenho para mim que, lá para as nossas bandas, o scrinium romano deu origem a um substantivo que também serve de adjectivo, ou vice-versa, e a um verbo: escrinheiro e escrinhar.


ESCRINHEIRO é alguém que vasculha as coisas dos outros, acto feio, impróprio de gente civilizada. É apodo atribuído a alguém, ou que se lhe atira em cara, sempre que quer meter o nariz onde não é chamado: "lá vai o escrinheiro!"; "que queres tu daqui, escrinheiro?"


ESCRINHAR é um verbo curioso, pois precisa sempre de auxiliar para ser conjugado. Eu escrinho, tu escrinhas, ele escrinha... não bate certo; porém, já é gramaticalmente correcto estar/andar a escrinhar; ir a escrinhar ou ver/ouvir/sentir a escrinhar. Por questões de vergonha ou honradez, escrinhar é verbo que só se aplica aos outros, por isso sempre o ouvi conjugado para o tu, o ele, o vós e o eles. Eu e nós é que não!

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Mais uma vez agradeço que, por favor, me corrijam ou acrescentem coisas àquilo que escrevi.

sábado, 14 de abril de 2012

QUEM NÃO SE LEMBRA?


Depois de arrumada a cozinha do almoço pascal, as raparigas corriam para a eira onde os rapazes já se entretinham a jogar à panela. Começavam, então, os jogos de roda, folguedo que durava até findar a tarde, em tripa forra de alegria que fizesse esquecer os rigores quaresmais. Guardiães da tradição, os mais velhos assistiam, incentivando a que se dançasse e cantasse com garra, enquanto os mais novos, em rodas mais pequenas, iam reproduzindo aquilo que viam, para poderem fazer bem quando chegassem à idade. Que me lembre, os pequenos só eram integrados num das danças, talvez porque o assunto fosse religioso e eles fizessem lembrar o menino Jesus:

Eu também sou lavadeira
Lavo no rio Jordão
Quando estou a lavar
Aparece-me S. João.

Nossa Senhora chamou-me,
Chamou-me eu vou com ela,
Ela é minha madrinha
E eu sou afilhada dela.


Nossa Senhora faz meia,
Faz meia feita de luz
O novelo é Lua cheia
E as meias são para Jesus.

Nossa Senhora é uma rosa,
O Menino é um cravo,
S. José é jardineiro
Desse jardim tão sagrado.

Lembram-se? Eram duas rodas concêntricas: os mais novos dentro, os mais velhos fora. De mãos dadas, as rodas iam girando durante os dois primeiros versos das quadras (bisados); ao terceiro verso, os de fora aproximavam-se e unificavam a roda, pondo os arcos que os seus braços formavam sobre o peito de uma criança da roda de dentro. Ao quarto verso soltavam as crianças e recuavam (estes versos e respectivos movimentos também eram bisados). Depois recomeçava tudo.

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Contrariamente a esta, a esmagadora maioria das canções tinha carácter profano, celebrando uma memória que vem dos confins dos tempos: a ressurreição da natureza, de que o ser humano é parte inteira e actuante. É por isso que as nossas cantigas falam de amores e de casamentos, em harmonia com aquilo que sucede com os outros seres que nos rodeiam:

Oh que festa nós fairemos
Quando nos formos casar
E os sinos da nossa aldeia
Tocarão até rachar

E a sineta faz dlim, dlim
E o sino faz dlim, dlim, dlão
E a rabeca zirra, zirra
E o violão faz dlão, dlão, dlão

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Se tu és o meu benzinho
Dá-me cá os braços teus
Se não és o meu benzinho
Ora vai-te embora, adeus, adeus!

Nesta faziam-se duas filas paralelas, uma de rapazes e outra de raparigas. Antes de começar, alternadamente, eles ou elas distribuíam entre si, e em segredo, os membros da outra fila. Depois, cantavam todos as duas primeiras quadras. Supondo que tinham sido as raparigas a fazer a distribuição, eram os rapazes que tinham de ir tentar a sua sorte. Um deles dirigia-se a uma rapariga e perguntava-lhe: “tu queres-me? E os dois davam uns passos de dança enquanto cantavam a terceira quadra. Se tivesse acertado, rapaz e rapariga trocavam de fila; se não, ambos voltavam ao lugar original. Este jogo de roda só terminava quando o último rapaz acertasse com a última rapariga. Depois repetia-se, cabendo dessa vez às raparigas perguntar “”tu queres-me?”

E assim se faziam alegres os nossos dias. Outras cantigas reservo-as para outros artigos.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

PÁSCOA


Hoje resta-me, tão-só, alento para vos deixar uma breve reportagem fotográfica destes dias passados em Rebordaínhos.

Março terminou como começou: seco e quente. Confesso que me fez bastante impressão chegar à nossa terra, onde a Primavera tarda a vicejar, e encontrar tudo florido, como se fosse Maio ou Junho.

Em breve, no entanto, algo mudaria: a neve e um frio intenso visitaram-nos três dias seguidos, como que a dar alento à esperança.

Mais inspirada do que eu, a Olímpia escreveu: "Foi mesmo diferente, esta Páscoa. Após uns dias quentes para a época e o precoce despontar das flores, o tempo presenteou-nos com uma beleza rara:uma chuva de pétalas brancas invadiu-nos e, como por magia, acarinhou todos os habitantes."






No sábado de Aleluia voltou o bom tempo e a Igreja foi embelezada recorrendo à singeleza de giesta e à muita arte de quem tudo sabe imaginar e compor: à minha Augusta, à Alzira e à Fernanda se deve a beleza que podeis testemunhar.

A Augusta acrescentou, e bem: "não posso deixar de te chamar a atenção para a falta de um nome: o da Tilinha, para além de todas as outras pessoas que estão sempre presentes, semana após semana ao longo do ano todo, como sejam a Áurea, Lúcia, Lurdes e, este ano, também a Maria. Enfim, todos aqueles que mantêm o gosto por continuar a oferecer a todos o prazer de uma igreja bem cuidada."






Sem jogos de roda, nem jogo da panela, o domingo da Ressurreição decorreu com as cerimónias religiosas e a festa das famílias. Hoje foi a visita pascal, mas já não a pude presenciar.

quinta-feira, 29 de março de 2012

PÁSCOA FELIZ


Há qualquer coisa de milagroso na feitura do pão.

E se à farinha peneirada juntarmos o ovo, origem da existência,
E as primícias da carne fumada sacrificada no Inverno,
Nasce o folar para celebrarmos a Vida –
Significado profundo da nossa Páscoa.

Bendita Ressurreição

sexta-feira, 23 de março de 2012

Notícias

Caminhada Rural

Na agenda cultural do município vem prevista mais uma caminhada para Rebordainhos. Seguem-se os detalhes do evento.

14 de Abril - Sábado
|Bragança Saudável, Bragança Solidária | Caminhada Rural em Rebordainhos
Extensão: 14 km | Duração: 3h00
[Concentração no parque de estacionamento da Câmara Municipal, 9h00
Concentração na aldeia de Rebordainhos, 9h30]
Organização. Câmara Municipal de Bragança e Junta de Freguesia de Rebordainhos

Faça download aqui da agenda cultural Março/Abril 2012


Montaria ao Javali

Deixo aqui também uma outra noticia já com algum atraso. Dia 19 de Fevereiro realizou-se uma montaria ao javali organizada pela Associação de Caçadores da Freguesia de Rebordainhos, da qual possuo poucos registos fotográficos e que podem ser consultados aqui.


terça-feira, 20 de março de 2012

PRIMAVERA

Entrou hoje de madrugada...

...

Os botânicos chamam Primulas a estas flores: à primeira "Primula Vera"; à segunda "Primula Acaulis" ou "Vulgaris" - a nossa amiga "Pascoela".

Da Primavera diz-se: "como vires a Primavera, assim pelo al espera", mas já os romanos desejavam "chuva cabonde na Primavera e no Outono".


De Março, os antigos prenunciavam que

"Água de Março, é pior que nódoa no pano"

"Março ventoso, Abril chuvoso"

"Quem não poda em Março vindima no regaço"

"Se não chover entre Março e Abril,
venderá El Rei o carro e o carril"

"Sol de Março pega como pegamaço*
e fere como maço

___
*Actualmente escreve-se "pegamasso", mas preferi manter a grafia arcaica.

E porque é bom dar o seu a seu dono e também nos fica bem divulgar as páginas que nos são próximas, a fotografia da pascoela foi tirada daqui e é da autoria de C. Aguiar. A segunda já me não lembro de onde a tirei.

domingo, 11 de março de 2012

AS NOSSAS PALAVRAS

I


Hoje, não sei porquê, não me sai da cabeça uma palavra que usamos muito: "mandicante".

Mandicante é uma palavra curiosa, que não surge de outra e não dá origem a nenhuma. Não dizemos que fulano tal anda a mandicar, nem que vive em estado de mandicância. Não vem, pois, de nenhum verbo nem de nenhum substantivo. Também não forma diminutivos ou aumentativos. Mandicante é, assim, palavra estéril, embora seja adjectivo cheio de conteúdo.

A única certeza que tenho é que "mandicante" é corruptela de "mendicante", palavra que vem do Latim "mendicans" e entra no Português por origem culta.

Para o vulgo, um mendicante é um pobre, mas para nós um pobre é um pobre (merecedor de respeito e caridade), enquanto que um mandicante é um malandro. Há um abismo entre os significados das duas palavras. De onde virá? Tudo quanto escreverei a seguir é fruto de imaginação e agradecem-se outras explicações.

Creio que o nosso "mandicante" tem origem na má fama que as ordens mendicantes foram ganhando com as práticas pouco evangélicas de alguns dos seus membros. Esses, aproveitando-se das vestes talares e da autoridade que delas emanava, mais do que abichar a esmola, procediam a autênticas extorsões daquilo que houvesse na tulha ou no fumeiro das casas dos aldeãos. Para além dos bens, quantas vezes roubavam também o bom nome da filha ou da mulher da casa! A vulgarização de tais actos teria, forçosamente, que conduzir a um significado pejorativo da condição de quem os praticava.

Aqui deixo esta opinião à espera das vossas considerações.

sábado, 3 de março de 2012

QUADRAS A S. FRANCISCO

Andava o povo assustado
A fazer a montaria
Ao grande lobo esfomeado
Que tanto mal lhe fazia

Ele levava nos dentes
Agudos e carniceiros
Os meninos inocentes
Que são os alvos cordeiros.

E como ele desejava
Que tudo vivesse em paz
Enquanto o povo caçava,
O santo poeta que que faz?

Procura o lobo cruel
Tendo-o encontrado enfim,
Chamou-o e foi para ele,
Sorriu-lhe e falou-lhe assim:

Eu sei que fazes mal
Eu sei o que te consome,
Tu és tão mau afinal,
Mas és mau porque tens fome.

Pois bons amigos seremos:
Para nosso, e teu descanso,
Te daremos de comer
Para poderes ser manso.

Promete que hás-de mudar
De vida, neste momento,
Em sinal de juramento
Levanta a pata no ar

E põe-na na minha mão.
Jurou o lobo, e cumpriu.
Depois, toda a gente o viu
Tão mansinho como um cão.



___

A primeira ilustração é uma pintura a fresco da catedral de Gubbio, (Itália) e a segunda é de Giotto, fresco da igreja de S. Francisco em Assis.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

TIA CÂNDIDA



Como os grãos de areia por entre os dedos, assim se escapam da vida as pessoas que povoaram a nossa infância. É-me tão difícil escrever estas notícias!

Agora faleceu-nos a tia Cândida, amiga de sempre. Tinha o riso franco das pessoas boas e nunca passávamos à sua porta que não ouvíssemos um "entre cá um bocadinho!" E nós entrávamos e a conversa decorria no tom ameno de quem se quer bem, ora no coberto cá de fora, ora na cozinha, se o tempo estava fresco. Era ela e o seu António, sempre juntos, como, de resto, todos os casais que formavam o canto.

Desde que o soube, só ouço a voz da tia Cândida a consolar-me quando perdi meu pai: "não chore, olhe que ele está no Céu!" E são as dela, as palavras de conforto que quero deixar aos seus filhos.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

TERÇA-FEIRA GORDA

O Entrudo integra-se no conjunto das festas dos rapazes. Apesar der ser deles, toda a gente participava na folia, rindo se a partida era feita a outros, zangando-se se a vítima era o próprio. As partidas, embora repetidas todos os anos, apanhavam sempre alguém desprevenido. Casa em que se esquecessem de cerrar a porta, o mais certo era receber, atirado para se escaqueirar no sobrado, um cântaro de barro cheio de cinza, buralhacos e bosta de vaca! Que zangadas ficavam as mulheres, mormente se o soalho fora esfregado havia pouco tempo!

As façanhas eram tanto mais parodiadas quanto mais má raça fosse a vítima. À mulher mais áspera roubava-se-lhe o cântaro que lhe haveria de entrar em casa; a rapariga mais arisca, com ares de “não-me-toques que não sou para o teu bico”, não escapava sem ser enfuliçada com carvão, ou graxa e, por cima, a farinha e os ovos.
Tudo acontecia pelo dia fora. Quase todos se vestiam de matrafonas (as do João Santacombinha ficaram célebres) e as ruas do povo eram corridas nesses desfiles, ora dançantes e cantantes, ora andantes. A certa altura chegava a pateada: a rapaziada, que durante o ano fora registando os deslizes de toda a gente, punha-os em forma de teatro. Era um pagode, sobretudo porque se sabia muito bem quem eram os alvos da chacota. Creio que as seguintes quadras se integram num desses momentos:
Indo eu por ‘i abaixo.............................. Indo eu por ‘i abaixo
Ai que desgraça tamanha ..................... A tocar a cavaquinha
Escorreguei, dei um peido, ................... Deixei a mulher na cama
Morde lá essa castanha! ....................... A ranhar a passarinha!

Tenho uma guitarra nova ......................Tenho uma guitarra nova
Feita do pau das urtigas .........................Feita do pau das colheres
Cada vez que toco nela ...........................Cada vez que toco nela
Faço mijar as raparigas! .........................Faço mijar as mulheres!


Caída a noite, estava na altura de os rapazes se voltarem a juntar para fazer o Entrudo – um boneco de palha a que vestiam como homem, com chapéu e tudo! Depois discutiam a que porta iriam pô-lo e, então, afixavam-lhe um cartapácio no peito, com dizeres alusivos à pessoa em causa. Dos bons ou maus bofes da pessoa, dependia a reacção quando, quarta-feira pela manhã, abrisse a porta e desse de caras com o mono.

Quarta-feira é preciso que o Entrudo morra, para que o espírito dos homens se coadune com os tempos quaresmais. Posto num carro de bois puxado por dois ganapos, o boneco da véspera é levado até ao prado. Aí, no meio de grande algazarra e dichotes, alguém lhe chisca fogo, ardendo por completo, num adeus até para o ano.

Que digo eu? Não é até para o ano, é até daqui a vinte dias, quando se proceder à serra das velhas e ao casamento das novas. Os quarenta dias de tristeza da quaresma são longos demais para que não tenham de ser interrompidos com alguma alegria.

__
As palavras que escrevi pouco mais são do que aquilo que ouvi contar. Nascida num tempo em que a gente nova tinha emigrado ou estava na guerra, a pouco assisti, porque também eu saí, ainda menina, e nunca mais pude voltar à aldeia no tempo do Entrudo. Agradeço a todos quantos me queiram corrigir ou fazer algum acrescento. Prometo que farei todas as alterações necessárias.

A fotografia que ilustra o artigo foi publicada pela minha irmã Augusta num artigo que escreveu sobre o assunto, embora versando outro aspecto: o das refeições. Está aqui: siga a ligação.

As quadras transcritas foram-me ensinadas por minha mãe
.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

PODE SER QUE...

Puri Deus nosso Senhor aderiu aos tempos novos e, em detrimento da oração tradicional, mais quer que os fiéis Se Lhe dirijam usando as tecnologias da informação e comunicação. Que Ele entenda, então, o novo cabeçalho do blog, como prece fervorosa para que nos mande a chuva, ou a neve, que tanta falta nos faz.

E, pois que os tempos a isso convidam, aqui deixo aos leitores esta oração da tia Aninhas (e um vídeo da NASA com imagens da face oculta da Lua):


Ó Lua Nova, tu bem me vês,
Dá-me dinheiro para o fim do mês!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

ORAÇÕES

RESPONSO A SANTA HELENA


Santa Helena, rainha do Sena,
moura éreis, para a cristandade voltastes.
Com as onze mil virgens vos encontrastes;
com elas, pão e peixe ceastes.
Com a cruz do Senhor sonhastes;
três pregos que tinha, lhe arrancastes:
o primeiro destes ao vosso filho Constantino
para que ganhasse as batalhas da fé;
o segundo botaste-o ao mar para que ficasse sagrado
e o terceiro cravaste-lo no vosso coração.
Por isto vos peço que me digais... (incluir pedido).
Se isto me fizerdes, três sinais me haveis de dar:
hei-de sonhar com casas caiadas,
barrelas lavadas,
campos verdes ou águas correntes.
À honra de Deus e da Virgem Maria,
um Pai Nosso e uma Avé Maria
______
A ilustração é uma página de um magnífico livro de horas do início do séc. XV (Les Très Belles Heures de Notre Dame) e representa a descoberta da verdadeira cruz, por Santa Helena.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

MAIS ADÁGIOS





Aqui há dias deixei-vos com alguns adágios antigos referentes aos juízes. Ora, como estamos todos a precisar de paciência para levar a vida por diante, aqui ficam outros sobre "sofrer", tendo em conta que tal verbo significava "levar com paciência".






  • Quem não sabe sofrer não sabe reger

  • Quando fores bigorna sofre, e quando malho, malha

  • Quem sofreu, venceu

  • O bom coração sofre, e o bom siso ouve

  • Sofra quem penas tem, que trás tempo, tempo vem

  • No sofrer, e abster, está todo o vencer

  • O bom sofre, que o mau não pode

  • De grande coração é sofrer, de grande senhor é ouvir

  • Morrer por ter, e sofrer por valer

  • Sofre por saber, e trabalha por ter

  • O que não pode al ser, deves sofrer

  • O bom pai ama-se, o mau sofre-se

  • Quem dá o seu antes de morrer, aparelhe-se a bom sofrer

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Adágios recolhidos n'O VOCABULÁRIO PORTUGUEZ E LATINO de Rafael Bluteau (início do séc. XVIII)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

DO NASCIMENTO AO CASAMENTO

Por
ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


Rebordainhos foi, desde a minha lembrança, uma aldeia bastante populosa, apesar das grandes dificuldades socioeconómicas, inerentes parcialmente da posição geográfica e da adesão total ao Cristianismo, na imposição de valores e princípios morais e religiosos. Nas décadas 50/60, a emigração para o Brasil, África e Europa facilitou de alguma maneira a vida aos que ficaram. Contudo, a despedida era um calvário para os que partiam e para os que ficavam… havia acompanhamento geral até à saída da Aldeia, choros e gritos como se fosse um adeus para sempre.

As circunstâncias básicas, a carência de meios contraceptivos, o magro conforto e outros componentes, tornavam a natalidade num fardo pesado e complexo para o agregado familiar. Houve mulheres que pariram mais de vinte filhos, ainda que só parte deles viessem a sobreviver! Treze, foi o número que superou a média geral de 7/8. Os partos eram domiciliares e as parteiras designadas para o acto aprenderam as técnicas, como os miúdos aprendem a andar ou a falar: pela força das circunstâncias. Contudo, dada a falta de meios, podiam ser consideradas geniais. Existiram casos onde a mãe biológica, por diversas razões, deixou de amamentar o bebé e outra mulher, em situação de pós-parto, substituiu-a no aleitamento.
Chegava o baptizado, e os padrinhos, nobres e ricos de preferência, viriam a ser tratados por “compadres”. As minhas recordações infantis têm como ponto de referência os cinco anitos… capturando “azeiteiros” na poça da fonte grande.

A partir dos seis anos, a catequese, as catequistas, Lúcia, tia Ester e Aninhas da Eira, tiveram acções preponderantes e de grande eficácia na educação de cada um de nós, para além da formação teológica religiosa. A tia Lúcia, incansável desde sempre, na ajuda aos arranjos dos altares, cantares, lavagem das toalhas, enfim… merecia a medalha de fidelidade, desempenhando várias tarefas, na Igreja, benevolamente. A cruzada, desde sempre me fascinou… vestida de branco, com a cruz das caravelas, em fila de dois, direitinhos como fusos, orgulhosos e sorridente, saía nos eventos importantes, festas etc. O Luís, que na altura frequentava o seminário, e vinha passar férias a casa da tia Helena, iniciou-nos às primeiras notas musicais, e algum latim que decorávamos sem saber o que queria dizer, salvo uma frase aparentemente maliciosa, mas que queria apenas dizer: “ Os peixes romperam as redes”!?

Alguns de nós aprendemos a ajudar à missa, em latim… quase sempre a dois, e foi numa vinda oficial do Bispo, que uma “barracada” imprevista e incontrolável de riso surgiu, entre mim e o Pintassilgo, ajudantes designados pelo P.e João. Com antecedência de 15 dias, decorámos uns textos de boas-vindas, ensaiados ao pormenor para que nada falhasse naquele dia, juntamente com outras fantasias e cânticos religiosos. À saída dos ensaios, alguém nos contou uma história relacionada com a missa, os ajudantes, e um ratito. Pelos vistos, o rato apareceu por baixo da lâmpada a azeite, no canto entre o granito e o altar-mor, e, com as suas idas e vindas, alheio aos olhares curiosos, despertou a atenção dos ajudantes. Parecia mesmo que se passeava com prazer, lentamente, como a saborear a sua timidez quebrada. De repent, o Sacerdote voltou-se para os presentes e, abrindo os braços, disse em voz alta: - “ Orate fratres”- O ratito desatou a correr, “enfusgando-se” no seu esconderijo, enquanto um dos ajudantes respondia em voz alta: “Porra que mo espantaste”!

Nesse dia, o da visita do Bispo, cujo cerimonial não podia falhar, aconteceu um caso similar: um ratito, como por magia, quis participar na festa. O primeiro a vê-lo foi o Moisés que, com um sinal discreto, nos apontou o animal descontraído a passear. Ainda estávamos no início da Eucaristia, mas já não conseguíamos conter o riso que, apesar de o tentarmos abafar, se ouvia por toda a Igreja. Outros galafates, conhecedores da história, entraram na sinfonia dos espirros, cada vez mais ruidosos. O Sr. P.e já se tinha voltado duas ou três vezes, com ar repreensivo, que pouco ou nada acalmou os entusiasmos. Chegou a frase fatídica (orate fratres), e desencadeou-se um alvoroço tão ruidoso, que o Sr P.e desceu as escadas, pegou-nos pelas orelhas, um de cada lado, e levou-nos para a Sacristia. Como não conseguíamos explicar os deploráveis acontecimentos, deu-nos um pontapé no rabo atirando connosco para o adro. Os ânimos nem por isso se acalmaram, porque na Igreja ficaram ainda o Moisés, o João cuco, o Pedro e outros que como nós conheciam a história, e cada vez que olhavam uns para os outros, recomeçavam a sinfonia de risos, enquanto ao fundo da Igreja a D. Graça e D. Maria murmuravam furiosas: “Que pouca vergonha!”

Fomos crescendo e a rebeldia acompanhava-nos humildemente, fiel como as conquistas amorosas. Nos amores, abordagem para dar o primeiro passo era um esforço colossal, invadidos que estávamos pela timidez e pelo receio de levar um “ chega para trás”. Na adolescência aprendíamos com os mais idosos, técnicas que, se podiam facilitar a tarefa, também podiam ajudar a distanciar a pretendida.

Um caso concreto aconteceu numa tarde, ao cair da noite, lá para os lados das Ribas, onde três “lafraus” nos deslocámos, a tornar a água no lameiro do tio João Santo. Ao fundo, havia outro que confrontava com este e pertencia ao pessoal dos Pereiros. Por coincidência, um rapaz mais velho que nós andava nas mesmas ocupações, e aproveitámos para lhe perguntar se sabia escrever cartas às “garinas”? Partiu-se em gabanços e, como tal, pedimos-lhe para nos escrever uma… que no dia seguinte nos entregaria. O envelope vinha colado! Manifestámos o desejo de ler o que vinha escrito, mas o sujeito justificou a negativa, como sendo um meio seguro para não aprendermos as suas técnicas. A carta foi entregue e mal interpretada, possivelmente por ignorância, e no primeiro encontro o rapaz recebeu como resposta uma grande bofetada.

A maioria dos casamentos era organizada segundo os haveres materiais de cada um, pelos pais e familiares próximos. Havia relativamente poucas possibilidades de casar fora da terra, pelo facto de não existirem transportes para os encontros e, namorar por correspondência era uma aventura incerta. O paga-vinho obrigatório para os forasteiros de outras terras era uma tradição temerária, embora engraçada para quem presenciava. As moças, que estavam limitadas a saídas com acompanhamento, aproveitavam a ida à fonte para trocar rápidos olhares, ou palavras fugitivas. Com todas estas restrições, ainda havia casos de resistência às imposições, à semelhança do que acontecia na literatura: “Rosa do Adro”, “Amor de Perdição” “Romeu e Julieta”.

Foi num caso similar que, um dia, fui abordado pelo meu melhor amigo que me pediu para o acompanhar a casa dos pais da namorada, a pedi-la em casamento. Sabia das divergências existentes mas, apesar de serem de maior idade, impunha-se o tradicional pedido. O meu amigo acabava de pôr à prova a minha amizade. Respondi afirmativamente, mas quando me disse que era para aquela noite, fiquei como paralisado… era principiante na matéria, e o pai da noiva não era de cócegas! Quando lhe entrámos em casa, já a noite caía, porém, talvez já sabedor da nossa visita, o chefe de família tinha-se ausentado. Sentámo-nos à lareira e esperamos. O meu coração batia a duzentos por hora, ansioso por que o homem chegasse, e receoso com a astúcia a adoptar. Para culminar o meu desespero, outra pessoa estava presente e, como é óbvio, adivinhou as razões da nossa visita, por isso não arredava pé. Já era alta noite quando apareceu o pai da moça. Sentou-se, mas o diálogo tornou-se num silêncio pesado, temeroso, indeciso. Tanto o rapaz como a rapariga olhavam-me vezes sem fim, como a implorar o meu pedido, mas a garganta apertava-se-me, e a língua bloqueada não balbuciava palavra. Impaciente, mas em vão, o meu amigo dava-me joelhadas em silêncio: da minha boca não saía palavra… Até que, por fim, já bastante tarde, enchi os pulmões de ar e, a gaguejar, consegui pedir a rapariga em casamento. Jurei a mim mesmo, nunca mais aceitar as funções de intermediário no que diz respeito a casamentos!