sábado, 10 de novembro de 2012

ECOS DO MEU SENTIR - IX -

POR: FILINTO MARTINS

Há mais de cinquenta anos…
A primeira aula de audiovisual… e não só.

            
    Ao reler pela “… ésima” vez Trindade Coelho, vem-me à memória a passagem:
                “- Olha lá, Josezinho, tu queres ser militar, queres?
                - Corneta, mais quero ser corneta. Ou então como o senhor prior: dizer missa.
                - Corneta ou prior…?
                - Preferia ser prior…
                - Muito bem … Telha de Igreja!
                - Sempre goteja – concluiu Helena.” ….
             
Como os tempos mudaram! Será que mudaram? Mudaram. Já houve comboio e silos em Rossas. Já houve segada, malhas e moagem em Rebordainhos. E hoje? Há memórias de tudo isso. Naquele tempo, sem luz elétrica, era à luz da candeia que se aprendia. Oh! Se aprendia… Meu pai, como a maioria dos homens de Rebordainhos, aprendia muitas coisas nas feiras de Bragança, três vezes por mês e nos Chãos, por duas vezes. Nesta era uma reciclagem.

Certa noite, enquanto descascávamos as castanhas para dar aos cevados (eram biqueiros!), hoje os porcos (com sua licença) são outros. Era um desafio, a ver quem mais descascava. Sendo eu o mais pequeno, meu pai, às escondidas, deitava no meu monte algumas castanhas descascadas para eu me sentir encorajado e dizer no fim, às minhas irmãs, que eu tinha ganho. Ele não tinha estudado o condicionamento operante de Skinner, mas já sabia dar um reforço positivo ao citote.

Foi numa noite dessas, depois de uma feira em Bragança, não sei se foi na de 12 se na de 21, mas o conhecimento fora aí adquirido. Eis a explicação do audiovisual:
“Dizem que daqui a pouco vamos poder ver uma pessoa a falar, atrás dum vidro, como uma caixa. É mesmo assim e se a pessoa for à volta não vê ninguém atrás. Foi o que me contaram”. 
Nem sei o que pensei, mas no dia seguinte pus o Fernando ao corrente da “ciência”, mas a minha explicação de mestre não surtiu qualquer reação nele, pois ficou com dúvidas. E que dúvidas!

Estava eu a dar-lhe esta explicação quando apareceu a tia Maria dos Santos, sempre de mansinho e para pedir algum favor, que não tardou:
- Ó Fernando, vai buscar-me esta “remeia” de água, à fonte da Ribas. (Não sei se ainda existe).
- Ora… depois…
- Anda lá, Fernando! Olha, quando morrer deixo-te tudo. 

Lá foi o Fernando buscar a água… e muitas vezes mais, pois água só na fonte ou na bica do Prado. Que saudades desse chafariz! Ali devem ter ocorrido muitos namoricos, enquanto a bica chorava para os cântaros já cheios.

Acho que o Fernando enquanto foi buscar vezes sem conta água à fonte, pensou na promessa, até que um belo dia, quando o pedido lhe foi novamente solicitado, ele retorquiu:
- Ó Tia Maria, a senhora nunca mais morre!
Resposta pronta e carinhosa:
- Malandro! Deixa lá, anda que eu não posso…

A Tia Maria era boa, mansa, sofrida e “manhosa”, na opinião da minha mãe que era “atraganada”, mas era mesmo boa. Que Deus as tenha em descanso e paz, pelo pouco descanso que tiveram nesta terra.
Muitas vezes aparecia junto à nossa porta, encostada ao cancelo, ali desfiava as suas mágoas com a minha mãe. Mãos debaixo do avental, olhar distante aparecia sempre o diálogo:
- O teu Adriano também está lá?
- A igreja não lhe cai em cima. – Acrescentava a minha mãe.
- Eu não os socorria, podia vir quem viesse…

Palavras ditas da boca para fora, pois mal chegavam a casa tratavam logo de lhes aquecer a comida.
O diálogo era sempre o mesmo. Era um martírio para elas, mas à distância, que outros divertimentos tinham aqueles homens dobrados pelo trabalho duro do campo? Nenhuns. Vem a propósito aquele provérbio espanhol:

                Beber até tombar é de censurar;
                Beber até cambalear tão pouco é de aprovar;
                Uns golitos de vez em quando e vamos andando.”

Era nestas alturas que também aparecia a “atraganada” com as suas:
- Ó Maria, queres uma laranja?
- Elas são doces?
- Amargas que nem rabo de gato.
- Come-as tu… ainda se fossem docinhas – enquanto se afastava e dirigia no seu calvário diário em passos lentos para casa, olhando para o caminho a ver se o seu Manuel vinha para casa. Mas não, não vinha… Vinha quando o sol se punha.
Mal dobrava a esquina, a minha mãe ria-se e exclamava:
- Olha a “Checha”, tinham que ser doces! As amargas que as coma eu…

No dia seguinte, depois da partida, as duas amigas lá comiam as laranjas que o Cortês mandava da Rede para a minha mãe. Tempos belos, mas de sofrimento.


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

MEMENTO



............................ Deus, Senhor nosso!...

............................ Quantos são hoje já os olhos
............................ que nos fitam de além-terra!...
............................ Tantos já os sorrisos
............................ cristalizados no barro original
............................ a que volveram,
............................ e volveremos,
............................ no após ódios e paixões!...

............................ Rodeados, dia após dia,
............................ de cada vez mais ausências,
............................ torna-se despovoado
............................ o nosso vasto mundo.
............................ E mais perdidos nele somos,
............................ gasalhados apenas
............................ da frialdade das sombras
............................ dos que partiram,
............................ nossa perene
............................ e silente companhia.

............................ Guarda-os Tu, Senhor,
............................ em teu seio.
............................ E a nós protege-nos
............................ pelos dias breves deste peregrinar,
............................ enquanto aguardamos,
............................ para os nossos ossos,
............................ o aconchego
............................ da mãe-terra que nos gerou,
............................ e, para o espírito,
............................ o regresso à pátria definitiva
............................ de que provimos.

............................ Amen.
.................................................................... AA.


Faz hoje dois anos que um autor anónimo me enviou (e publiquei) este belo e sentido poema. Não me voltou a sair da memória.
Nesta altura do ano, em que temos a alma entanguida como a pedra das sepulturas que iremos visitar, aqui o deixo de novo, em memória de todos aqueles por quem choramos. O meu bem-haja a quem o escreveu e aceitou partilhá-lo.

domingo, 28 de outubro de 2012

TRADIÇÕES

Reler os clássicos tem efeitos destes: veio-me à lembrança um dos nossos jogos de roda e agora não me sai da cabeça. Só que me não lembro de quase nada da letra. Quem, por favor, me ajuda a completá-la?

JARDINEIRA FLOREIRA

- Jardineira floreira 
Você o que é que tem? 
- Eu vendo cravos e rosas 
E outras flores também.

- Quanto quer pelo raminho
Dessas mimosas flores? 

- Só lhe peço um escudo
Porque lhe devo favores.





Todos os versos se repetem, um a um. E a graça que tem cantarmos "f(e)loreira" e "f(e)lores", para que a letra encaixe na música. É um doce de cantiga e estou em pulgas para voltar a sabê-la toda. Bem-haja a quem me ajudar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

VIVA RECOMENDAÇÃO


Torna-se importante salientar que velhos são quem a sociedade diz que o são, e que, por conseguinte, os velhos e a imagem social dominante que se tem deles é uma construção social. (…) Um dos elementos essenciais desta construção social da velhice é a representação mental desta etapa como um período de “deterioração” e “involução” (…).

Sabe-se hoje que esta conceção está errada. A mudança das diferentes capacidades não é unidirecional, nem universal, nem irreversível. Embora algumas capacidades possam deteriorar-se, outras mantêm-se e inclusive podem enriquecer-se, as pessoas evoluem de formas diferentes, e há mudanças que são reversíveis.

      Emília Magalhães, Sabedoria, Conhecimento e Espiritualidade no Idoso
                             in Teoria e Prática da Gerontologia, PsicoSoma, Viseu, 2012 (pp 287-288)

O artigo de onde retiro a citação (e todas as que se seguem) encerra uma obra que reúne contributos de numerosos especialistas sob a coordenação do professor Fernando Pereira. É um livro que se lê bem por diversos motivos, de que destaco:

– A linguagem acessível (ou seja: apesar de não prescindir do léxico técnico, ele vem devidamente explicado permitindo que tudo seja bem compreendido);

– A opção por capítulos breves, correspondendo cada capítulo ao artigo de um (ou mais) especialista;

– O encerramento de quase todos os artigos com uma súmula intitulada “Ferramentas para a Prática”. Estas súmulas, acreditem, estão muito bem feitas e podem funcionar como uma espécie de estojo de primeiros socorros de que podemos servir-nos em caso de emergência.

Não é este, então, um livro destinado a quem cuida dos idosos, ou estuda para isso? É, sim! Mas, não estaremos todos nós nas circunstâncias de cuidar, ter cuidado ou vir a cuidar de idosos? Ou ainda: não estamos nós todos a envelhecer e ler sobre quem é velho não nos ajudará a envelhecer de modo mais consciente e  sereno? Tenho a certeza de que sim e esse é outro motivo pelo qual recomendo a sua leitura. Além mais, a nossa Augusta assina dois artigos em co-autoria.

A título pessoal, devo dizer que alguns artigos me fizeram relembrar muitas situações que vivi com meus pais. Dou dois exemplos:

A integridade do Eu significa chegar a esta etapa da vida e ser capaz de ao olhar para trás aceitar, no essencial, o percurso percorrido (…), aceitar a vida como ela foi vivida e, desta forma recear menos a doença, a dependência ou até a morte.

Fernando Pereira, A Institucionalização do Idoso (p. 150)

– Pai, tanto filho que teve, tanto sacrifício que fez para os criar, e agora vê-se sozinho!
– Estas minhas mãos desfizeram muito torrão, mas voltaria a fazer tudo de novo!

No estudo levado a cabo por Andrade et tal. (2009), verificou-se que os cuidadores sentem constantes preocupações, por exemplo, em nunca deixar o idoso muito tempo sozinho porque temem negligenciar a sua assistência.

Maria José Gomes e Augusta Mata, A Família Provedora de Cuidados ao Idoso Dependente (p.166)

– Ó rapariga, avia-te tu primeiro, que estás aqui consumida! – dizia-me a tia Maria constatando a minha ansiedade por ter deixado a minha mãe sozinha e, embora estivesse à porta de casa, tinha medo que ela conseguisse levantar-se sozinha da cadeira e caísse.

________ /// _________

Há artigos que nos provocam um nó na garganta, tal o contraste entre a boa teoria que lemos e a prática a que assistimos com frequência:

A aplicação da metodologia da humanitude assenta essencialmente em seis pilares (Margot, 2010): verticalidade, o toque, o olhar, o sorriso, a palavra, a relação com o outro e com a sociedade, os adornos.

(…) IGM (2011b) defendem que o cuidador deve fazer os possíveis para manter o doente de pé, a andar, dado que (…) a verticalidade (…) faz com que este não perca totalmente a sua independência, elemento essencial para a sua qualidade de vida.

O toque é aqui abordado na forma de substituir o “toque utilitário” pelo “toque carinhoso” (Touboul, 2009), na medida em que o toque, como demonstração de carinho, por vezes, alivia mais o doente do que qualquer palavra. (…)

Quando falamos do olhar, temos em atenção o olhar partilhado, olhos nos olhos. (…)

(…) O riso é o remédio mais eficaz para combater o stress e relaxar (…).

O poder da palavra é de especial importância, dado que a comunicação se revela vital na vida do indivíduo. (…)

A relação com o outro e com a sociedade também se revela um pilar fundamental na vida quotidiana do indivíduo (…). Os idosos, pela sua situação vulnerável de dependência e doença, têm mais necessidade do contacto que as pessoas saudáveis e jovens (…).

Por último, mas não menos importante, o porte do vestuário e dos adornos (…) Pela carga simbólica (…) [eles tornam-se] algo imprescindível da nossa condição humana, estes determinam “quem nós somos e como os outros nos percecionam”

Fernando Pereira, Maria José Gomes, Ana Galvão, Ética e Humanitude no Cuidado do Idoso (pp. 88-89). (Sublinhados meus)

Encerro este artigo lembrando outra situação que vivi, desta feita as palavras indignadas da D. Suzette (tia-avó do meu marido, internada num lar):

– Não posso ver aquilo, não posso! Aquela senhora andava sempre tão bem posta, tão elegante! Agora que perdeu a vista, vestem-lhe uns trapos quaisquer, que nem são dela! Não posso ver aquilo, não posso!

É por estas e outras que vos digo que este livro é para ser lido por toda a gente.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

PARA (ALGUNS) MATARMOS SAUDADES...

... E ADOÇAR OS AMARGOS DE BOCA PROVOCADOS PELO ARTIGO ANTERIOR.
(Clicar nas imagens para ampliar)



Se repararem na barra lateral, têm o link para muito mais Mafaldinha (embora em Português do Brasil, sabe muito bem reler).

NOVO PROCESSO DE COMENTÁRIOS

Só algumas pessoas se dão conta, mas nos últimos tempos este blog e o da ASCRR têm sido sistematicamente bombardeados com mensagens de spam, que são comentários enviados automaticamente por computadores com links que têm por objectivo induzir o leitor a entrar neles. O blogger tem sistema de detecção dessas mensagens e não as publica. No entanto, a minha caixa de correio fica inundada delas. Para terem uma ideia, o blog da ASCRR tem arquivados (neste momento) 296 e o de  Rebordainhos tem 106.

A única forma de evitar tamanho assalto às caixas de comentários é pedir um esforço extra aos comentadores, isto é, que identifiquem uma sequência aleatória de letras e algarismos e os copiem para uma caixinha. Assim, como podem ver na imagem:

Devo dizer, ainda, que alguém muito mal formado tentou atacar esta nossa página (e outro blog que eu tenho há muito tempo). Foi esforço inglório, porque o problema está resolvido e o patego responsável, se nos queria mal, ficou-se pelo querer. Ainda bem.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

BEM-VINDOS

É do fundo do coração que dou as boas-vindas, a Rebordaínhos, a todos os naturais de Pombares.


 Por votação da Assembleia Municipal de Bragança, extinguiram-se dez das freguesias do concelho, situação que pode observar-se no mapa que copiei do Mensageiro.

 Não é por Rebordaínhos se manter como sede freguesia que deixei de me opor a esta medida que é meramente administrativa sem nada ter de reformadora. Os anseios dos moradores de Pombares (como os compreendo!) e que podem ver-se e ouvir-se no vídeo abaixo, eram os meus anseios quando se perspectivava a nossa extinção. Competirá à futura junta de freguesia zelar para mitigar mais esta vergastada sobre as populações rurais, gente para quem o abandono, o envelhecimento e a tristeza constituem a realidade substantiva.

Pombares é uma aldeia muito bonita. O vídeo não lhe faz jus. É muito bonita, mesmo! E o seu termo, a confinar com o de Rebordaínhos, é senhor de uma beleza de cortar a respiração. Pertence a Pombares o vale mais aprazível da região, Teixedo, lugar que tenho em tão alto conceito que se me afigura que não ficará atrás do jardim do Éden.

Rebordaínhos ganha, e muito. Esperemos que Pombares perca menos do que receia. Bem-vindos, pois, moradores de Pombares.
  in Sic Notícias, 27.09.2011

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

NETOS E AVÓS

Mais umas quadras saídas do baú de memórias do meu tio Manuel. 

NETOS E AVÓS

Noutros tempos, meu netinho
Eram melhores os meninos:
Não faziam ruindade
Eram bons, os pequeninos.

Iam para a escola contentes,
Vinham da escola a sorrir,
Não gritavam pelas ruas
E não sabiam mentir.

Estavam com eles seguros
Os ninhos pela ramada;
Não usavam ratoeira
Nem fisga endiabrada.

Eram amigos dos pais,
Dos avós... - Ó avozinho,
Eu sou culpado, talvez,
nisso tudo um bocadinho!

Mas lá quanto a ser amigo
Dos meus avós, dos meus pais,
Posso dizer que ninguém
O poderia ser mais!

É um daqueles textinhos que ensinavam a criançada a comportar-se, isso compreendi bem. Mas, a rir-me, perguntei: ó tio, conhece algum garoto que não faça garotices? É claro que concordou comigo, mas quando lhe perguntei se na idade própria ele não ia também aos ninhos, calou-me com esta: tinha pouca sorte! E disse mais, a fazer-me lembrar uma história que o Tonho da tia Lídia contou lá atrás:

"À porta do tio Benjamim havia uma urze. Um passaroco - uma escrevedeira - fez lá o ninho e eu ia lá vê-lo todos os dias! Ficava ali parado, a olhar para os ovos riscadinhos. Por causa de os ovos serem riscados, e os riscos parecerem escrita, é que lhe chamamos escrevedeira."

E cá estou eu sempre a aprender. Quando fui à procura de imagens para ilustrar este artigo, dei de caras com um passareco que vi no Verão e não soube nomear. Agora já sei! Quem quiser mais informações pode entrar nesta página.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

PALAVRAS QUE HOJE ME ACUDIRAM...

... e que foram consideradas pouco adequadas para quem se não quisesse confundir com a ralé no modo de se expressar. Integram a lista elaborada por Francisco José Freire, nas suas Reflexões sobre a Lingua Portugueza, obra publicada em 1842 mas escrita, de certeza, lá pelos meados do séc. XVIII).


Alcouce casa de alcouce: assim chamavam sem escrupulo os nossos antigos oradores ás casas, que dão commodos para  commercios lascivos. Hoje em discurso grave foge-se de pronunciar este termo por ser popular.

Coçar estranha-se em alguns oradores, quando ao tratar do santo Job dizem que coçava [em logar de raspava] com uma telha as suas leprosas chagas.

Cocegas: é termo humilde para estilo grave. Quando seja preciso usar delle, querem os criticos que se diga antes alatinadamente titilação que provoca o riso, ou outra semelhante circomlução, que não abata o estilo.

Enfadonho tem baixeza por ser termo muito popular. Enfadoso se acha em alguns Classicos (...)

Enforcado: não tem nobreza este termo, e deve-se usar de alguma frase; v.g. morrer suspenso em um patibulo, ou de um laço &c.

Engulhos só se admitte na linguagem medica. Use-se de alguma frase decorosa, v.g. inuteis esforços da natureza para provocar o vomito &c.

Engulir em sentido metaforico, significa soffrer (...). 

________  // ________ 
Como se comprova, a linguagem "politicamente correcta" não é invenção dos nossos tempos...

Guardo para mim as frases que tal leitura me sugeriu, mas deixo a porta aberta para quem, aproveitando a deixa,  nos queira proporcionar alguma titilação que provoque o riso. Sintam-se libertos dos inúteis esforços da natureza...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

ECOS DO MEU SENTIR -VIII-

POR: FILINTO MARTINS



Habituados à civilização deixámos as caminhadas, preferindo o automóvel, mas como os combustíveis estão pela hora da morte e as pernas necessitam de exercício, pois os anos vão pesando e alguma “neve vai na serra”, sacudida pelo vento deixa livre uma autoestrada, tento umas pequenas deambulações. Eis senão quando, olhando bem para o chão, não há por aqui vacas nem bois, mas há cães a mais, deparei na berma do caminho com umas figueiras-do-diabo.
Há quanto tempo as não via!... Há mais de cinquenta anos…

Calor, moscas, monotonia… aragem fresca de vez em quando. Ainda não havia televisão e as bibliotecas estavam à mão de semear, pois meu pai embora analfabeto era uma biblioteca-viva do saber. Como eu gostava de o ouvir contar pequenas histórias da sua infância, do seu saber adquirido pelos anos de trabalho a fio, agarrado a um pau, que servia de bengala, sentado no carro dos bois, com o queixo sobre a mesma, ora enxotando as moscas, ora coçando a barba rara que havia de cair às mãos do Armindo da Eira, semana a semana, me contou:

- Sabes, uma vez havia um patrão muito rico que era cego e disse ao criado:
- Amanhã, bem cedo, quero ir ver um terreno… aparelhas o melhor cavalo.
Logo eu atalhei:
- Se era cego como ia ver o terreno?
- Espera…

Com a mão calejada matou uma mosca que o não deixava livre no seu discurso… “Já foste, carai…”

- A terra era longe, pai?
- Se era… mas o cavalo andava bem. Olha que havia bons cavalos naquele tempo. Depois de muito andarem o criado parou e disse-lhe:
- Meu amo, estamos na terra que queria ver.
- Está bem. Olha: vais contar os passos da terra na largura… o comprimento não interessa.
- Vou começar, mas o meu amo segure a arreata. – Disse o criado.
- Não. Prende-me antes o cavalo a uma figueira-do-diabo.
O criado olhou à volta e disse-lhe:
- Patrão, aqui não há nenhuma figueira-do-diabo!
- Então escusas de contar os passos, vamos embora.

Como o meu pai tentou matar outra mosca e ficou calado, eu perguntei-lhe:
- Porque é que ele já não quis que contasse os passos?
Após um curto silêncio, sorriu, fechou os olhos e acrescentou:

- Ó burrinho, terreno onde não há figueira-do-diabo, não presta… Percebeste tu agora, como é que ele viu o terreno e era cego?


sábado, 22 de setembro de 2012

Padre Estevinho


Hoje Rebordainhos despediu-se do seu pároco de há 18 anos.
Devido à reestruturação efectuada na  diocese de Bragança e Miranda, o padre Carlos Estevinho celebrou hoje pela última vez na nossa aldeia. É lógico que ao fim destes anos, tínhamos já estabelecido laços de amizade tanto com ele como com a sua mãe e, a população acorreu, como é costume, ao lanche de despedida que foi organizado em sua homenagem. 
Também o "nosso" padre Jorge teve a amabilidade de vir do Alentejo para, também ele, prestar homenagem e agradecer a colaboração do Padre Estevinho.
A juventude quis dedicar-lhe uns versos que a Tilinha muito gentilmente me enviou, e que eu com muito agrado aqui publico.


Foi em setembro de 94
Que à nossa terra chegou
O Padre Carlos Estevinho
Que o senhor abençoou

Bem recebido por todos
Com carinho e amizade
Pois esta gente da serra
É muito acolhedora
P’ra quem chega a esta terra

Este nosso querido pároco
Simpático e bem disposto
Sempre pronto a atender
Todos os nossos pedidos
Para logo resolver

Amigo de toda a gente
Bondoso e atencioso
Para todos de igual forma
Desde a criança ao idoso

E para assim conviver
Não faltava às jantaradas
E no meio d’uns copitos
Lá soltava as gargalhadas

Nas festas de vez em quando
Mas no verão não faltava
O nosso querido Padre Jorge
Que pelo Alentejo andava

E estes 2 sacerdotes
Mostrando cumplicidade
Nas tarefas a cumprir
Repartiram gentilmente
Para assim da melhor forma
Atenderem a toda a gente

 Quanto aos horários das missas
Nem sempre foi pontual
Mas esta bondosa gente
Gentil e muito paciente
Pelo pároco soube esperar

Ao longo deste 18 anos
Muitos laços se criaram
Graças ao nosso sacerdote
Crianças, adultos e idosos
A Deus sempre louvaram

Que mais podemos dizer
Deste nosso querido pároco
Que Deus o possa ajudar
E lhe dê paroquianos
Que o continuem a estimar



Rebordainhos não lhe  disse ADEUS . O que lhe queremos dizer é ATÉ SEMPRE PADRE ESTEVINHO 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

VOZES QUE SE INSTALAM NA ALMA...

... pelo menos na minha.

Um convite, para quem quiser ouvir.













__________
Nesta página encontra uma selecção de cantigas de Luiz Goes (embora com algumas intercalações estranhas)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

APORIAS

Fot. Chanesco


Captar a luz – que se não prende…
Fixar o movimento – que se não detém…
Tornar eterno o instante efémero…
----------------------------------
Mostrar o que está à vista – e não se vê…
Fazer jorrar luz do que nada era…
Tornar real a imagem reflectida…
-----------------------------------
O pintor inscreve no tempo
Aquilo que ninguém sabia
Se existira.

___________ /// ___________

O Chanesco, do Arcaz, visitou-nos no dia da festa. Foi um enorme gosto conhecê-lo pessoalmente, a ele e à sua jovem filha com quem trocámos dois dedos de conversa.

Depois da visita, o Chanesco teve a enorme gentileza de nos oferecer algumas imagens que captou. Publico esta obra-prima que me fez mergulhar num mar de cogitações, embora só partilhe algumas aporias.
_______________
Aporia
(grego: aporía, -as, dificuldade)
[Filosofia] Dificuldade lógica.
[Retórica] Hesitação calculada.

in: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

SABEDORIA



Caem-lhe assim, na conversa, como quem não quer a coisa. São pérolas, ou melhor, são correntes de pérolas as frases que o Sr. Alfredo cria e nos oferece. De tão preciosas, corro a escrevê-las, para que me não esqueçam. Aqui vos deixo duas, para que as possais guardar também. Pena que sem o brilho das pérolas, que é a voz macia em que as escutei.

"O tempo guarda o que lhe pertence."

"Quem bem cuida encontra amigos."


E mais uma terceira, escutada pelo Sr. Américo (que bem apanhada!)

"Guarda o conselho de todos, mas o teu não o deixes."

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

PARABÉNS

Esta notícia roubei-a à Céu, que a publicou no blog da ASCRR :


Parabéns à Nathalie que foi colocada em Ciências Farmacêuticas na Universidade de Lisboa.

Parabéns, também, ao André, que entrou para Contabilidade no Instituto Politécnico de Bragança!

Para quem está longe há muito tempo, recordo a genealogia:

a Nathalie é filha da Guiomar (da sr.ª Julieta do Gomes) e do Orlando (da sr.ª Conceição);

o André é filho do Casimiro (da tia Maria Seca) e da Maria.

As famílias estão, certamente, muito contentes, mas tenho a certeza de que todo o povo comunga da sua alegria. Nós, aqui no blog, de certeza.

Um grande abraço para todos e muitas felicidades para a Nathalie e para o André!
___
Quem tiver outras informações que deseje ver publicadas, recordo que o nosso endereço electrónico é:
blog.rebordainhos@gmail.com

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Reencontro


Começo por explicar este título. A 3 de Junho de 2012, já muito próximo do final da viagem anual promovida pela Junta de Freguesia de Rebordainhos, o Sr João e a D. Filomena quiseram presentear-nos com uma visita a León e à sua Catedral. Surpreendemo-nos com a visita das relíquias de S. João Bosco, fundador dos Salesianos, e que tanto significado tem para a gente de Rebordainhos. Soubemos então, através do nosso padre Jorge, que as mesmas estariam em Bragança em Setembro.

 E ontem reencontrámo-nos com ele,  aqui na Nossa Senhora da Serra. Foi venerado por milhares de peregrinos, gente de todas as idades e diferentes condições, mas com uma coisa em comum: a fé inabalável em Nossa Senhora da Serra e que hoje saiu reforçada com esta visita que muito nos honrou e comoveu.

Deixo uma compilação do que tive oportunidade de recolher. 


parte da serra vista por quem sobe o "pingão
Nossa Senhora da Serra


mais uma parte da serra admirada por quem sobe o "pingão"
imagem do recinto com o aspecto actual

Gente de Rebordainhos

foram muitos os que não quiseram faltar

Os mais novos sempre divertidos...

Fizeram questão de mostrar bem a sua origem. Vejam os bonés

outros mostraram-se mais envergonhados

Este está sempre divertido

Um mar de gente

"Fizemo-nos" para a fotografia

No final apeteceram as farturas e... os tremoços

O recinto foi pequeno para tantos carros

Depois da procissão

pormenor do arranjo do recinto

outro pormenor do recinto

A paz e a beleza são uma constante

mais uma imagem a reter



domingo, 2 de setembro de 2012

ROSTOS


MAIS ROSTOS DA NOSSA TERRA

H
averá cinquenta anos,
Eram elas pequenitas,
Lado a lado as sentaram
Em cadeiras bem bonitas
(Não em compridos escanos).
Assim ficou registado

Como em certidão de idade.
Elas são boas amigas,
Lindas, sem falsidade,
Irmãs, boas raparigas.
Nada me sobra dizer,
A não ser meu bem-querer!



.........................Quem são elas, quem serão?
.........................Dê palpites quem quiser,
.........................Minhas irmãs esperarão
.........................Pelo primeiro que vier.



À esquerda - Maria Helena Alves Pereira
À direita - Celina Alves Pereira

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

REPORTAGEM ATRASADA

Antes de mais, deixem- me que diga: a fachada da nossa igreja está mais linda, porque foi limpa. Ficou assim:

Este ano foi-me impossível publicar as imagens da nossa festa em tempo útil. Creio, no entanto, que quem não esteve presente gostará de ver algumas fotografias, para poder fazer uma ideia de como foi.

Só fotografei a parte religiosa. Quanto à profana, posso afiançar que foi muito interessante o concerto que a banda de Carviçais deu no Largo do Prado. À noite, o arraial foi tão concorrido que quase parecia o da nossa juventude!.

Espero que gostem.



Pode ver melhor aqui
Depois de uma tarde inteira de trabalho saiu a desgraça que se vê no "filme". Quis fazer bonito mas tive que remediar. Tenham lá paciência.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Almoço de Homenagem ao Dr. José Moreno

No dia 04 de Agosto realizou-se um almoço convívio organizado pela Junta de Freguesia com o propósito de homenagear o Dr. José Moreno, médico há 30 anos consecutivos na nossa freguesia e a sua assistente Lúcia Martins que desempenhas as suas funções há cerca de 40 anos.
Podem ser consultadas algumas fotografias do almoço aqui (clicar).




Fotografias:
Zé Tomé (da tia Emília Pereira)
Zé Tó (do tio Orlando Martins)