quarta-feira, 30 de março de 2011

Partiu mais um amigo


É com profunda tristeza que a gente de Rebordainhos vê partir mais um dos seus.

E desta vez, o pesar e as saudades bateram à porta da Sra Cândida que ficou sem o seu companheiro de uma vida.

O tio António "Atilano" adormeceu para sempre.

Estas pascoelas, acompanhadas de um beijo, são para ele.

segunda-feira, 28 de março de 2011

ROSTOS

E que tal voltar às fotografias dos nossos pais, avós, amigos, conhecidos...
Esta não é muito difícil eu quase os reconheço a todos, por isso preciso da vossa ajuda amigos de Rebordaínhos e todos que queiram participar.

(Clique na imagem para a ampliar)

Lugar: a rua em frente à casa do tio Amadeu, por baixo da horta da tia Maria Silva.

1- Tia Estefânia
2- Tia Madalena (esposa do meu tio João)
3- Maria Alice Duque
4- Tia Luísa (minha mãe)
5- José Duque
6- Tia Emília
7- Tio Amadeu (meu avô)
8- Tia Benigna (minha avó)
9- Tia Maria José (esposa do meu tio Américo)

sábado, 26 de março de 2011

ORAÇÕES

ANTES DE DORMIR


Lembramo-nos todos, certamente, destas maravilhas que dizíamos ao deitar:



I

Nesta cama me deito
para dormir e descansar.
Se vier a morte para me levar,
apego-me aos cravos,
abraço-me à cruz
e entrego a minha alma
ao Menino Jesus.




......II

......Adeus lume,
......Adeus lar
......Adeus Menino Jesus
......Que me vou deitar


............III

............Nesta cama me deito,
............Jesus me cubra com seu manto
............se eu bem coberto for
............não haja medo nem temor.

................IV

................Nesta cama me deitei
................sete anjinhos encontrei:
................três aos pés, quatro à cabeceira,
................e Jesus Cristo na dianteira.
................Deitei os olhos ao céu
................pensamentos na glória,
................meu coração achei
................Jesus Cristo na Custódia

.....................V
(versão, muito bonita, enviada para a caixa de comentários por um leitor brasileiro de origens transmontanas)


..................Nesta cama me deitei
..................Para dormir e descansar
..................Se a morte vier
..................E não lhe puder falar:
..................Apego-me aos cravos,
..................Abraço-me à Cruz,/
..................Entrego minh' alma
..................Ao Coração de Jesus.

..................Coração de Jesus,
..................Guardai-me esta noite,
..................E amanhã por todo o dia.
..................Que minh' alma não seja presa,
..................Ó Jesus, Ave-Maria.

                          .VI

Outra leitora brasileira, também de origens transmontanas, fez o favor de partilhar esta oração:

Menino jesus, descalcinho pelo chão 
mete os teus pezinhos dentro do meu coracão!

sábado, 19 de março de 2011

DIA DO PAI


Como dizer bem-haja ao nosso pai,
se ele se veste de S. José
e nos responde que
o amor nada custa?

Fuga para o Egipto,
painel de Policarpo de Oliveira Bernardes (c. 1730), Museu Nacional do Azulejo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

VIZINHANÇAS BLOGOSFÉRICAS

Quem está atento à barra lateral desta página já reparou, certamente, que lá mais para baixo apresentamos uma (curta) lista de blogues que nos são próximos - geográfica e afectivamente. Permitam-me que destaque dois, pela sua beleza e pelo enorme trabalho que exige aos autores:


Geograficamente muito próximo de Rebordaínhos, a Aldeia de Outeiro tem uma página que é uma inspiração! Vale a pena percorrê-la. Como pode ver-se na imagem, tem ligação directa para o blog , actualizado regularmente com textos muito interessantes.




Um nadinha mais distante fica Vinhais que tem direito a uma página que é um deslumbramento para os olhos e um bálsamo para quem quer matar saudades. Chama-se Fotos de Vinhais e o autor do blog é Raul Coelho, de quem já publicámos uma fotografia, aquela que encima o primeiro artigo sobre o tio António Piloto. Quem percorrer a barra lateral do blog do Raul Coelho lá a encontrará, a cores, por entre inúmeras outras de teores variados.

Espero que gostem das sugestões.

segunda-feira, 14 de março de 2011

ARES DA SERRA


SEI DE UM NINHO
por

ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES

Naquele tempo, no tempo de se ser criança em Rebordainhos, quando chegava a primavera, a criançada construía em torno dos ninhos toda uma cultura feita de respeito, ternura e… voracidade: ia-se aos ninhos, aprendia-se um ninho e sabia-se um ninho, tal como se ia à escola, se aprendia a tabuada e se sabia a tabuada ‒ uma verdadeira caminhada pela escola paralela da vida. Saber um ninho era receber em compêndio abreviado uma enorme lição sobre o prodígio das coisas naturais, as origens da vida e a ternura da maternidade. Era um misto de enlevo e… crueldade também, pois tão complexa e contraditória é a arte de viver!

Entre outras coisas aprendia-se a distinguir, dentro do vasto reino da passarada, como em cartilha venerável, a classe dos comestíveis (que, por vergonha, não digo quais eram nem por quê) da classe dos respeitáveis, quase sempre os mais pequerrichinhos e amigos do camponês, pela bicheza daninha que comiam ou pela companhia que, com a sua cantata, faziam ao lavrador na arada. E nesses não se tocava. Para além destes, havia ainda a casta mais restrita dos intocáveis, a que pertenciam a lavandeira e a andorinha, revestidos de uma aura de sacralidade. A lavandeira, pela companhia que fizera à Sagrada Família na sua fuga para o Egipto, apagando com o abanico da cauda as pegadas do santo burrinho que transportava o Menino fugitivo, para despistar os soldados que o Herodes malvado mandara em sua perseguição. A andorinha, a amorosa andorinha, porque era da família: morava em nossas casas, construindo aqueles formosos caçoilinhos de barro dependurados dos beirais dos nossos telhados. E ainda porque, apesar de envergar um discreto hábito de freira, tinha desempenhos de bailarina clássica, desenhando bailados caprichosos pelos céus da aldeia enquanto caçava os insectos que os primeiros calores primaveris faziam surgir de todo o lado. E aprendíamos ainda a arte de esperar: a longa espera desde o momento em que se descobria o ninho em construção, quando a pássara anda a engordar para pôr, até ao aparecimento dos ovinhos e o seu eclodir em pequenos mostrengos pelados, de órbita inchada e olhos cegos; depois abriam os olhitos e ganhavam o pêlo de burro, a seguir ficavam em canuto, até que adquiriam a plumagem definitiva que lhes permitia ir à vida.

E foi dos ninhos que eu aprendi uma das primeiras e mais sábias lições sobre a vida, a sua beleza e desilusões, ainda antes de entrar para a escola do Sr. Professor Ribom, quando da aldeia grande de Bragança me transplantei para a aldeia pequenina de Rebordainhos. Primeiramente através da dúzia de ninhos de andorinha que povoavam o beiral da casa da avó Adriana, na Portela. A gente quase lhes chegava da janela da sala; bastava esticar o braço e as criaturinhas escancaravam a goela desmedida e cor-de-rosa na expectativa do cibaco. Depois… Bem, depois…

Um dia cheguei a casa e declarei ufano, como quem acaba de descobrir terras do Prestes João: sei um ninho! E sabia, de facto. Foi assim:
Na Fonte da Vila, ali mesmo ao lado da fonte, havia (ainda deve haver) o Lameiro das Almas que o meu pai, com as ânsias dos seus primeiros ensaios de lavrador, trazia à renda. A metade de cima, para onde escorria a água sobeja da dita Fonte da Vila, andava de lameiro; a parte de baixo estava plantada de nabal. Um dia a Amélia da tia Isabel Caldeireira, que então morava connosco, levou-me com ela aos nabos e, ao chegar brindou-me: anda cá, vou-te ensinar um ninho. E foi assim que eu aprendi um ninho: lá estava ele ao toro de um cepo, aconchegado entre dois torrões, o montãozinho de ervas secas e, no centro, uma conchinha lavrada a preceito e acolchoada de penas, com quatro ovinhos brancos. Embasbaquei para o pequeno tesouro que agora era o meu tesouro. E mais, nunca lhe soube o nome!

A partir de então, quase não havia dia em que não me esgueirasse, cauteloso, pela Fonte do Espinheiro, para me furtar ao Prado, onde meu pai tinha o soto, até ao adro; depois, enfiava pela canada que arranca de À-Chave e era um ver-se-te-avias a verificar se o ninho ainda lá estava. E estava. A mãe pássara fugia assustada e eu, de cócoras, não me cansava de admirar a perfeição da conchinha tão redonda, tão macia de penas e os quatro ovinhos aconchegados, miniaturais, aguardando o aparecimento dos pequenos seres que traziam no seu bojo. A medo palpava a quentura dos ovos e a fofura do forro do ninho. E lamentava com os meus botões que a passarinha tivesse sido tão brutinha ao fazer a casa ali, no rés-do-chão, ao toro de um cepo e, ainda por cima, à beira do carreirão que atravessava o lameiro. E eu, mais brutinho ainda que a pobre ave, tocava nos ovos ignorando o risco de a mãe os aborrecer.

Aquilo ainda tinha que dar para o torto!...
E deu. Um dia, depois de uma daquelas zurvadas tão frequentes na primavera, como estiara pela tardinha, ainda deu tempo para ir visitar o meu tesouro secreto. Logo à chegada foi de mau agouro que a pássara não levantasse o costumado voo com o meu estrupido. Espreitei: os ovos estavam frios e o ninho todo encharcado da chuva. Logo vi: ou por causa das minhas mexidelas indevidas, ou por causa do trânsito pelo carreirão, a mãe tinha-os aborrecido. Ainda lá voltei mais tarde, na esperança de que a mãe pássara tivesse revogado a sua decisão de abandono da residência. Mas não: apenas o ninho meio esbarrondado, já com o ar de casa abandonada e as cascas vazias dos ovinhos comidos pelas formigas. Mordi os beiços numa grande vontade de choro, como se a avezita me tivesse atraiçoado sem que ao menos eu tivesse tido ocasião de os ver nascer e acompanhar no seu crescimento: cegos e pelados quando largam a casca, em pêlo de burro a seguir, depois em canuto e, finalmente, emprumados, já prontos para irem à vida.

Em contrapartida, comecei a aprender quão efémeras são as nossas ilusões e como é frágil o sopro da vida que o mais ligeiro percalço pode apagar.

domingo, 13 de março de 2011

Mãe (13/03/2006)

Para Sempre


Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite

é tempo sem hora,

luz que não apaga

quando sopra o vento

e a chuva desaba,

veludo escondido na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.


Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

- mistério profundo-

de tirá-la um dia?


Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 8 de março de 2011

DITOS DO POVO

O cuco ainda não chegou, mas apeteceu-me brincar com as minhas irmãs - parece que se puseram mesmo a jeito!

Convém esclarecer esta ligação que estabelecemos entre o cuco e o casamento.

Diz-nos a mitologia grega (chegada até nós, essencialmente, pela mão dos romanos)que Zeus (Júpiter) se apaixonara por sua irmã Hera (Juno). Conhecedor dos bons sentimentos da deusa, certo dia transformou-se em cuco e, porque dominava os elementos atmosféricos, provocou uma tormenta que o encharcou. Compadecida com o estado lastimável da ave, Hera aconchegou-a no regaço. Imediatamente, Zeus assumiu a sua real forma e revelou as suas verdadeiras intenções. Como Hera exigisse respeito, Zeus aceitou casar-se com ela. Esta história, creio, ajuda-nos a bem compreender a pergunta que as raparigas fazem ao cuco.

Mas o cuco está igualmente relacionado com a vida rural. Para os gregos, o seu aparecimento era o sinal esperado para darem início aos trabalhos nos campos. E se ele não viesse? Talvez dissessem ou acreditassem no mesmo que nós:

quinta-feira, 3 de março de 2011






O blog da ASCRR publicou uma notícia triste.

Despedimo-nos de uma pessoa jovial que nos recebia sempre com o seu sorriso lindo. Foi hoje a sepultar uma das poucas pessoas que ainda me tratava por "menina".

domingo, 27 de fevereiro de 2011

COISAS PARA PENSAR

Isto nada tem a ver com Rebordaínhos, mas há coisas que gosto de partilhar. Hoje trata-se da Líbia.

Temos ouvido falar da Cirenaica, província Líbia onde se iniciou a revolta contra o déspota Kadafi (vá lá alguém saber escrever-lhe o nome: pelos vistos, o dito assina-se segundo trinta maneiras diferentes, ou mais!). O nome da província vem-lhe da mais importante das cinco cidades localizadas naquela península: Cirene, fundada por colonos gregos de Tera, algures no séc. VII a.C.

Os tempos correm e os impérios passam. No séc. II a.C., Cirene estava integrada no império dos Ptolomeus do Egipto e a Palestina no império Selêucida da Síria, sendo ambos fragmentos das vastas conquistas de Alexandre Magno. Nesse tempo vivia na Palestina, provavelmente em Jerusalém, um judeu natural de Cirene – Jasão de Cirene – que escreveu cinco livros cujo conhecimento chegou até nós através de um anónimo que os compilou num só: o “II Livro dos Macabeus” que integra o Antigo Testamento da Bíblia católica. Esse livro relata a luta dos judeus contra as tentativas levadas a cabo para lhes fazer perder a sua fé e tradições, contando a potência dominadora com a colaboração activa e entusiástica de alguns judeus, como se pode constatar pela transcrição seguinte:

Jasão matou sem piedade os seus próprios concidadãos, esquecido de que uma vitória ganha sobre compatriotas é a maior das desgraças, agindo como se alcançasse um troféu dos seus inimigos e não dos seus concidadãos. [Este Jasão não é o autor, é o sumo sacerdote nomeado pelo rei selêucida]

Apesar disso, não conseguiu usurpar o poder e, por fim, recebeu o opróbrio como prémio da sua traição (…). O fim da sua perversa vida foi este: acusado junto de Aretas, rei dos árabes, fugiu de cidade em cidade, e, perseguido por todos, detestado como violador das leis, desprezado como carrasco da sua pátria e dos seus concidadãos, foi desterrado para o Egipto. Deste modo, aquele que expulsara tanta gente da sua própria pátria, morreu desterrado dela (…). E aquele que tinha deixado tanta gente sem sepultura não foi chorado por ninguém, nem recebeu honras fúnebres, nem na sua própria terra nem na terra estranha.
II Livro dos Macabeus, 5, 6-10


O coronel Kadafi faria bem em meditar nestas palavras escritas há vinte e três séculos por um “líbio”, embora judeu!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

ACTIVIDADES ECONÓMICAS

CASA DOS CAPELAS



Quem sai do IP4 e se dirige a Rebordaínhos encontra, na rotunda de Rossas, uma placa que diz "Casa dos Capelas", informando que se trata de turismo rural. Essa casa fica em Paçó e pertence ao Duarte "Pacheco" (desculpa lá...) e família.

Soube-o pela minha irmã Augusta e, creio, fica bem ao blog de Rebordaínhos dar a informação. Pesquisei e encontrei uma página sobre a "casa" (
ver aqui) que nos dá conta da qualidade do produto que é oferecido (e de onde retirei a fotografia, mas o dono não se deve zangar comigo), destacando-se que, embora se trate de casa antiga, ela foi adaptada de modo a conceder conforto moderno a quem demandar os seus serviços.

Todos nós temos amigos que, mais do que viajar, gostam de ficar num sítio para conviverem com as pessoas. Quando nos perguntarem sobre a nossa região já saberemos, com propriedade, indicar-lhes um bom lugar.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

SENTIMENTO


Descerra a porta, ferreiro,
porque a manhã já nasceu
e dentro da forja tens,
à espera do teu saber,
três potes pra remendar,
cinco enxadas para aguçar
e cem pregos de encomenda
para cravar em portões altos
que o dono quis que fizessem
inveja aos dos castelos!

Acende o fogo, ferreiro,
para contentares tua filha
quando vir dependurado
da parede, sobre o lume,
um perfeito cadeado
onde o caldeiro da vianda
ficará mais belo ainda
do que pingente caindo
do colar de uma dama!

De tuas mãos sai um trabalho
tão sem defeito nem mácula
que mais parece lavrado
em fina prata e acabado
por mãos de anjos dos céus!

Acende o teu fogo, ferreiro,
volta à vida
como Túndalo!

________
Fotografia do Rui Freixedelo

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Fevereiro quente, traz o diabo no ventre




O que não me parece que seja o caso deste Fevereiro de 2011.

Aqui, um pouco depois das 21h nevava assim.




Amanhã, caso seja possível, mostro mais e com mais branco.




Augusta
PS: E que venham as de Rebordainhos

DITOS DO POVO


Fui ao facebook e roubei esta fotografia portentosa do Valter Cavaleiro. Está lá outra do mesmo autor e igualmente bela. Porque não estou registada nessa rede social, não lhe pude pedir autorização. Espero que ele me não leve a mal pelo atrevimento.


FEVEREIRO

Fevereiro matou a mãe ao soalheiro.

Fevereiro quente traz o diabo no ventre.

Janeiro geoso e Fevereiro chuvoso fazem o ano formoso.

Quando não chove em Fevereiro, nem prados nem centeio.

Tantos dias de geada terá Maio, quantos de nevoeiro teve Fevereiro.


Só me lembro destes dois. Fico à espera de que alguém aceite partilhar aqueles que conhece.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

ARES DA SERRA

A DIVINA PROVIDÊNCIA E A GORRA DO PRIMO MANUEL

por

ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES

Imagem retirada daqui


Era sábado. A euforia da perspectiva do feriado de domingo (o conceito de fim-de-semana estava por inventar), podia-nos ter dado para pior, mas não, em vez de jogarmos ao pirogalo ou à bilharda, depois das aulas, deu-nos o diabo para surripiar a gorra nova do Nelzeira, ou melhor, do meu primo Manuel do Outeiro, e fazê-la esvoaçar de uns para os outros à laia desses boomerangs ou bresbees com que hoje as crianças se divertem na praia. O Nelzeira bem corria duns para os outros na tentativa de recuperar o que era seu, bem berrava que a boina era nova, que lha tinha comprado o pai ao contrabandista que trazia a mercância da Galiza. Mas a malta divertia-se à brava. Até que, num lançamento mais incauto, por efeitos imprevistos da aerodinâmica, a boina, pairou manso, mansinho e foi aterrar no telhado da escola. Consternação geral! Mas, após breve conciliábulo, logo ali se combinou que, a seguir às aulas, iríamos buscar uma escada de mão que andava pela eira do senhor Amadeu e resolveríamos o assunto.

E assim foi: mal a senhora D. Maria, a caminho de casa, dobrou a esquina do pátio onde morava o Patinge, os mais afoitos correram em demanda da dita escada. Eu ainda hesitei em associar-me à empresa, que o meu pai não era para cócegas. Mas como nessa altura já frequentava a catequese com grande quantidade de devoção e de puxões de orelhas da Aninhas da Eira, nossa catequista, veio-me à mente o sumo preceito catequético de amar o próximo como a nós mesmos. Além do mais, o Nelzeira, ainda era um próximo ainda mais próximo que os outros próximos, pois até era meu primo direito e compincha de reinação! E todo exaltado pelo espírito evangélico de bem-fazer, como cruzado que parte na guerra contra os mouros, atirei-me à boa acção, convencido de que Deus havia de me recompensar… se calhar até com uma bicicleta.

Dávamos por finda a empreitada, já o primo Manuel descia com a gorra enfiada até às orelhas, e reaparecia a D. Maria ao pé da casa do Carriço, pressurosa em seu caminhar e furiosa em seu aspeito. Acontecera que, quando atravessava o Prado, alguém a advertira que os garotos andavam aos ninhos no telhado da escola e partiam as telhas todas.

Alguns dos comparsas ainda se escamugiram a tempo. Ao alcance das iras da professora ficámos uns quatro ou cinco, entre eles o Nelzeira que escalava na demanda do seu bem, o Zequinha Lelé que segurava a escada e eu que, de nariz no ar, dava orientações, aguardando a libertação da boina e as bênçãos de Deus pela minha boa acção. A D. Maria, como estava cansada da semana a aturar a ganapada, não deu uso imediato à palmatória: introduzindo-nos na sala de aula das meninas, apontou os nossos nomes no quadro, sem querer saber das nossas boas intenções e dos ensinamentos evangélicos aprendidos na catequese com a Aninhas da Eira. Na segunda-feira ajustaríamos contas!...

Saímos inconsoláveis, porque sabíamos que a D. Maria quando pegava na palmatória para castigo dos nossos desvarios não era nada peca a distribuir bolos. Ainda estava bem presente na nossa memória a sorte de um dos Pereiros (seria o Sabido?) que tivera a infeliz ideia de ir espreitar como é que as meninas faziam as suas necessidades na sua casa de banho privativa, isto é, ao ar livre, entre as giestas e escarambunheiros que bordejavam o carreirão das Ribas. Como os tempos eram outros, pouco dados a investigações sobre fisiologia feminina, a D. Maria não apreciara muito esta aula de auto-educação sexual e premiara-lhe a curiosidade científica com vinte palmatoadas, dez em cada mão.

Quanto a mim, para além da perspectiva acabrunhante da meia dúzia de bolachas, fiquei abalado pela primeira grande crise de fé: sentia-me profundamente descrente dos ensinamentos da Aninhas da Eira sobre o amor ao próximo e a disposição da Divina Providência para recompensar as boas acções. E pensava com os meus botões que, se me tivesse posto na alheta em vez de amar a gorra do próximo como a mim mesmo, o primo Manuel que me perdoasse, mas não estaria agora metido em sarilhos! Enfim, passei um domingo atormentado, na perspectiva das palmatoadas de segunda-feira.

Só na segunda-feira é que recuperei a fé na Providência e a crença nos ensinamentos da catequese, quando me certifiquei de que as ameaças da D. Maria tinham caído no esquecimento. Ainda hoje creio firmemente que foi a Divina Providência quem guiou a mão da primeira rapariguinha a entrar na sala das meninas pela manhã inspirando-a a praticar a boa acção de limpar o quadro sujo. Se calhar também era aluna da Aninhas na catequese… e com a sua boa acção apagou do quadro os nossos nomes, a memória da nossa boa acção e as mais que certas palmatoadas da D. Maria.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

BREVE

Os Deolinda são um dos fenómenos mais interessantes da música portuguesa actual. Há pouco tempo actuaram no Coliseu de Lisboa e ofereceram ao público um tema inédito: Que parva que eu sou!"

O poema nada tem de belo, mas tem tudo de verdadeiro no modo como retrata a geração dos nossos filhos ou netos. Gostei de ouvir o tema, por aquilo que é dito, pela forma como está cantado (a voz da Ana Bacalhau é portentosa) e porque a melodia me fez lembrar o lirismo do José Afonso.

Apeteceu-me partilhar isto convosco. Aqui vo-lo deixo.



Que Parva que eu Sou

..............................Sou da geração sem remuneração
..............................E não me incomoda esta condição
..............................Que parva que eu sou!

..............................Porque isto está mal e vai continuar
..............................Já é uma sorte eu poder estagiar
..............................Que parva que eu sou!

..............................E fico a pensar
..............................Que mundo tão parvo
..............................Onde para ser escravo é preciso estudar!

..............................Sou da geração “casinha dos pais”
..............................Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
..............................Que parva que eu sou!

..............................Filhos, maridos, estou sempre a adiar
..............................E ainda me falta o carro pagar
..............................Que parva que eu sou!

..............................E fico a pensar
..............................Que mundo tão parvo
..............................Onde para ser escravo é preciso estudar!

..............................Sou da geração “vou queixar-me pra quê?”
..............................Há alguém bem pior do que eu na TV
..............................Que parva que eu sou!

..............................Sou da geração “eu já não posso mais!”
..............................Que esta situação dura há tempo demais
..............................E parva não sou!

..............................E fico a pensar,
..............................Que mundo tão parvo
..............................Onde para ser escravo é preciso estudar!
____
Porque sinto uma repulsa visceral pelo novo acordo ortográfico, continuarei a escrever como antes. Quem quiser utilizar as novas normas sinta-se à vontade para o fazer, porque esta é uma casa de liberdade.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

MATAR SAUDADES

Tal e qual como o José Fernandes fez o favor de enviar, para que todos possamos aproveitar. Bem-hajas, Zé!

..

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

AURORA BOREAL


Tinha terminado mais um dia de Janeiro. Às seis da tarde, já toda a gente ceara e preparava-se para passar mais um serão. Provavelmente, as mulheres entretinham-se a fazer meia e os homens, tábua no colo, pisavam o unto que, enrolado em bola, se tornaria no tempero delicioso do caldo de couves do ano inteiro.

Ninguém sabe como foi que deram por ela, mas o facto é que todos sairam à rua e olhavam embasbacados. Nunca tal se vira!

O céu apresentava-se de um vermelhão que metia medo. Todo o Norte parecia tingido de sangue!

Ouviram-se gritos de temor pelo fim do Mundo anunciado e as mães abriram os braços para que neles lhes coubessem todos os filhos que tinham. Deve ter sido assim por todo o povo. Menos no bairro da Portela.

Na Portela, o tio Ramos e o tio Pereira, cunhados por serem casados com duas irmãs, faziam um fado! Na sala do Pereira, ambos de meotes, dançavam um com o outro, dando-se o braço em gancho. E cantavam também, porque dançar sem música não tinha jeito nenhum! De vez em quando paravam e assomavam à janela. O Ramos espreitava e dizia:

- Olha a aurora boreal!

O Pereira, que gostava pouco dos "ai meu Deus" e de coisas que nunca vira, tratava de corrigir:

- São os medeiros dos Vales que estão a arder!

E passaram a noite nisto, a dançar de meotes e a espreitar à janela, um a afirmar que era a aurora boreal e o outro a dizer que eram os medeiros dos vales a arder!

No bairro da Portela não sabiam se haviam de chorar com o espectáculo do céu, ou rir com o espectáculo dos dois borrachos.

Os cegos de Vinhais rapidamente poriam em verso este acontecimento raríssimo de uma aurora boreal observada em Portugal. Pela feira dos Chãos, tais quadras chegaram ao conhecimento de meio mundo e foi assim que o meu tio Manuel as decorou e mas ensinou. Tinha doze anos nessa altura e estávamos em 1938.

Meus senhores, venham ouvir
Grande pecado de paixão,
Caso triste e horroroso
Fez tremer o coração!

Apareceu um sinal
Aos vinte e cinco de Janeiro,
P'ra que todos acreditassem
Naquele Deus verdadeiro!

Ele foi universal,
Em todo o lugar apareceu:
Foi visto por todo o Mundo
Mas ninguém se arrependeu!

Esse sinal foi um exemplo
Não devemos duvidar:
Anunciou por todo o Mundo
Grande guerra mundial!

____
Efectivamente, a II Guerra Mundial começaria a 1 de Setembro de 1939. No entanto, logo em Março de 1938, Hitler anexava a Áustria e, pouco depois, conquistava a Checoslováquia. Entre nós, muitos veriam na aurora boreal a confirmação da
mensagem de Fátima.
____
A imagem que ilustra o artigo foi
retirada daqui. Mostra uma aurora austral porque não encontrei nenhuma boreal que correspondesse às descrições que ouvi e li.

domingo, 23 de janeiro de 2011

JOGOS

Não sei porquê, hoje isto não me sai da cabeça...


- Ó vilão do cabo, cheira a pão queimado! Quem é que o queimou?

- Foi o rei que aqui passou!

- Que seja morto e enforcado co'as cordinhas de Santiago!

[Agora, quem se lembrar faça o favor de descrever o resto do jogo que, se me não engano, tinha alguma coisa a ver com "aguçar navalhinhas".
Pelos vistos, ninguém se lembra. Paciência, fica aqui conforme sei. Depois não se queixem, se estiver mal!]


Depois do diálogo entre os "vilãos", os garotos perguntavam a um deles:

- Mais queres passar gateirinhas ou aguçar navalhinhas?

Se escolhesse passar gateirinhas, os outros punham-se em fila, de pernas abertas. O garoto em causa tinha de passar, de gatas, por entre elas (as gateirinhas), enquanto os que estavam na fila lhe davam nozadas na cabeça.

Se escolhesse aguçar navalhinas, os garotos dispunham-se em duas filas, uns de frente aos outros, enquanto esfregavam as mãos (aguçar navalhinas). O garoto tentava passar a correr pelo meio das duas filas, de modo a apanhar o menor número possível de palmadas.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ROSTOS

Esta fotografia apela à memória dos mais velhos frequentadores desta casa. Quem se lembra dos rostos que foram seus companheiros de infância? Aqui fica o desafio.


................................. LUGAR: Escadas da tia Maria e do tio António Piloto

.................................1 - tia Teresa Martins
.................................2 - Olímpia Pereira
.................................3 - Maria Augusta Martins
.................................4 - Pedro Pereira (Manuel)
.................................5 - Augusta Pereira
.................................6 - Amélia Pereira
.................................7 - Albertina Pereira
.................................8 - Evaristo Pereira
.................................9 - Artur Pereira

sábado, 15 de janeiro de 2011

DITOS DO POVO


Janeiro molhado, se não cria o pão, cria o gado.
Pitos em Janeiro vão com a mãe ao poleiro.
Pitos em Janeiro não vão ao poleiro.
Em Janeiro, um porco ao sol e outro ao fumeiro.
Sapatos brancos em Janeiro, sinal de pouco dinheiro.


Luar de Janeiro não tem parceiro!
Não há luar como o de Janeiro, nem amor como o primeiro.
Não há luar como o de Janeiro, nem sol como o de Agosto.


Sobre o crescer dos dias:

No Natal, um salto de pardal;
em Janeiro, salto de cordeiro.

Janeiro fora, tem o dia mais uma hora
e se bem contar, hora e meia lhe há-de achar!

Sobre o devir do ano:

Consoante for o tempo nos 12 primeiros dias de Janeiro, assim serão os 12 meses do ano.

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Vamos ver se este artigo cresce como crescem os dias!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

CARETO (III)

O Jornal Nordeste esteve, também, em Rebordaínhos e publicou uma excelente reportagem fotográfica que pode ser vista clicando sobre o sublinhado. O mesmo jornal fez, ainda, reportagem escrita e um vídeo com as fotografias que publicou no Youtube. Tudo isto são informações que o Rui me vai dando.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Careto (II)

Felizes os povos que são capazes de manter as suas tradições, muito embora precisem de as adaptar. Rebordaínhos é feliz! Que importa se o rapaz que veste o fato do careto já não é escolhido e mantido em segredo? O que interessa é que essa figura perdura, disso se encarregando o Rogério Veigas (da Marquinhas). Bem-haja ele! Mostra a cara? Paciência... também já não há raparigas para chocalhar, nem as crianças fogem dele como o diabo foge da cruz!

Bem-hajam, também, os cantadores: Casimiro Pires; Francisco Martins; Manuel Ferreira e António Rodrigo. Magníficas vozes entregues a um esforço que só a dedicação ao povo compensa! Aqui ficam quatro apontamentos, em três casas diferentes, entoando estrofes diferentes.

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Estes mimos, assim como todas as fotografias que ilustram este artigo e o anterior, temos a agradecê-los ao Rui Freixedelo (da Maria Angélica).

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A graça que acho a esta fotografia!

domingo, 9 de janeiro de 2011

O CARETO


A sua origem perde-se nos tempos. Há quem o afirme celta e há quem lhe atribua filiação romana. Ninguém duvida, no entanto, que o careto é uma figura pagã que foi cristianizada.

Os caretos - figuras maiores das festas dos rapazes - existem por todo o Nordeste transmontano e estão associados a diferentes festas litúrgicas, segundo as preferências de cada aldeia. Para nós, é o dia de Reis.


Em Rebordaínhos, a festa é organizada pelo mordomo das Almas que oferece lauto mata-bicho ao careto e aos cantadores. Depois, dirigem-se todos ao adro da igreja onde, fente à porta principal, cantam e rezam. De seguida iniciam o périplo pelas povoações que compõem a freguesia: Arufe, quinta de Vila Boa, Pereiros, Vales (ainda lá vão?) e, naturalmente, Rebordaínhos. Era uma canseira, nos tempos em que todas as casas eram habitadas e o percurso se fazia, integralmente, a pé.

As famílias aguardam em suas casas pela visita. Os cantadores, que se não intimidam com o frio, puxam pelas vozes e entoam alguns versos (ver aqui). Finda a cantoria, o mordomo recolhe a esmola que lhe é dada. Em casas de luto, em vez de se cantar, oferece-se uma oração por alma de quem partiu.

Que faz o careto? Vestido com fato garrido, costurado de uma colcha velha e debruado com franjas de lã, traz chocalhos à cinta, que sacode o mais que pode para se fazer ouvir bem. Numa mão transporta uma maçã onde vai cravando as moedas que as pessoas lhe dão, ao pedido de "ũa c'roinha! ũa c'roinha!" Na outra mão transporta uma foice. Chocalhos e foice são as armas que usa para se meter com as raparigas, que fogem dele a sete pés. Traz a cara tapada por uma máscara que lhe acentua o aspecto diabólico.



Além de chocalhar as raparigas, o careto é um atrevido, capaz de entrar em qualquer casa e, com a foice, roubar algumas chouriças e salpicões do fumeiro.

Com o fato vestido, o rapaz transformava-se na própria personagem do careto. É por isso que nunca mostrava a cara pois acreditava-se que se o fizesse e morresse, iria direitinho para o inferno, sem possibilidade de redenção.





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A figura do careto é composta de diversos símbolos, a maioria deles associados ao diabo: o fato e a máscara de cor vermelha, os chocalhos e também a maçã, aquela que Eva comeu, induzida pela serpente. Mas o careto ainda transporta uma foice que todos relacionamos com a ideia de morte. Representará a morte da natureza presente no calendário cíclico de eterno retorno que os celtas celebravam? Não sei e ninguém o pode afirmar, mas tenho a certeza de que, através desta festa, estabelecemos uma ligação entre o mundo dos vivos e o mundo das almas - afinal, o mundo futuro de todos nós.

sábado, 8 de janeiro de 2011

DIA DE REIS


Surripiei esta fotografia à Lurdes, que a incluiu na página de Rebordaínhos no facebook.

A nossa festa de dia de Reis vai ser amanhã e o Rui Freixedelo, porque estará lá, prometeu que me enviaria as fotografias que pudesse tirar. Publicá-las-ei assim que me cheguem.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

ROSTOS

Eis a segunda fotografia fornecida pela Ondina. Já nenhum deles é menino e, confesso, para mim foi um desafio tentar encontrar nestes rostos as faces dos homens e das mulheres de hoje. Vamos ver, então, quem dá palpites!


............... 1 - Gina (da Maria Albertina)
............... 2 - Patrícia (da tia Julieta)
............... 3 - Tilinha (da Lurdes)
............... 4 - Marta (da Lúcia)
............... 5 - Pedro (da Ondina)
............... 6 - João Duarte(dos Pereiros)? Paulo (do sr. Víctor)?
............... 7 - Celeste (do Valente)
............... 8 - Paulo (do Valente)? Miguel (da Bárbara)?
............... 9 - Gorete (do Cerca da Quinta)
............... 10- Miguel (da Bárbara)? Paulo(do Valente?
............... 11- Susana (da Marquinhas)

domingo, 2 de janeiro de 2011

CONTAS


EPIFANIA E LAVANDEIRAS


Celebra-se hoje a festa da Epifania. Nas leituras dominicais destaca-se a passagem do Evangelho de S. Mateus em que se narra a visita dos Reis Magos, gentios vindo do Oriente. É, precisamente, neste acontecimento que reside a epifania, ou seja, a manifestação de Deus que, através dos Reis Magos, Se revela a todos os povos da Terra.

Se bem vos recordais, o melífluo rei Herodes pediu aos Magos que, assim que encontrassem Jesus, lhe viessem dizer onde estava, para também O ir adorar. Na verdade, o que ele queria era matá-Lo, para não ter quem lhe disputasse o poder mas, avisados em sonhos, os Reis do Oriente foram-se embora sem nada contarem. Herodes, para cortar o mal pela raiz, determinou a matança dos inocentes. Jesus escapou com vida porque a Sagrada Família fugiu para o Egipto.

É aqui que entram os acrescentos que, em Rebordaínhos, fazemos ao texto bíblico.
Na nossa tradição, dizemos que S. José ferrou a burra ao contrário, de modo a enganar os que fossem em sua perseguição: quem olhasse para as pegadas pensaria que aquele animal estaria a entrar na terra, em vez de sair dela. Mesmo assim, os soldados do rei perguntavam:

- "Vistes passar Jesus por aqui?"
E as lavandeiras, limpando as pegadas com a cauda, respondiam:
- "Por aqui não passou! Por aqui não passou!"

Gostaria de saber a moral que cada um tira desta história (para poder acrescentar ao texto).
Eu deixo esta: o auxílio dos mais humildes é tão importante que até Deus beneficiou dele.

"O seguro morreu de velho",terão pensado as andorinhas, não fosse o diabo tecê-las e os soldados do rei começassem a questionar-se sobre as pegadas. É a máxima acrescentada pela Olímpia.

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O que eu aprendi sobre lavandeiras! Vejam lá bem que lhes chamam Motacilla alba e têm mais nomes vulgares do que nomes próprios os reis!

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A pintura da visita dos Reis Magos é de Grão Vasco, grande pintor português do séc. XV-XVI