sábado, 5 de novembro de 2011

PRODUTOS NACIONAIS

O meu avô Ramos tinha, em Arufe, a horta da Capela, nome que dispensa explicações sobre a sua localização. A ladear toda a horta, várias árvores de fruto faziam as delícias dos netos, que engatavam por elas acima em busca de regalo temporão. Uma dessas árvores era maçãera de maçãs reinetas que amaduravam tarde, mas que botavam boa figura desde cedo. Com os galhos a darem sobre o caminho, a maçãera e suas maçãs eram engodo para os incautos.

A conta que aqui vos deixo faz parte do anedotário da família. Diz-se que certo caminhante - bem-decerto um daqueles caixeiros viajantes que, de quando em vez, se decidiam a entrar pelos caminhos da serra - em passando rente à capela de Arufe, montado no seu cavalo, decidiu colher umas poucas daquelas maçãs que lhe enchiam o olho. Colheu quantas lhe couberam nos bolsos e só depois da desinça é que decidiu provar uma. Pegou-lhe com ganas, à loba-cã, na esperança de sumo doce. Ah! rapazes! Mal deu a dentada, isso é que ele cuspiu depressa o que tinha na boca! Assim que se recompôs, em vez de se queixar de si, tratou de exclamar:

- Anda que o corno que aqui te pôs, sabia bem o que fazia!

∫∫∫∫

Vem esta conta a propósito da situação que vivemos. Não nos iludamos com as aparências! Os produtos nacionais podem ter aspecto menos convidativo ou, até, ser mais caros, mas pensemos bem se não sairá mais caro a todos nós vermos os nossos agricultores na ruína e as nossas fábricas a encerrar porque nós lhes não compramos aquilo que produzem. O que é que sai mais caro: os euros que pagamos pelo artigo nacional, ou o desemprego a que condenamos os nossos filhos porque os empregadores nacionais vão à falência por falta de quem lhes compre o que produzem?

Criemos o hábito de verificar a origem dos produtos que adquirimos. Compremos o que é nosso!
O código de barras acima dá-nos a indicação de que se trata, ou de um produto de marca nacional, ou de um produto que é produzido em Portugal (podendo ser de marca estrangeira), dando trabalho aos nossos. Não é, de todo, infalível, mas aqueles três primeiros algarismos - 560 - são a única garantia que temos (também podem significar que são produto fabricado no estrangeiro e importado por alguma marca nacional, mas quanto a isso já nada podemos fazer).

Existem variantes, como as dos produtos lácteos, que podem consultar na página do "MOVIMENTO 560".

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

PARA RIR UM BOCADINHO

Há cerca de 120 anos, Portugal estava a atravessar uma crise levada da breca. Nos idos de 1891, Rafael Bordalo Pinheiro parodiava o assunto do modo que se segue. Volvido um século, estou em crer que a receita poderá ser a mesma!
(as imagens ampliam-se uma a uma. E vale bem a pena!)

Subordinada ao título O QUE NÓS SUPRIMIRÍAMOS...








Aqui a deixo na sua integralidade:


E agora, bom fim-de-semana, que amanhã estou de abalada para Rebordaínhos!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CORRER DA VIDA

“Elas já perceberam. Vejo-lhes a tristeza nos olhos. Sabem que vão ser vendidas!”

Era isto que me confidenciava o tio António Piloto a quem os oitenta anos obrigavam, por já não poder trabalhar, a desfazer-se da junta de vacas. “Elas são como as pessoas, compreendem tudo!”

Induzida, talvez, pelas palavras daquele homem bom e sábio, dei por mim a fitar atentamente as duas vacas, jungidas ao carro, e a confirmar a plangência do seu olhar. Varou-se-me a alma!

Recuei à meninice, ao tempo em que eu e a minha irmã Olímpia éramos os reichequitos da família e, entre nós, decidíramos que a Andorinha era dela e a Novela era minha. Tal posse não queria dizer nada, a não ser horas de discussão sobre qual das vacas era a mais bonita e tinha as melhores prendas. Verdade, verdadinha, a Olímpia calava-me quase sempre, rematando com acinte: “a Novela é espantada como tu!”

Como todas as da aldeia, eram duas vacas mirandesas, brilhantes do bom trato, com a Novela a passear a sua cor de castanha corada e a Andorinha a exibir-se em nobrezas de ouro velho. Era ela a boa criadeira, pois o seu úbere túrgido oferecia-se aos filhos até que os visse saciados e, satisfeitos, se deitassem a ruminar o prazer. Nunca, porém, podia parir sozinha, porque na sua ânsia de ver a cria a mamar, dava-lhe escornadelas até que se erguesse, correndo o risco de a ferir.

As crias da Novela andavam sempre magras, apesar de ser mãe tão solícita como as demais. A primeira vez que pariu foi um desassossego. Cada vez que a vitelinha se acercava dela para mamar, dava-lhe coices e afastava-se sem permitir que lhe tocasse. O meu pai e a minha mãe andavam ralados. Chegavam-lhe a filha, para que a cheirasse, mas ela bramava de tal modo que tinham que lha esconder da vista.

“É preciso defumar a vaca”, sugeriu a tia Vermelha à minha mãe, mas o Fouce, que gostava pouco de coisas que lhe parecessem bruxedo, proibiu-o peremptoriamente.

Como em tudo, a teimosia das mulheres levou a sua avante. Deixaram o meu pai sair para Arufe, juntaram os ramos de oliveira benzidos no último Domingo de Ramos, aspergiram-nos com a água benta, meteram-nos num caldeiro e foram-nos acender à loje. Aquilo é que foi! Mal o fumo lhe chegou às narinas, a Novela levantou-se e, meigamente, foi lamber a cria, convidando-a a mamar. Operara-se o milagre.

A Novela era ciosa da sua dignidade vacaril. E da dignidade de uma vaca faz parte o direito à boca livre para poder saborear os rebentos tenros, mormente quando está a lavrar, jungida à charrua. Por isso, ninguém ousasse aparecer-lhe com a focinheira! Um dia, a Amélia atreveu-se, estando o pai a agradar na Ribeirinha. Mal a avistou, desatou em corrida tamanha, que foi ela, foi grade e foi tudo atrás. Com que custo se deixou apanhar! A raiva às focinheiras era tal, que o meu pai se viu obrigado a tirá-las de detrás da porta da loje, onde costumava pendurá-las, porque, assim que se abria a porta e a luz da rua incidia nelas, a vaca pulava e corria a esconder-se na parte mais funda do curral.

Habituada pelo meu irmão Pedro, a Novela só fazia as coisas se fossem pedidas com bons modos e gesto meigo. Que ninguém lhe tocasse nos cornos! Se lhe aparecessem com a aguilhada, firmava as patas e não havia quem a demovesse. Mas se em vez da aguilhada apanhassem uma palha e lha encostassem atrás da orelha, fazia tudo quanto quisessem. Mansinha!

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Os homens antigos só sabiam viver enquanto trabalhavam a terra e, por isso, demoravam tanto a reconhecer que já não podiam mais. O arrastamento do trabalho pelos anos da sua idade era o tempo que se davam para resolver a luta interior em que se opunha o natural desejo de preservar a vida e a constatação de que o fim se aproximava. O apego ao trabalho certificava-lhes a vida. Quando, finalmente, aceitavam que no dia seguinte se não levantariam à mesma hora das outras pessoas, estavam a entregar-se à morte. Mansamente.

“As vacas são muito inteligentes”, dizia-me o tio António, na conversa do início. Percebi, então, que ele queria que eu visse nos olhos delas a dor que era ele que sentia, mas que, por pudor, não traduzia em palavras.

A Novela e a Andorinha foram a última junta de vacas do meu pai. Por isso se me varou mais a alma!

domingo, 16 de outubro de 2011

NOTÍCIA

É já amanhã, segunda-feira, que o jornal Mensageiro procederá ao lançamento do livro Figuras Notáveis e Notórias de Bragança. Entre essas figuras constará o nosso Sr. Professor - professor Ribom - que tantas marcas deixou em nós e na nossa terra. O jornal, como pode ler-se na notícia, convida os leitores e os familiares das personalidades em causa a participarem na cerimónia.


Se algum dos nossos leitores for ao lançamento do livro, peço-lhe encarecidamente que faça o favor de comprar um exemplar para mim, que pagarei assim que for a Rebordaínhos. Desde já, muito obrigada.
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Peço desculpa pelo aparente abandono a que votei esta página, não publicando novos artigos nem respondendo aos comentários. Na verdade, mais dos que as incumbências profissionais, o que me tem limitado é a avaria no meu computador.

domingo, 9 de outubro de 2011

Topónimos

DO NABALHO AO LABANHO


Vem este artigo a propósito do anterior que mostra fotografias tiradas do alto do Nabalho/ Navalho, topónimo a cuja pesquisa dediquei várias horas, entre dicionários portugueses e estudos espanhóis em línguas galega e aragonesa.

José Pedro Machado identifica Navalho (Dic. Onomástico) como derivando de "nava" que define como planura, planície cercada de montanhas (Grande Dic. L. Port.). No entanto, o aragonês Jesús Vázquez Obrador (ver aqui, entrada 'Nabayuelo' pág 190) informa-nos que, quer em castelhano, quer em leonês, "Nava" é lugar inundado o pantanoso.

Começam, aqui, a surgir as minhas dúvidas. Com efeito, boa parte do Nabalho é plano, sendo essa parte muito húmida (que não é difícil imaginar como alagadiça). Mas o resto do lugar faz parte de uma encosta - realidade contrária, por isso, à ideia de planura e de pântano, o que afasta a designação do nosso lugar dos significados anteriores.

Os autores do
"Terras Quentes", de Macedo de Cavaleiros, identificam Navalho com "navalhão", pedaço de terreno húmido entre as searas que se não cultiva para que dê erva, no que são conformes com José P. Machado (GDLP). Confesso que esta associação entre as duas designações não me satisfaz muito.

Se tiveram curiosidade em lê-lo, o autor espanhol que referi acima radica Nabayuelo em Labayo - que teria sofrido a mudança do 'l' inicial em 'n'. Pensemos juntos:

Labaio > Nabaio > Nabalho ?

e (nasalando o 'a')...

Labaio (labãio) > Labanho ?

E não é que o Labanho, ali em Arufe, é tudo aquilo que foi dito acima? Pois não é ela uma terra plana cercada de montes e também alagadiça?

Curiosamente, os já citados autores do "Terras Quentes" apontam como significado de Labanho uma explicação que combina pouco com o nosso caso: chiqueiro.

Não sou linguista e, por isso, é possível que aquilo que escrevi não seja mais do que um exercício pessoal de imaginação. Mas gostaria muito de ouvir a vossa opinião, mais abalizada do que a minha, por melhor conhecedores dos lugares e/ou por maiores conhecedores da língua.

Nesta página - Celtiberia - podem encontrar uma conversa interessante sobre o assunto.
Quem estiver interessado poderá consultar também este trabalho aragonês

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Perenidade


Com efeito, para onde quer que se volta a alma do homem, é para seu sofrimento que se fixa em outro lugar que não seja em ti, embora se fixe em coisas belas fora de ti e fora de si, que, no entanto, não existiriam se de ti não recebessem o ser. Elas nascem e morrem, e nascendo como que começam a ser, e crescem para se aperfeiçoar, e uma vez perfeitas envelhecem e morrem: e nem todas envelhecem mas todas morrem. (Santo Agostinho, Confissões)

Às vezes apetece-me dar ao tempo, o atributo que Santo Agostinho dá a Deus: aquele que é fora do tempo. Este “fora do tempo” é a antítese de qualquer tempo porque significa perenidade, em oposição à finitude e à degradação.

Nas nossas paisagens tudo remete para esse "sem tempo", como se o Éden fosse vivo e possível.



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As fotografias são de um nascer do Sol em Outubro de 2007. Alguém será capaz de dizer onde foram tiradas?

domingo, 2 de outubro de 2011

Desafio

III

Quem adivinha a localização de cada uma destas pedras, onde estão inscritas as seguintes datas?


1ª. 1805 - Rebordainhos, à Chave - Casa de António Júlio Pereira


2ª. 1940 - Pereiros - Fonte junto ao lavadouro


3ª. 1737 - Rebordainhos, Outeiro - Casa da tia Perpétua



Obrigado a todos!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

OUTRA HISTÓRIA

stá tudo muito demudado do que era dantes! Nos nossos dias, esta história não seria possível, mas naqueles idos do fim da guerra, a segunda que enrodilhou o Mundo, as coisas sucederam conforme passarei a contar.


Corria um daqueles Invernos de frio tão zãeno que o calor das entranhas não basta para amornar o ar que se respira e deixa os pulmões tão engaranhados como os dedos nus que segam o nabal. Só em alturas como essas é que os homens de trás da Serra trocam a liberdade da rua pela clausura da habitação onde o tempo lhes rende por nada haver que fazer.

Foi num dia assim que o sr. Rogério se viu em Bragança, depauperado das forças necessárias para enfrentar a ladeira que o levaria ao hospital.

– Eu já não posso andar!

Enquanto proferia o desabafo, despiu o sobretudo e atirou-o para o ombro da Ester. Depois, encostou-se à parede de uma casa, perto da “marisqueira” que ficava em caminho, e ali se quedou, tremente de febre, exausto dos poucos passos que dera desde a Praça da Sé, onde o sr. Lopes os deixara, até àquela parede que, agora, lhe sustinha o corpo.


Em poucos dias, era a terceira vez que vinha a Bragança e tudo por causa de um mal-estar que o atacara a ele e à mulher, a tia Aninhas de Rebordaínhos. Ambos consultaram o médico que lhes receitou uma injecção que ministraram um ao outro, pois ambos eram mestres na arte, praticada vezes sem conta no braço de quem quer que lho pedisse. Com ela as coisas correram bem e começava a melhorar, mas a ele inchou-lhe o braço de tal maneira que precisou de nova consulta. Desta feita, regressou com uma bisnaga de pomada de beladona que deveria aplicar sobre o inchaço. Mas o diabo tem quereres e, em vez do alívio esperado, o mal parece que se espalhou, não lhe dando um minuto de sossego. Embora já descrente das ciências médicas, decidiu-se a tornar ao hospital. Porque a mulher ainda estava a convalescer, determinou-se que seria a Ester a acompanhá-lo. Ela, rapariga da família que vivia lá em casa, apesar de nunca ter ido à cidade, enfrentou o desafio com destemor, porque no viço dos seus vinte anos nada lhe metia medo. Calhou encontrarem o sr. Lopes no Espinheiro que, porque seguia o mesmo destino, se ofereceu para os levar de carro.

E agora estavam ali, de pé, calados um e outro; ele sem nada poder fazer, ela sem saber o que fazer. Passado algum tempo – nem saberiam dizer quanto, porque nestas aflições os minutos custam tanto a passar como as horas – ouviu-se uma voz amiga:

– Que andas a fazer por aqui? Perguntou o “Sobe e Desce”, polícia e companheiro de profissão do sr. Rogério, que estava casado com uma parente da tia Glória de Rebordaínhos.

– Olha onde vim deixar os meus ossos! Foi a resposta que ouviu.

– Ó homem, tu não digas isso! Anda, que eu ajudo-te a chegar ao hospital!

Lá foram os três, mas como a segadora de vidas tinha aquela filada, seguiu-lhes no encalço, bicando mais a cada passo dado e, mal deram entrada no hospital, chamou-o a si antes que algum médico se acercasse dele e o pudesse tratar. Com efeito, o doutor pouco mais fez do que atestar o óbito e informar os acompanhantes de que o doente falecera de um fleimão que lhe rebentara no pulmão.

– E agora, o que fazer? Perguntava a Ester, a si e às freiras que, naquele tempo, geriam o hospital.

– A menina não tem por cá ninguém conhecido?
– Eu não senhora! Só sei que está cá uma mulher da minha terra, a ajudar a fazer alheiras em casa de três irmãs a quem chamam as “Bartilotas”!
– Vá-se a saber delas, porque alguém há-de ser capaz de lhe dizer onde moram.

À Ester custou-lhe ter dito aquele “uma mulher”, mas o receio de incomodar as freiras fê-la poupar nas palavras. Na verdade, era a sua tia Aurora, irmã do falecido, quem se encontrava na cidade. Que notícia tinha para lhe dar, coitada!

Seguiu o conselho das freiras e, perguntando a uns e inquirindo a outros, chegou à residência das três irmãs solteiras onde a tia Aurora largou a massa das alheiras para, aflita, ir em seu socorro e ater à situação.


Naquele tempo já havia ambulâncias, mas ou Bragança não tinha nenhuma, ou a que houvesse não estaria disponível. O certo é que a tia Aurora e a Ester, em conversa com as freiras do hospital, tiveram de encontrar uma solução: chamar um táxi que as levasse, e ao finado, de volta à aldeia. A princípio, o chofer agradou-se do serviço, mas quando percebeu que tinha de transportar um morto, negou-se. Que não, onde já se viu? E se a Guarda me apanha, nestes tempos em que aparece sem que a gente saiba de onde?

Mais do que a intervenção das freiras, lembrando-lhe a obra de caridade que faria, deve ter valido o encorajamento fardado do “Sobe e Desce”: afinal, aquele homem era uma autoridade e não queria passar por desobediente.

Sentaram o sr. Rogério no lugar do meio do banco de trás, ladeado pela tia Aurora e por um criado do hospital que as freiras fizeram o favor de dispensar. A Ester sentou-se no banco ao lado do condutor.

Em Bragança nem nevava muito, mas em chegando ao cimo de Arufe, frente à Quinta do Fidalgo, a neve estava de tal modo acumulada que o carro não conseguia romper. Mais outra para ajudar! Ainda por cima começava a anoitecer! O motorista bem queria voltar para trás, mas as mulheres não lho permitiram. Depois de muito discutirem, lá o convenceram a esperar enquanto iam a pé buscar ajuda. Sozinho é que o não deixassem! Então, a Ester e o criado meteram-se a caminho e a tia Aurora ficou com ele, a atenuar-lhe os receios.

Se um carro não passa para cima, para baixo também não. Estava, por isso, posta de lado a hipótese de pedir favores a quem na terra tivesse automóvel. A solução que, aflita, a tia Aninhas encontrou, foi jungir as vacas ao carro e trazer nele, de volta a casa, quem de manhã tinha partido.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

ORAÇÕES

O Mateus é brasileiro e nosso leitor, além de bisneto de uma transmontana. A sua bisavó soube transmitir-lhe aquilo que, certamente, tinha como herança fundamental: o conhecimento das orações. Deles já recebi nova versão da oração antes de dormir ("Nesta cama me deito") e que acrescentei no lugar certo: aqui. Depois lembrou-se de outra, oferecida de manhã e é essa que apresento agora. Logo a seguir, escrevo outra que aprendi com a sr. D. Denérida.

Ao Mateus, o meu muito obrigada!



Bom dia vos dou, Rei da Glória,
Bendito seja o vosso poder.
Vós quisestes, Senhor,
Que eu chegasse a amanhecer.
Minh' alma vos entrego,
Ó Rei soberano de bondade,
Embora eu não mereça,
Tenhais de mim piedade.


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Ao Santo do Meu Nome
Glorioso Santo....
De quem tenho a honra de ter o mesmo nome,
Protegei-me, pois o céu me concedeu em vós
um especial protector.
Rogai por mim,
Para que eu possa servir a Deus
Como vós O servistes na Terra.
Assim seja


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Virgem Santíssima,
Mãe do meu Deus
E minha Mãe
Dai-me a vossa bênção.
Viva Jesus, minha vida,
Viva Maria, minha alegria!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Concurso de Fotografia


A Câmara Municipal de Bragança organiza um concurso de fotografia que tem por objectivo "divulgar a cultura ancestral das festas de Inverno de Trás-os-Montes". O nome dado a este concurso é 5.ª Bienal da Máscara - Mascararte 2011.

Ao concurso de fotografia estão associados também concursos de Pintura, Escultura e Arte Infantil e Juvenil. Pode ler o respectivo regulamento e obter mais informações aqui.

A data limite para a entrega de fotografias é 4 de Novembro de 2011.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

NOVIDADE

É com muito gosto que anuncio que o Rui Freixedelo aceitou fazer parte da equipa de autores do Rebordainhos. Assinará com as iniciais "RF".

O Rui, para os mais distraídos, é o filho mais novo da Maria Angélica e do Zé e tem colaborado connosco desde sempre, sugerindo artigos, enviando imagens, etc. Espero, do fundo do coração, que os nossos leitores o recebam com a alegria que merece.


OBRIGADA POR ACEITARES, RUI!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Afinal, o arraial ainda conseguiu reunir um número interessante de pessoas. Devia estar frio - vê-se pelos casacos vestidos - mas, certamente, soube bem ter mais um dia de festa. E ao frio estamos bem acostumados, não é verdade?

Aqui ficam alguma imagens que o Rui Freixedelo teve a gentileza de enviar.

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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O TEMPO

Por

AIRES MARTINS

Talvez nunca tenha doído…talvez tenha sido apenas a recordação…talvez tenha sido o cheiro dos carvalhos que impunham o verde do Verão nos montes que nos ladeavam.

Talvez a dor fosse minha e daqueles que ainda respiravam o ar de Rebordainhos. Talvez a dor pertencesse aos Santos que compunham a procissão de Domingo. Talvez o pesar fosse dos olhares mais profundos, engelhados, velhos, e das pessoas que os carregavam como se fosse parte do seu destino.

Talvez a dor existisse porque persistia a teimosia de não aceitar o tempo. O tempo que passou sem questionar ninguém, o tempo que passou por cima dos anos e atropelou as pessoas que faziam parte do analgésico da vida. O tempo que insiste em mudar a aldeia e as pessoas que nela cresceram, o tempo que desafia as memórias mais antigas e aceita as novas pessoas com uma condição prévia: a de aceitarmos o som do sino, o som que nos lembra que as horas passam…

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Notícias (diferentes) da Sr.ª da Serra

Não resisto a publicar:



Um abutre esfomeado e exausto desceu na Senhora da Serra, ontem, no início das novenas. Apiedadas, as pessoas chamaram a GNR que chamou outras entidades responsáveis e todos juntos fizeram a obra de caridade de alimentar o pobre bicho que, mal se viu nutrido e recomposto, abriu as asas e rumou a Sul.

Bem fez o abutre em pousar no santuário: Nossa Senhora, protectora dos aflitos, saberia como valer-lhe, servindo-se do bom coração de alguns homens.

A história vem contada no blog dos bombeiros de Bragança e amplamente ilustrada

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Festa

As notícias vão bem atrasadas, mas acredito que quem não esteve presente goste de ver mais imagens, além daquelas que a Lurdes fez o favor de publicar. As fotografias são da autoria do Rui Freixedelo e, como toda a gente conhece os santos, não adiciono legendas. Não me perguntem pela ordem dos andores: sei, apenas, que a homenageada - N.ª Senhora do Rosário - abre a procissão e que a padroeira - Santa Maria Madalena - a encerra.

Devido à intensa trovoada que se fez sentir, não foi possível realizar-se o arraial, sendo adiado para o próximo dia 4 de Setembro. Confesso que tive muita pena dos mordomos que não se pouparam a esforços para nos proporcionar uma festa animada. Espero que, apesar das novenas de Nossa Senhora da Serra, haja muita gente a participar.


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Nota: tenho várias fotografias. Se algum dos presentes na procissão se quiser ver, pode escrever-me para o endereço do blog, que lha enviarei com todo o gosto.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Festa 2011 Nossa Senhora do Rosário





Nos dias 19, 20 e 21, na nossa aldeia decorreram as festas em honra de Nossa Senhora do Rosário. Sexta-feira foi a noite da sueca, sábado de tarde houve jogos tradicionais e, depois, um convívio no Largo do Prado, onde não faltou comida nem a "pinga" como podem ver nas fotos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

ORAÇÕES

Quando todos andávamos a pé e os caminhos da noite nos assustavam devido à memória herdada daqueles tempos em que os tratantes faziam covil nos montes, durante a viagem rezávamos uma oração que tinha fama de infalível: o "Justo Juíz Divinal". Lembro-me do assombro que me causavam as histórias das maravilhas operadas sobre quem rezara a oração e correra perigo real. Eram histórias contadas pela tia Vermelha, pela minha mãe ou pela tia Helena, rematadas sempre com um "é verdade!" E porque não seria?

Quem o reze bem torna-se invisível aos olhos de quem lhe queira fazer mal. Mas a tia Vermelha era mais crente e contava a seguinte história: certo pastor adormecera a meio da oração (ela nomeava a pessoa, a mim é que já me não lembra quem). Esse pastor tinha inimigos que o queriam matar. Estes, sabendo onde tinha o carreto, foram lá ter. A vítima acordou ao ouvir isto:
- "Vamo-nos embora, porque aquilo que vínhamos cá fazer, já alguém o fez por nós!"
Que viram os assassinos? Um corpo cortado ao meio, motivo bastante para concluírem que o homem estava morto. Moral da história: mesmo rezada por metade, a oração surte efeito. Aqui fica ela para os mais esquecidos, tal e qual como a minha mãe ma ditou há já muitos anos:


JUSTO JUÍZ[E] DIVINAL
Justo juíz[e] divinal
Filho da Virgem Maria
Em Belém fostes nascido
Em Nazaré crucificado
Entre toda a judiaria.
Peço-Vos, Senhor meu,
pelo Vosso santo dia,
Que nos guardeis o nosso corpo:
Que não seja preso nem morto
Nem tenha justiças em volta.
Pazteco, (1)
Pazteco,
Três vezes pazteco,
Disse Cristo aos Seus discípulos.
Se vierem nossos inimigos
Para nos ofender,
Tenham olhos, não me vejam;
Tenham boca, não me falem;
Tenham braços, não me ofendam;
Tenham pernas, não me alcancem.
Com as armas do Senhor S. Jorge
Serei bem armado;
Com a capa de Abraão
Serei bem capeado;
Com o leite da Virgem Maria
Serei bem borrifado;
Com as chaves de S. Pedro
Seremos bem fechados
Onde os nossos inimigos
Não nos possam ver, nem falar,
Nem sangue do corpo tirar.
Pelos três clérigos revestidos,
Pelos três cálices bentos,
Pelas três hóstias consagradas
Comungastes ao terceiro dia
Dai-nos, Senhor nosso,
Aquela doce companhia
Destes à Virgem Maria
Os portais de Belém
Aquém Jerusalém,
Que eu vá e venha
Na mesma alegria
Foi o filho da Virgem Puríssima
Santa Maria.
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(1) Nem sei como hei-de escrever isto, mas corresponde ao latino "pax te cum": "a paz esteja contigo"

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Ainda o diabo

Vamos lá, então, rir-nos um bocadinho:

Francisco José Freire, na entrada sobre a cadeia, remete-nos para Bluteau (1638/1734) que foi um frade (teatino) de grande cultura e autor de um dicionário notável, o Vocabulario Portuguez e Latino (etc., porque o nome é compridíssimo). Atente-se no modo como ele discorre sobre Belzebu, o tal que tenta para a inveja:

Para os menos familiarizados com esta forma de escrever, deixo aqui a transcrição em letra moderna:

“BELZEBUB, ou Belzebut, ou Beelzebub. Deriva-se do Caldaico Beel, ou do Hebraico Baal, que querem dizer Senhor, e de Zibub, que vale o mesmo que Mosca, e Belzebub, que significa Deos Mosca, ou Deos das Moscas, era na Palestina o Idolo, que os Accaronitas invocavão contra a perseguição das moscas; e como as moscas tudo sujão, foi este mesmo ídolo chamado Deos do esterco; e parece que por esta mesma razão chamarão os judeos a Belzebub, Princepe dos Demonios, porque só um princepe de merda pode ser senhor desses immundos espíritos (…)”

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Nota: quem quiser, pode ler no Antigo Testamento o primeiro Livro de Samuel onde os Acaronitas são bastamente citados.


sábado, 2 de julho de 2011

Diabos à solta

O que nós ganhamos em ler os antigos!

Hoje aprendi que, afinal, não podemos invocar indistintamente os muitos nomes do diabo. É que eles querem dizer coisas diferentes! Ora veja-se:

Não sei se é por obediências demoníacas que alguns vão parar à cadeia. Mas cada qual vai parar à sua!


Estas e muitas outras informações (ai que prazer não cumprir um dever…) bebi-as nas “Reflexões Sobre a Língua”, de Francisco José Freire, um português do séc. XVIII, contemporâneo do Marquês de Pombal. Foi muitas coisas, entre elas, frade, escritor e cultor da Língua Portuguesa que, sob o nome de Cândido Lusitano, inspirou um movimento de renovação clássica (Arcádia Lusitana) que se propunha contrariar a estética barroca então em voga.

As suas “Reflexões” são uma leitura de a gente se perder nela!