domingo, 21 de dezembro de 2008

ARES DA SERRA

VII - O PRESÉPIO DO DOUTOR CALEJA
(…aqui havia uma fraga…)

por
António Augusto Fernandes

O vinte e quatro de Dezembro amanhecera límpido, sem amostra de nuvem que maculasse o espelho azul do céu. A geada rebrilhava intensamente nos telhados e na erva dos lameiros. As vozes das raparigas a caminho da fonte retiniam no ar translúcido com vibrações de cristal e o trroc- trroc dos socos ferrados de brocha larga sobre a lama congelada tinha ressonâncias de passos ecoando em catedral vazia. A névoa recalcada atulhava, lá em baixo, o vale da Ribeira dos Pereiros, como um mar de algodão onde apetecia rebolar-se a gente, alastrando desde a ladeira das Ribas até aos contrafortes da serra de Bornes. Mas, pela tarde, o mar de algodão foi-se evolando numa gaze fina de névoa a marinhar pela encosta da Fraga do Berrão. Num repente a luminosidade do dia amorteceu e o céu ficou zúbio, num anoitecer precoce que polvilhava tudo de tristeza.

– A névoa subiu à serra, Doutor. Senhas de neve! Temos aí neve da grossa, e não tarda! – dizia o Jaime, especado no traço da porta da Taberna de Baixo.
– Pori... – respondia o Zé Bernardo, estacando o passo … E, apontando o nariz batatudo para o céu cor de chumbo, rematava: − É bem capaz.
Isso queriam eles! porque, nevão caído, perdidos e achados era pelos montes, atrás dos coelhos engaranhados pelo frio ao toro das urzeiras ou tolhidos na corrida pela neve ainda fresca. E perdiam-se num silêncio de divagações cinegéticas…

Fosse por esse comum amor pela caça, fosse pela identidade de feitios, ambos de poucas palavras, ambos um tanto de candeias às avessas com a vida, ou até pelo vago parentesco, entre eles nascera uma cumplicidade quase fraterna. De tal maneira que o Jaime o convidava amiúde para cear lá em casa, sobretudo em vésperas de caçada, quando se tratava de escolher pólvora e chumbo e de meter nos cartuchos as buchas de papelão. Era também o Doutor quem o acompanhava quando ia de longada até à Terra Quente, em demanda do bom vinho, que a serra não o dava e o das redondezas, valha-o Deus! gelava nas pipas com o sincelo. E quando os tremenhos da vida o chamavam a algum lado, não hesitava em confiar o governo do soto ao Zé Bernardo: mercearia, ferragens, chitas, vinho incluído, que o Zé Bernardo… é como quem guarda almas – rematava o Jaime a sublinhar a confiança que depositava no seu lugar-tenente. E era! Se, por um acaso muito provável, a alma lhe pedia meio quartilhito, emborcava-o, sim senhor, mas depositava na gaveta dos trocos a paga. À noite, quando o dono tornava das suas voltas, o Zé Bernardo, que não sabia ler, apresentava um papel pardo de cartucho repleto de hieróglifos que só ele entendia, e desfiava o rol de todas as transacções havidas ao longo do dia.

Retomavam a conversa:
– Pelos vistos, já levas aí a consoada… − observava o Jaime.
– É verdade – tornava o outro, voltando a cabeça e fitando com desvelo a enorme troncha que trouxera da sua belguita do tamanho de uma sala, talhada no baldio, à Ribeira do Catrapeiro. A couve acogulava a cesta dependurada do cabo da sachola que trazia ao ombro e enchia-o daquele orgulho que só sabe sentir quem é proprietário pobre de dois palmos de terra que se trazem mais limpos e escarolados que o chão de casa.

– Ouve lá, ó Doutor, porque é que não trazes a couve e vens comê-la connosco na Portela? – convidava o Jaime, adivinhando-lhe o desconsolo de uma consoada repassada de solidão e cismas em frente das brasas, na furna negra da sua choupana.
– Nã… nestes dias, cada mocho a seu souto. – E rumava já em direcção ao barraco de pedra solta que negrejava, encostado a uma fraga descomunal.

Com certeza se lembram ainda daquela fraga do Prado que o povo se habituara a ver como um ex-libris da aldeia, postada no topo nascente do Prado e que o progresso estilhaçou como estilhaça sempre muitas outras coisas na sua caminhada!... Bem no centro da aldeia, ali resistira desde sempre como símbolo da fibra serrana, de antes quebrar que torcer. A fraga com o olmo e o freixo que morreram de velhos marcavam a singularidade do velho Largo do Prado. Modernizado o Largo do Prado, ficou apenas mais um largo, parelho doutro largo qualquer.
***
Era ali que morava o Zé Bernardo, naquela lojita de terra batida e telha vã, delimitada por três paredes adossadas à Fraga do Prado. Sem janelas, o dia só ali entrava pela porta ou alguma talisca deixada por telha arrancada pelo temporal e as paredes negrejavam mais que o caldeiro de cozer a vianda dos porcos.

Morava sozinho. A mitigar-lhe a solidão, em tempos, fizera-lhe companhia uma cabra, a famosa cabra do Doutor, que ele atrelava a si com uma guita quando ia por lá a ganhar a jeira. Enquanto ele derrancava o esqueleto agarrado ao cabo do enxadão, a cabra fazia pela vida tasquinhando a erva bravia que crescia na berma dos caminhos ou nas poulas dos baldios, presa pela guita ao toro de uma giesta. O animal, que era manso como o pão e tinha alma de gente, dormia a um canto sobre uma fachoca de palha e dava-lhe o leite do mata-bicho. E tão asseado era que até parece que nem apestava o raio do bicho que tinha artes de se aliviar enquanto andava por lá! Já velha e durázia, não teve coragem de a matar: vendeu-a a um peliqueiro de Carção pelo preço da pele.

E ali se mantinha num passadio frugal que envergonharia S. Pacómio, anacoreta no deserto. Da mãe, a tia Camila Carroucha herdara a sombra das paredes, o nariz batatudo e uma tez morena mais que a conta que lhe valera a alcunha de Carroucha. Agreste alcunha era essa: mas soava mais agreste ainda na bárbara pronúncia do tch galaico-português que na serra se mantivera desde os tempos em que daqueles cerros se rechaçara a mourama: Carroutcha. E de tal modo se lhe colou a alcunha que poucos na aldeia sabiam que o Zé Carroucho trazia da pia baptismal o nome cristão de José Bernardo. Até que um dia o Jaime da Taberna de Baixo o rebaptizou de Doutor Caleja, vá-se lá saber porquê. Talvez para lhe despir a bárbara alcunha de Carroucho, talvez por ter nascido na mais esconsa caleja da terra, lá para os lados do Covelo. O novo chamadouro pegou, sancionado pela fama de um médico de Macedo de Cavaleiros que dava pelo nome de Dr. Calejo. E assim passou a ser o Doutor Caleja para vizinhos e amigos. Com o andar dos tempos, por mor da brevidade, ficou apenas o Doutor.

Como quem nada tem nada perde, no tempo em que o Brasil ainda fazia dinheiro, o Doutor também arriscou uma saltada até à banda de lá. Mas, como cão sem coleira que não aceita dono, não se acadimou a medir tempo e litros de feijão preto atrás de um balcão na Tijuca. Mordiam-no saudades dos caminhos desimpedidos da serra, dos roquelhos que medravam nas touças pelo Outono, da lazarina com que ia avezando o seu coelhito pelos montes e, mal se pilhou com o dinheiro da passagem, veio retomar o senhorio da sua choça, mais sereno, mais ascético, mais despojado de ambições. Quando, à tardinha, se sentava num calhau em frente do tugúrio, esmoendo com os vagares de quem é dono de todo o tempo do mundo um cibo de bacalhau cru sobre o carolo de pão centeio e meia cebola, tinha o ar vagamente enfadado de Diógenes ou, sabe-se lá, de suserano dos vastos reinos que se estendiam do Prado até ao monte da Cabeça, onde ele conhecia todas as luras de raposa e todos os tourais onde os coelhos vinham bater o fandango em noites de luar.

Caladão, muito cordato, apenas abria a boca para contar alguma larota de caçador em que nem ele mesmo acreditaria lá muito. E só aos domingos, de quando em quando, saía deste comedimento para apanhar a sua cardina catártica. E então, muito tartamudo, com a beiçola gorda e roxa de vinho descaída para o queixo, soltava palavrão de fazer corar um preto. Até que a mocidade, que por ali se juntava no jogo do fito e do calhau, condescendia em lhe despejar uma romeia de água fresca pelo toutiço abaixo para aclarar as ideias. Mas na segunda-feira, logo à-pormanhã, com grandes papos sob os olhos e a beiça gorda ainda arroxeada da carraspana mal curtida, retomava o passadio austero dos dias ronceiros: agarrava do enxadão e ia e dar mais uma jorna a quem lha requisitara. A Lídia do Jaime, que o estimava como a parente chegado, repreendia-o com brandura: − Ó Zé, tu porque é que te emborrachas assim e és tão malcriado? O Zé Carroucho, cândido como criança travessa repesa da traquinice, assumia em voz sumida e sem levantar os olhos: − Lá calha…
***
Pois a névoa da manhã dera em marinhar pela encosta da Serra dos Pereiros e a noite cerrara muito temporã sob um céu de chumbo. Aquelas galinhas de aldeia, que incansavelmente esgaravatam o ciscalho das ruas e eram de uma inegável sensibilidade meteorológica, tinham recolhido ao poleiro ainda mais cedo que de costume, enganadas pela treva cediça. A pardalada grulha e zaragateira, adivinhando a neve, acolhera-se também aos medeiros onde a palha, além do agasalho, oferecia ainda algum grão perdido nas malhas. E a gente chegara-se também ao afago da fogueira onde cozia o pote da consoada. Como aos picos da serra a electricidade não arribara ainda, nem luzinhas multicolores salpicavam a treva, nem o silêncio era quebrado pelas melopeias natalícias que adocicam a azáfama mercantilista das grandes urbes. Um silêncio denso e mole gasalhava o casario agachado na treva, repleto de quietude e mistério − era a epifania dos grandes nevões.

Vendido o último quartilho de azeite para temperar o bacalhau da consoada e o último litro de tinto para o empurrar, como não esperasse mais clientes, o Jaime entendeu por bem fechar o soto. Chamou o filho mais novo que por ali cirandava:
– Ó Zé, leva essa peixota de bacalhau ali ao Doutor, e… toca para casa, que está a arrefecer.

O miúdo atravessou o Prado fazendo rodopiar a peixota do bacalhau dependurado pelo rabicho. Com a familiaridade de visita assídua, empurrou a porta perra da cabana do Doutor e despachou o recado:

– Ó ti Zé, tome lá que manda o meu pai. – E atirou a encomenda para cima da mesita de pinho onde o Doutor refeiçoava.

Desincumbido do recado, desandava já, quando atentou no coto de vela que ardia ao fundo do cortelho. Aproximou-se a fariscar: ora, sim senhor! O Doutor Caleja também tinha armado o seu presépio!

E de facto, sob a bênção suave do coto de vela surripiado na sacristia depois de despir a opa de tirar a esmola, o veludo de quatro farrapos de musgo macio almofadava o tampo gorduroso da arca onde guardava o pão e o toucinho de adubar o caldo. Sobre a macieza do musgo, à direita, uma estampa de Nossa Senhora da Serra que o Doutor trouxera da última festa que a nove de Setembro se celebra logo ali, no píncaro da serra da Nogueira. Que mais dá que seja Nossa Senhora da Serra ou outra? É Nossa Senhora e bonda! À esquerda, como não constava que nos arredores se armasse romaria em honra de S. José, figurava outra pagela que informava: imagem do milagroso Santo Ambrósio que se venera na sua capela de Vale-da-Porca – outra das devoções aceites pelo Zé Bernardo. O bordão e as longas barbas tanto assentavam no Santo Ambrósio como no S. José … o carapuço de bispo é que não vinha a calhar, mas paciência! Quem faz o que pode… Ao centro, sobre um manhuço de palhas centeias, sob o olhar atento da Senhora da Serra e do Santo Ambrósio de Vale-da-Porca, repousava o pequeno crucifixo que o Doutor, muito pragmático, desenganchara do seu rosário.

O pequeno, muito pasmado, ainda se dispunha a transigir com as outras inovações introduzidas na iconografia natalícia ao arrepio da tradição… mas esta do Menino Jesus deixava-o perplexo:
– Ó tio Zé… e... então o Menino Jesus? Isto assim não vale!
– Não tenho. – E quedou-se um momento de olhos postos nas largas labaredas da giesta que lambiam o bojo negro do pote da consoada. Depois, com ar de quem filosofa sobre a vida, com muita vida já vivida e muitas maleitas curtidas, sacando as palavras a custo, como quem as puxa nos alcatruzes do entendimento, acrescentou:
– Olha, Zé… tanto monta que o Menino esteja a nascer nas palhinhas ou já a morrer na cruz. Mal nascemos, já estamos de catrâmbias para a cova… E mal se morre já se está a nascer outra vez…

Calou-se, cansado de tão profunda tirada metafísica. Depois, de olhar parado nas brasas que remexia com um guiço, rematou:
– E diz lá ao teu pai que muito obrigado pelo bacalhau.

sábado, 20 de dezembro de 2008

É NATAL!


O Natal está à porta.
De seguida, mais um ano que termina e outro está quase a nascer.
Assim, e sem mais delongas, tenhamos a esperança de um ano melhor a todos os níveis.


Augusta Mata


PS: a esperança ainda não paga impostos, pois não?

A Flor



A FLOR

Virei costas, abalei mundo fora …
Cerrei olhos, chorando por amor,
Bati portas, feito surdo ao mundo,
Tal como errabundo de outrora…

Queria esquecer, sem recordar,
Numa amada vontade de dor,
Naquele anoitecer cinza de breu,
Com a vil esperança de regressar.
E assim, … livremente, lá fui eu…


Errei por pecaminoso caminho,
Nas longas, tristes noites que chorei,
Deleitado em frios pés descalços,
Nos percalços de rosas que pisei.

Fui sultão, gente, até pedagogo,
Naquele quente frio de carinho,
Com tudo o que dei e não pedia,
No vão arrasto do lúgubre lodo.
E assim livremente, eu vivia.

Também fui feliz, livre, e ouvi
Naquela vítrea luz do teu olhar,
O som no esgar da vida que fiz,
E a infeliz dor do que perdi.

Então, teimei renascer e voltar.
Do tempo que ficou, nesses cantos,
E assim, dedico-te mil encantos,
Para nesses tempos nunca ficar.

Assim pensei. …. mas…,

Acordei vagabundo sem amor,
Recordei,
brando e abandonado,
Naquele fundo de dó e de dor,
O Só,…, em que me
tinha tornado

Mesmo assim,……. de novo, beijei

A Flor.


Orlando Martins - 2008

domingo, 14 de dezembro de 2008

Neve na Serra de Nogueira

Mais uma vez a neve bateu às nossas portas durante a noite. Aqui em Bragança, apenas salpicou os carros estacionados nas ruas mas, lá em cima, nas serras de Nogueira e Montesinho, o branco foi rei mais uma vez. Impossível resistir! Depois de almoço, lá fomos nós para mais uma aventura na neve na Serra de Nogueira. Aqui deixo um cheirinho para quem, mais uma vez, não pode deliciar-se com este espectáculo. Aproveitem.

Augusta Mata

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

ECOS DO MEU SENTIR

III - DA CIDADE À SERRA
por

FILINTO MARTINS


Há dias fui ao “sótão da minha meninice…”.
Cheguei à Princesa do Tua numa manhã primaveril, não de comboio, mas como fidalgo de outros tempos. Entrei no Mercado, melhor, no edifício, pois as vendedoras eram apenas três, porém suficientes para comprar uma “raba” e uma couve… Fez-se luz: ao lado um sapateiro, como noutros tempos, tinha o calfe de umas botas na forma pregado com “cerzetas”, como outrora fazia o senhor Carlos.

Onde nasci? Suponho que em casa, no Covelo, e talvez a parteira tenha sido a tia Antónia… Tive sorte, fui registado vinte e dois dias depois da data do nascimento, com a assinatura do professor Francisco Joaquim Fernandes Ribom, que escreveu Rebordainhos sem acento (desculpa lá, Fátima) e rubricou as páginas da minha cédula, que guardo religiosamente, com a palavra Ribom a tinta azul, provavelmente daquela que nós mais tarde também usámos na escola. Tem sessenta anos a minha cédula (só as mulheres não dizem a idade). Ao folheá-la verifiquei que tive mesmo sorte, porque não fui daqueles que na mesma página tinham à esquerda a data do nascimento e à direita, na mesma página, morreu… (não fui de anjinho). Hoje, as cédulas omitem esse pormenor, sinal do progresso, do bem-estar, da esperança de vida, da diminuição da natalidade… menos zorros, mais prevenção.

Enquanto deambulava por Mirandela, cidade linda, com uma área de lazer que dá gosto, ouvi tocar os sinos de três igrejas, de forma monótona e repetitiva, mas com leve atraso uns dos outros, como o povo Português.

Segui viagem, vendo aqui e além uma ponte, um troço da antiga linha do caminho-de-ferro, porém não vislumbrei qualquer cantoneiro. Antigamente, quais estátuas, embelezavam a paisagem de Rossas até Bragança e ajudavam os condutores, nomeadamente o professor Ribom, que tocava em toda e qualquer curva que aparecesse, acenando para se ir à vontade e assim descansarem da sua monotonia. Este, para entrar na garagem, necessitava da ajuda do irmão, senhor Carlos, que lhe fazia um risco no chão para ele poder entrar. Excepto uma vez, em que passou ao lado do risco e o carro ficou sem pintura dum lado. Logo a Dona Maria acudiu: “não faz mal”. A que o senhor professor ripostou: “Ó Carlos, se tinha seguido o risco não batia”. Fazia agora falta o cantoneiro, pois nesta altura já não ia ao lado o Tio Jaime, que foi o seu mestre, por diversas vezes, para uma simples viagem a Bragança. Eu, no banco de trás, enquanto o Tio Jaime aconselhava o mestre: “mais à esquerda, mais à direita”, tremia, e a Dona Maria acrescentava: “Temos muito tempo, até vamos muito bem”. O senhor Carlos, bem cochichava: “Ah! Se fosse eu a conduzir”.

Ao atravessar Rossas, na passagem da linha de outrora, olhei para a estação, mas não vi o senhor Pinto, com a sua bandeira vermelha enrolada num pau, o “subiote”… aquele boné que ele só colocava para a passagem da automotora, constituíam apetrechos que para mim tinham muita importância na altura … Para que é serviriam? Pois atrás do guichet quando se comprava o bilhete, o último que comprei custou 101$50, para a longa viagem até ao Porto, ele nunca tinha boné?

Cheguei finalmente a Rebordainhos e logo verifiquei que afinal a casa do Tio Aníbal Fuseiro não se esborralhara por completo… não atropelei nenhum galináceo, tendo encontrado apenas o Alfredo, mais conhecido por Aidinhas, encostado à parede da casa da tia Joana do Outeiro, por quem o tio Benjamim, homem profundamente religioso, encomendou um padre-nosso pela alma dos parrecos da tia Joana, que tinham morrido, dado que já não havia mais por quem rezar. No curto trajecto que faltava não foi preciso travar, porque já não havia galinhas, nem os parrecos da tia Perpétua, que outrora eram música em qualquer poça de água, mesmo numa simples pegada de uma vaca.

Não ouvi qualquer chiar de carro de bois, como em tempos… O Alfredo gostava de apertar as “tarrachas” a fim de os vizinhos ouvirem bem e irem buscar as sacas das castanhas que aqui e além, de pé, esperavam pelo tractor ou jipe que as transportasse.

Regressei ao Porto, ao parque do Museu de Serralves, onde dias antes pude ver a realidade de outros tempos e ocorreu-me: “agora são os jovens das aldeias que têm que ir às cidades, para observar in loco, as vacas e as ovelhas”. Já que não fiz a viagem como o Jacinto e o Zé Fernandes, pude contemplar o silêncio, a paz, o sossego, o ar puro da serra de Nogueira. Que se passa? Afinal há mais vacas e vitelos ao lado da Avenida da Boavista que em Rebordainhos! Civilização?

Olhei para as escadas da casa da minha irmã e não vi, como sempre via, o meu pai apoiado a um cajado e descer, mal via o carro. Enquanto subia, para meu espanto, ouvi um toque de sino, só um e logo o Bino me elucidou: “é o relógio da Igreja”. Mas não se vê o relógio…

Fui até Bragança, tinha os meus dezoito anos, pimpão, sapato preto engraxado, calça com vinco, talvez com alguma brilhantina… parei na Sé. “O meu amigo pode dizer-me que horas são?” Resposta pronta de estudante: “olhe para o relógio da Sé!” Retorquiu-me o transmontano, que provavelmente viera à feira dos 12: “Se eu soubesse ler não lhas perguntava… eu até tenho relógio!”

Aquele simples toque levou-me ainda mais longe. Recordo, com saudade, o toque das Trindades, para o Terço, para a Missa, deram sinais, a concelho, incêndio, “morreu um anjinho” e aquele toque para as aulas, que a Sara dava tão bem…

Ainda pequenote, brincando ao pingue, à bilharda, ao pião, ao fito, com uma junta de bois feita de “bulharacos”, enfim, ao “rou-rou” – internet e Play Station da nossa actualidade – lembro-me de uma promessa do meu pai: “se apanhares a água para os pedreiros fazerem a “massa” para o palheiro, mandamos fazer umas botas ao Sr. Carlos sapateiro”. Lembro-me perfeitamente de apanhar a água da fonte das Ribas de cima, fonte pequenina, que hoje deve estar seca, com uma “remeia”, calculo.

Trabalho feito, promessa cumprida, pois o meu pai era homem de palavra. Só havia uma coisa que eu detestava que ele me mandasse fazer – ir com as vacas para o lameiro. Lá ia, mas sempre contrariado, a não ser que fosse para as Bouças e lá andasse o Pilatos. Com ele aprendia-se muito… se aprendia, cá voltaremos.

A ânsia de conseguir tão almejado prémio ajudou-me a esquecer as brincadeiras e a arranjar força para apanhar água. Ter umas botas como “os homens grandes” e não uns socos que o tio Grilo, artesão da terra, tão bem fazia e em determinados jogos e lutas eram uma arma poderosa nas canelas do mais atrevido.

Chegou a ordem: «Vai ao senhor Carlos para te tirar as medidas». Suponho que não falei com ninguém, era segredo, para depois aparecer com umas botas novas junto dos meus amigos de brincadeiras, mãos nos bolsos (era possível que estivessem rotos) para poder puxar as calças e assim mostrar a obra de arte.

«Senhor Carlos, o meu pai mandou-me vir tirar as medidas para umas botas. Olhe que são para a festa!». Resposta pronta do senhor Carlos: «Já devias ter vindo, pois tenho que as levar a Bragança para coser e pôr a sola de molho… isso demora». Pegou numa folha de papel seguida de ordem: «põe aqui o pé». Com um lápis obteve o desenho perfeito dos meus delicados pés.

No nosso tempo, tínhamos uma admiração especial por algumas pessoas da terra – Pe Amílcar, Professores, Armindo (barbeiro), que dava em dez minutos dez anos de rejuvenescimento e o senhor Carlos, ilustre sapateiro da aldeia, sem concorrência no negócio, deambulava pelas ruas com maior frequência, na altura das matanças. Pressentia, qual galgo a lebre ao longe, o cevado morto que no banco era presa fácil – «boas cedas» … arrancava sem o mínimo queixume do defunto. Nestas deambulações acompanhava-o sempre o seu avental de cabedal, aqui e ali com as marcas da navalha afiada que errara o alvo e, no seu andar aligeirado, meneava as nádegas salientes, efeito do seu banquinho de trabalho. Aquele seu lábio descaído, pensávamos nós, seria de molhar a linha para que após o furo com a sovela, melhor deslizasse aquela, mas não, era de nascença. Era uma pessoa que metia respeito e medo aos mais novos, desde que vissem os seus apetrechos – sovela, turquês, ‘luvas’, martelo e aquela faca tão afiada… Chamávamos-lhe «senhor Carlos» e não «tio Carlos». Porque seria? Respeito? Profissão ou medo? Mas era um homem bom.

Com o aproximar do prémio faltava um pormenor: «Senhor Carlos, mas eu queria daquelas botas que chiam!»
«Ó rapaz, isso não é fácil. Tens que ir à tua mãe que te dê (deve ter dito deia) duas fatias grossas de presunto magro, bem magro, rapara bem, para meter no meio das solas. Vais ver como chiam!»

E lá foi o ignorante pedir as ditas fatias de presunto, que embora analfabeta, a minha mãe prontamente me disse: «seu brutinho, o sapateiro quer é comer o presunto!».
Inocência ou ignorância?

Responda quem quiser, sei apenas que tive umas botas novas, por medida! Hoje, a civilização tem todos os modelos e mais alguns… cores e feitios à disposição de todos os pés mas, por medida, será para uma minoria…
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À excepção da primeira fotografia (enviada pela Céu) e da última (roubada daqui), as fotografias que ilustram o artigo são do próprio Filinto

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Actividades Económicas



I - AGRICULTURA

A FAMÍLIA DA SENHORA MARGARIDA




Hoje retomo o tema das actividades económicas da aldeia. Foram bastantes as pessoas que aceitaram falar comigo e, acredito, sentem-se um pouco defraudados por não verem nada publicado. A todos peço desculpa, lembrando, em minha defesa, que não foi por descaso e, muito menos, por desamor.

Porque a nossa terra faz parte do mundo rural, parece-me justo que inicie esta série referindo quem se dedica exclusivamente à agricultura e dela tira o seu sustento. De entre esses, destaco aqueles que devem ser os maiores proprietários: os herdeiros do sr. João Pires, ou sr. João Santo, como se preferir e a família não levará a mal.

Tudo somado, trabalham uma área de cerca de 62 hectares. A senhora Margarida é a cabeça de casal e tem no Toninho, o filho mais velho, o seu braço direito. Com eles, a tempo inteiro, também trabalha o Manuel, mas a Luísa e o Carlos não falham, ele nas férias porque está longe, em França; ela nas folgas e nas férias porque está mais perto, em Macedo.

Como acontece com todos na nossa terra, os muitos hectares desta família espalham-se por todo o termo da aldeia, o que acrescenta trabalho e despesa à produção. De acordo com a tradição, a castanha, a batata e o centeio são a principal fonte de rendimento, embora os tempos tenham dado nova feição ao trabalho. Possuem dois tractores, segadeira de feno, arrancadora de batatas, enfardadeira e outras máquinas que, se não substituem inteiramente a força humana, aliviam-na muito. Sem estas máquinas e sem poder contar com ninguém porque, no povo, quase só restam os velhos, seria impossível trabalhar área tão grande. Compensa ter tantas despesas com máquinas? Respondem que não, mas também não vêem grandes alternativas.

– “Ó mãe, está na hora de ir deitar as vacas!”, diz o Toninho, do cimo da magnífica escadaria de granito da casa. O cabelo revolto denuncia a sesta que acabou de dormir, costume há muito perdido nas cidades, mas tão necessário àqueles para quem o dia começa antes de o Sol arribar no céu. A senhora Margarida debagava uns erbanços que tinha a secar, pois é nessas tarefas, ou a fazer renda ou meia, que as mulheres de Rebordaínhos “dormem” a sesta, mas como os erbanços podem esperar e as vacas têm que comer, lá foi ela levá-las ao lameiro. Mal comparado, estas vacas são rainhas: da loje para o lameiro e do lameiro para a loje, percorrem as ruas da aldeia como majestades sereníssimas. Comem e descansam! Anda que no tempo do sr. João não era assim, não, que tinham que bulir muito! Estas são jungidas para semear nabal e batatas e para agradar a terra - meia dúzia de vezes, e pronto, está o ano feito!

O trabalho é muito. O Manuel ainda vai ao café, mas a mãe e os outros filhos nunca se vêem desocupados. Os dedos de conversa trocam-se enquanto descarregam o tractor, ou pelo caminho quando levam a vianda aos porcos. Mas não falham aos vizinhos se os encontram a braços com trabalhos mais pesados.

A casa, herdada do pai, foi arranjada e alargada, parecendo um palácio com as suas paredes brancas e janelas emolduradas em cantaria lavrada. O interesse de cada um confunde-se com o interesse de todos e, talvez por isso, vão conseguindo amealhar o bastante para terem conforto e desafogo. Se o mundo andasse direito, tanto esforço seria compensado com bastante lucro, mas como o mundo anda mais torto do que aquelas ervas engatadeiras que engatam pelos paus acima e lançam umas guias enroladas como rabo de porco, quem ganha são os intermediários que vendem caro como o lume aquilo que compraram por dez réis de mel coado.

“No tempo do meu pai, diz o Toninho e a mãe confirma, vendíamos o quilo do pão a 50$00 e a saca de adubo custava 600$00. Agora, pagam-nos o pão a 16 cêntimos e a saca de adubo custa 20 €! As batatas foram vendidas, este ano, a 10 cêntimos..." Basta fazer as contas para se perceber a dimensão do desprezo que tem sido dado à nossa agricultura. Devido a tais circunstâncias, aqueles que permanecem na terra, a trabalham e dela retiram o sustento merecem ser louvados e reconhecidos.

Fátima Stocker

domingo, 30 de novembro de 2008

Recordações brancas

O dia amanheceu com um brilho diferente, mais luz, mais beleza, um manto branco cobria a paisagem.
De repente surgiu em mim a ideia de ir por aí fotografar para aqueles que embora sendo da aldeia mas que estão longe, também pudessem usufruir deste lindo espectáculo, ficam as imagens e garanto-vos que estava mesmo muito frio...


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Equipa de Futebol de Rebordainhos
Vencedora de Torneio em 1986


Esta fotografia faz parte de um conjunto enviado pelo César Baptista que se encontra no Brasil e que vai acompanhando o nosso Blog.

O Orlando do tio Aniceto fez o favor de nos dar algumas informações. Não sabe onde pára a taça, mas diz que se tratou de um torneio de Salsas em 1986. Os campeões fotografados são (da esquerda para a direita e de cima para baixo): Manuel Pires (da sr.ª Margarida); Alexandre Pires; Carlos Gomes, Orlando Ferreira (do tio Aniceto); Toninho Pires, Víctor Martins (da Esmeralda) e Vaz Pereira (da tia Hélia).

Ora, se não me engano, só o Orlando e o Víctor é que andam por fora (França e Vila Real, respectivamente). Todos os outros mantêm-se na nossa terra, uns mais em Bragança e outros mais em Rebordaínhos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Concurso de Fotografia

O Outono é talvez uma das estações do ano
mais apreciada pelos fotógrafos, pela luz e
pelas cores da natureza
com os seus diferentes cambiantes.




Se gostas de fotografia participa no concurso organizado pela Azimute - Associação de desportos de aventura, juventude e ambiente - sobre o tema "O Inverno em Trás-os-Montes" a decorrer até dia 26 de Dezembro de 2008.


Para mais informações consulta o site aqui.




quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Rebordainhos quer Centro de Dia

Artigo publicado hoje no Jornal Nordeste

Associação pretende transformar a antiga escola primária num equipamento de apoio aos idosos

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Uma recolha efectuada em 1978

A Maria Augusta Pilota já nem se deve lembrar desta relíquia. Gravou-a em 1978, como trabalho de recolha para uma cadeira do seu curso de Geografia. Gentilmente, ofereceu-ma, sabendo o quanto gosto destas coisas. Trinta anos depois, eu já dava o conteúdo como perdido, mas as tecnologias permitiram o milagre de recuperarmos alguns registos e transferi-los para formato mp3 - trabalho de persistência do João.

O volume está baixo, pois foi a forma de diminuirmos os ruídos que a fita original apresentava.

Fátima




A casa do Tio António Piloto

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Ares da Serra




VI - TERRAS DE PÃO


À memória de meu Pai, um homem duro mas justo



por
António Augusto Fernandes





(…) Mais informa da intervenção da P.I.D.E. para tentar descobrir os autores do arrancamento de algumas árvores na serra de Nogueira: “Foram descobertos um ou dois e os Serviços entregaram depois novas árvores que a população que as tinha arrancado se encarregou de colocar de novo:”
(Extracto do Processo movido a Aquilino Ribeiro pela publicação de Quando os Lobos Uivam, romance que tem por tema a florestação dos baldios. 07.04.59, [fls. 43 a 44]) [1]

Corria quente aquele Verão de 1958.
O misto resfolegava esfalfado sobre as duas fitas de aço, lançando baforadas de fumo negro, depois de quatro horas a lutar com os cem quilómetros que subiam da foz do Tua até ali, à cota mais alta da CP, na estação de Rossas. Parou consolado à sombra fresca da meia dúzia de nogueiras a que o chefe da estação dedicava os bastos ócios que o trânsito madraço de quatro composições diárias lhe permitia.

Da segunda classe saltou um adolescente espigadote balouçando a maleta de cartão. De fato preto, gravata preta, boina preta, era o provável seminarista, em tudo conforme com os regulamentos seminarísticos dos anos cinquenta, de regresso para as férias de Verão. Depois de um ano de ausência, desde a estação de Salsas que os seus olhos augados da terra vinham espiando as alturas da serra de Nogueira onde Rebordainhos se fora encarrapitar. E quando o comboio atacou a recta dos Roubões, antes de encostar à plataforma da gare, já o olhar se lhe prendia às alturas do Alto da Cabeça, onde jogara à bola com os da sua igualha, à Eira da Cabecinha onde se avistavam os primeiros medeiros da aldeia e o Armindo barbeiro lhe cortava as melenas. E suspirou de alívio.

Na plataforma da estação deserta, sufocada pela canícula da tarde e pelas poeiras que o suão levantava dos campos ressequidos, procurou com o olhar erradio a comitiva familiar que devia esperá-lo. Nada. Só depois de o comboio arrancar e dobrar a curva que desce para o túnel de Arufe é que reparou no mano mais novo que atravessava a linha. Crestado dos ares bravios da serra, a camisa de popelina listrada pela cruz de santo André das alças que lhe seguravam as pantalonas de cotim já um pouco curtas, avançava indeciso. Estava bem crescido o dianho do moço! Mas estranhou-lhe os modos. Ele sempre zombeteiro, a magicar na próxima partida que lhe iria pregar, parecia constrangido, quase hirto. Sem um gesto, sem desenterrar as mãos dos bolsos, desferiu-lhe à queima-roupa, como quem quer desincumbir-se rapidamente de recado que lhe frige a alma: − O pai esteve na cadeia!

Ora essa! Assim, sem mais! A notícia deu-lhe um baque na alma sensível de seminarista. Em boa verdade, com o feitio arrebatadiço que se lhe conhecia, não seria muito de estranhar que tivesse quebrado as trombas a algum bebedolas menos conforme com as etiquetas do soto onde governava a vida, ou pregado um par de lostras nalgum moinante que lhe moesse o juízo. Mas tais percalços não eram de estranhar e estavam em conformidade com os brandos costumes da serra. Não era decerto por tal ninharia que ia um cristão malhar com os ossos na cadeia! Ainda por cima o Jaime polícia! Lá rebentio de génio era ele, mas enfim, nunca seria caso para prisão!...

E, enquanto demandavam a aldeia pelo carreirão de Arufe ia rememorando aqueles escassos cinco anos de vida na aldeia, quando o pai, indisposto com os nepotismos da polícia onde as promoções eram regidas por empenhos e conivências, voltara à aldeia natal trazendo consigo revivida aquela fome antiquíssima de terra, uma fome herdada dos antepassados, funda como as raízes fundas que nela tinham lançado. Atirara-se com afã a desfazer os bocados que andavam a monte na Corredoura, na Ladeira, no Pórto, onde quer que pudesse colher mais dois alqueires de centeio.

O Pai tinha os seus repentes, bem entendido, mas no fundo era um sentimental capaz de verter a sua lagrimazita às escondidas e, sobretudo, era um homem com profundo sentido de justiça. Nesses anos magros a seguir à guerra, fora dele a iniciativa de aumentar para doze mil e quinhentos réis a jorna aos cavadores, recordado ainda dos tempos que ele próprio levara agarrado ao cabo do enxadão. E, por essa memória, a pobreza dos mais pobres merecia-lhe um grande respeito e a fome de quem trabalha o dos outros via-a como a mais negra das injustiças num mundo mal feito. Exigia trabalho que se visse e escolhia os trabalhadores mais valentes, mas tratava-os com a consideração devida a quem trabalha. Seria ríspido e não se ensaiava para dar um recado. Mas era generoso se um pobre lhe batia à porta com fome e ironizava os seus confrades nas Conferências de S. Vicente de Paula quando na saqueta das esmolas abundavam as moedas de cobre: não é assim que os pobres tiram a barriga de misérias

Era também a ele que a ciganada recorria quando faziam questão em baptizar algum filho. − Ó homem, não seja por causa disso que o lacru fica mouro! E à conta disso se viu padrinho de para cima de meia dúzia de ciganitos. Tinha um sentido de humor um tanto sardónico e mais que um lhe ficou a dever a alcunha. Amigo dos seus amigos, era correntio e folgazão nos jogos de ar livre aos domingos, quando ameaçava os adversários do chincalhão de os levar em pó e vento, e homem de força quando era preciso dominar pelos cornos um bezerro bravo recalcitrante ao jugo.

A vida não lhe fora nada meiga. Criado com muita estreiteza pela tia Antonha Pastora já viúva, naquele casinhoto negro do Covelo, não se envergonhava de confessar que muitas fominhas rapara e só aos vinte anos, quando assentara praça, deixara os socos de amieiro para estrear os primeiros sapatos. Enfim, o pouco que subira na vida subira-o a pulso e honradamente.

E o seminarista estimava-o e admirava-o por tudo isso. E ainda pela recordação supremamente grata de lhe ver a compenetração com que aos domingos acendia a vela do altar de Santa Maria Madalena, ajoelhando sempre diante do altar da grande pecadora arrependida, padroeira da freguesia, cuja imagem mandara restaurar a expensas suas num santeiro de Braga.

Por tudo isso lhe custava encaixar essa história da prisão do pai. E, de repente, passou-lhe pela mente o grande desarranjo: podia lá chegar a padre, sendo filho de pai preso!? Ele bem estranhara que, durante uns tempos, as cartas chegadas ao seminário não mostrassem aquele belo cursivo de quem redigiu muitos autos de zaragatas nas feiras do 12 e dos 21, em Bragança, de quem apontou muito calote no rol dos fiados, mas sim a caligrafia titubeante da mãe, com menos arte para relatar coisas e loisas da aldeia. Lá tentara explicar para consigo o desacerto na correspondência com o aperto dos afazeres da lavoura somados às preocupações dos calotes abusivos que a magreza do viver aldeão multiplicava como tortulhos no Outono. Não, que a vida na serra andava cada vez mais cainha e muito complicada para todos: os filho nasciam bastos como os cabeçudos na charca do Espinheiro, os rendimentos da lavoura eram mais que escassos, ainda que andassem de sementio até a pedriça do Alto do Sirgo e os pedregulhais das Curreliças que mal davam sustento ao tojo rastiço, quanto mais às paveias de centeio. Ainda por cima, para ajudar o pai que é pobre, coelhos e perdizes iam retraçando o pouco que a terra dava.

E só à hora do caldo veio a saber que a história era bem outra!
As coisas tinham começado alguns meses antes. Uns engenheiros, armados de fitas métricas e teodolitos, dados a muitas inquirições sobre matrizes e estremas, iam cravando bandarilhas de mau agouro pelo longo dorso que vai da Malhada Velha aos cumes da serra, às Três Marras, ponto de encontro dos concelhos de Bragança, Vinhais e Macedo de Cavaleiros.

Os aldeanos olhavam toda essa estranha movimentação de soslaio. A coisa cheirava-lhes a esturro, porque era certo e sabido que o governo só se lembrava deles para os cardar. Ora, mandar que suas excelências, os senhores engenheiros, viessem sujar as botas de calfe nas poeiras da serra não havia de ser no interesse dos lapoiços que a escarduçavam por mor de mais umas pousadas de pão. Quanto a inquirições, eles bem se fechavam em copas: − sei lá de quem são as terras, onde ficam as estremas! Não sabiam eles outra coisa! Estas invasões dos baldios não vinham nos jornais e disso não falava a Emissora Nacional, não, que andava tudo bem açaimado pelo senhor Governo! Mas, pelo que corria à boca pequena por feiras e romarias, futuravam eles que o acontecido lá para baixo, para as Beiras, mais tarde ou mais cedo lhes iria bater à porta. O que eles sabiam muito bem era que aqueles pedaços de terra por cima da Malhada Velha até à cota dos mil e duzentos metros, do Vale dos Azebros ao Cabeço do Pau e ao Lombo das Terças, quando calhava de o Inverno trazer dois ou três nevões que matassem a bicheza, adubassem as terras delgadas e fizessem borbulhar as nascentes, as espigas faziam dobrar as hastes do centeio, de gradas, porque lá reza o ditado: ano de neve, paga o pobre o que deve, ou o outro que diz o mesmo por outras palavras: ano de pão, sete neves e um nevão. E era também dali que saía a melhor batata certificada: nas covas mais lentas e de húmus mais gordo medravam os batatais com direito a que se lhe especasse uma tabuleta com algarismos pintados a zarcão, conferindo-lhes o direito a ser vendida como batata de semente certificada, o que dobrava o preço.

Ali, naquelas alturas lançando a vista para o horizonte, sobre o vale de Macedo de Cavaleiros, em frente, ou, sobre a esquerda, ao planalto de Miranda, enfarinhado no azul da distância, atrás de um coelho ou agarrado à rabiça do arado, um homem sentia-se de alma lavada e como se fosse dono do mundo. Era um espaço de liberdade, dessa liberdade tão cara ao serrano. Naqueles descampados, ceifados os pães, os gados pasciam livremente as espigas perdidas pelos segadores ou a relva tenra que brotava com as primeiras águas do Outono. As giestas e urzes que despontavam pelo pedregulhal eram de quem as quisesse arrancar para com elas fazer carvão, esquentar o forno ou atiçar o lume nas manhãs de codo. Aquela corda de outeiros, isentos de senhorio, eram de todos, mas eram sobretudo dos mais pobre que não tinham de seu leira de jeito ou touça para acender a lareira no Inverno. Eram terrenos baldios? Pois que fossem, mas era deles o proveito! Já assim era no tempo dos avós e dos avós dos avós, e nunca ninguém se incomodara com isso! Esses baldios eram bem o símbolo da sua liberdade e independência, já que não podiam ser coutados nem sisados pelo poder central. E se há coisa odiosa para o serrano é que lhe toquem na terra que sente como sua, ou que alguém venha de fora pôr-lhe o cangote debaixo do jugo. Por mor de um migalho de terra quantos não se tinham já perdido!

É bem verdade que aquilo ficava longe que nem seiscentos diabos, lá para cima, a dois passos da capelinha da Senhora da Serra no picoto mais alto da Nogueira, onde no tempo dos mouros (ou seria de Carlos Magno e dos Doze Pares de França?), Nossa Senhora aparecera a uma pastorinha muda, de tamancos, que Nossa Senhora não tem engulho dos pobres, e depois marcara com neve, no dia mais quente de Agosto, o sítio e modos como queria que lhe fizessem uma capelinha. Era a Nossa Senhora deles, que os de Rebordãos bem quiseram mudar a capela para onde a avistassem da aldeia, mas obra feita de dia esborralhava-se milagrosamente durante a noite. E ao fim de muito caturrarem, a capelinha bem que teve de ser feita onde Nossa Senhora a queria, que era a olhar para Rebordainhos, que Ela, pelos modos, preferia aos de Rebordãos.

Pois é, um homem demorava uma manhã inteira para ir regar quatro sucos de batatas e, no tempo das acarrejas, tinha que jungir os bois ainda com escuro, se queria o carreto pronto antes de ir comer as batatas do almoço. Mas deixá-lo! Era deles, e… o tempo dá-o Deus de graça!

Até o tio Zé Çuca, monárquico convicto, que era fino, lia A Voz e desempenhava, como por descendência dinástica, o cargo de Presidente da Junta desde que lhe morrera o pai, o ti António Caminha, embora apoiasse a Situação e admirasse Salazar, desta vez achou que a Situação exorbitava, borrifou-se para o Salazar e acrescentou a sua indignação à dos demais.

Os Serviços Florestais começaram por construir uma casita toda liró, bem melhor que as da aldeia: reluzindo de branca, enconchadinha numa ruga da serra, com uma nascentinha de água leve e fria à ilharga, voltada a sul donde no Inverno espreita o sol criador e com vistas desafogadas para meio mundo, mais feita para poeta contemplativo que para Guarda-florestal.

E logo nos começos do Inverno as máquinas invadiram os corutos da serra e vá de arrotear o maninho, de afundir nos covachos milhares de pinheiritos tenros, de abetos, de bétulas… Se ainda aldemenos os Serviços se lembrassem de plantar carvalhos e castanheiros que era o que a serra reconhecia como seu desde que o mundo é mundo! Mas não… vinham lá com essas esquisitices da Terra Quente… − Rais os partissem a todos mais à pata que os pôs!

Máquinas e engenheiros já tinham partido e o sossego parecia ter regressado à serra. Aos domingos, no adro, depois da missa, não se falava de outra coisa e, enquanto as mulheres corriam a esverçar o caldo de couves, os homens davam uma saltada até à Cruzinha, levantando os olhos para aquela lombada da serra, na esperança de que a sarna tinha secado. É o tinhas! Ao longo de toda a cumeeira, os pinheiritos tinham pegado com arreganho e a rabugem verde-escura começava a pintar os terrenos onde dantes crescia o centeio e a batata. E, intrigados, quedavam-se em conjecturas: e agora?... e de quem é aquilo? e que torna e que deixa... A coisa começava a cheirar a esturro.

Até que um domingo, depois do almoço, os sinos se puseram num bimbalhar doido de toque a rebate. Acudiam as gentes a indagar onde era o fogo. Sobre o muro do adro onde no Inverno se arrematavam os chispes e orelheiras prometidas ao S. Sebastião, alguém ia despachando quem chegava: que desandassem em busca de enxada, de sachola, de picareta e ala para a Malhada Velha que a serra havia de ficar como era dantes.

A gemte começou de sse juntar e era tanta que era estranha cousa de se veer − diria o Cronista se ao sucedido assistira.

Munindo-se cada qual de ferramenta mais azada para o efeito e muitos também de uma pinga, que nestas alturas dá sempre jeito, esquentando-se mutuamente os ânimos com vozes façanhudas e esporádicos gorgolejos nas botelhas galegas de pele de cabra, quando passaram a Ribeira, na subida para os Vales, já se evocavam os grandes feitos guerreiros com que na escola se enfeitava a história pátria: espanhóis e Aljubarrota, mouros e Afonso Henriques, Índia e Vasco da Gama, tudo abundava no exemplo de como as coisas têm que ser feitas quando vêm mexer com quem está quedo. E era deveras inflamado o espírito belicoso das hostes. Tomaram o caminho dos Vales que, apesar de mais empinado, os punha lá riba em três tempos. Um nevoeiro cerrado abatera-se sobre a serra como manta cúmplice que os acobertasse de olhos coscuvilheiros, que estas coisas querem-se feitas a recato, como negócio entre homem e mulher. Enquanto o diabo esfrega um olho, imolaram a maior parte das hastezinhas tenras que lhes tinham invadido as terras de pão e alguns dos feros arrancadores trouxeram-nas à laia de troféus justamente arrebatados a inimigo vencido em valorosa peleja.

Viveram-se tempos de incerteza. Será que o Governo os tinha esquecido outra vez e tudo voltava ao que era dantes? Agora esquecera! Os polainudos da GNR começaram a rondar a aldeia, entravam nas tabernas com falinhas mansas, ofereciam o seu copo: quem tinha tocado o sino a rebate?... quem tinha acicatado os fregueses na arranca dos pinheiros?... quem tinha cometido o desacato contra o Estado?... Ninguém fora, ninguém ouvira nada, ninguém sabia de nada. Desistiram, encalhados na pertinácia serrana.

As inquirições pareciam ter dado em águas de bacalhau e os ânimos iam serenando. Sempre valera a pena o finca-pé!...

Até que um dia apareceu um jipe do Estado com uns sujeitos de ar sinistro. Nem parou. Atravessou a aldeia e pelos caminhos dos carros de bois subiu até aos Vales, como quem sabe ao que vem. Sem dizer água-vai os sujeitos de má catadura catrafilaram o Raul e enfiaram-no no jipe, que regressou à aldeia e estacou no Largo do Prado em frente da Taberna de Baixo. Com o mesmo despacho deram voz de prisão ao Jaime que nesse momento tinha vindo à porta do soto inquirir da novidade. Era o que eles receavam: a PIDE, não podendo prender uma povoação inteira, deitava os gatázios a quem muito bem entendia para escarmento dos demais: ao Jaime porque, sendo dono da taberna, pelas conversas que se soltam entre os fregueses depois de uns quantos quartilhos empinados, devia ter ouvido pela certa alguma coisa mais sobre o assunto da Floresta. Ademais, sendo polícia, embora de licença sem vencimento, tinha obrigação de informar os seus superiores de todos os movimentos sediciosos da população. Ao Raul, porque, morando no ermo dos Vales, a dois passos da zona florestada, tinha de saber pela certa quem lhe passara à porta para ir vindimar os pinheirinhos. Esta lógica caseira não convencia ninguém e serviu apenas para camuflar canhestramente os autores da feia delação. Veio-se a saber mais tarde que os dois sacrificados nas aras da sanha policiesca tinham sido denunciados por motivos bem pouco políticos e ainda menos patrióticos: o Jaime pelo guarda-florestal recentemente nomeado, fraca rês vinda da Terra Quente, a quem recusara alongar o rol dos fiados. O Raul por um vizinho da Quinta dos Vales que com ele mantinha pendências de estremas mal definidas ou marcos manhosos que se movimentavam a coberto da noite. E lá os levaram para a cadeia da Rua do Heroísmo, no Porto.

Viveram-se dias negros, pois que todos, quem mais, quem menos, se sentiam na pele dos dois caçados pela polícia política e em todos doía a consciência colectiva dessa aleivosia. A tia Lídia viera ocupar o lugar do marido na Taberna de Baixo chorosa e aflita. Lá de baixo a correspondência dos dois reclusos ia contando que não eram maltratados e a comida era razoável. Não fora o desarranjo trazido aos negócios de cada um pela ausência forçada, animavam eles, desdramatizando a situação, quase se podiam dizer umas férias à conta do Estado. O que deveras lhes doía na alma eram as grades da prisão. O serrano, preso nem com uma linha se quer ver! Periodicamente eram abordados blandiciosamente pela polícia: − que nada tinham contra eles… que bastava dizerem quem fora o da ideia, que a eles nada acontecia. O Raul entrincheirava-se na sua escusa: que mal saía daquele fim do mundo que eram os Vales, o que é que ele podia saber? Em tal dia até andava a lavrar lá p´rós lados de Lanção!... O Jaime insistia no seu álibi: nesse dia tinha ele ido ao vinho lá para a Terra Quente. Até tinha factura passada e tudo
Ninguém se descosia, nada feito.

Pela aldeia, os dias passavam macambúzios, pela indecisão do caminho a tomar, até que o Pe Amílcar achou por bem descer à cidade a encontrar-se com o Pe Caminha, cunhado do Jaime, que, enquanto Director da Escola Profissional de Santa Clara, tinha entrada franca no Ministério do Interior. Passaram-se semanas caturrando dum lado e doutro, mexeram-se todos os pauzinhos e num domingo depois da missa, o Pe Amílcar, ainda antes de se desparamentar, dava notícias aos paroquianos:

Tudo na mesma. O senhor Jaime e o senhor Raul não dizem nada e a polícia só os deixa vir embora se o povo plantar de novo as árvores arrancadas.

Cá fora, no adro, discutiu-se rijamente. Por um lado, aquilo cheirava-lhes a forte humilhação, como se o povo não tivesse razão em defender o que era seu. Por outro lado, que mais culpados eram aqueles dois que os outros, para irem malhar com os ossos na cadeia!?... Depois de muito parlamentar, a muito custo optaram pela humilhação.

De novo subiram aos altos da Malhada Velha, mas agora com a amargura de quem sobe ao calvário. Cheios de má vontade lá foram replantando quanto tinham arrancado. E tudo pegou gorando, para seu espanto, a confiança que depositavam nas leis da botânica: bicheza brava aqueles pinheiros! pegavam, mesmo com um nó na raiz!

Depois de dois meses de cárcere, os deportados eram depositados no Largo do Prado. O Raul correu a matar saudade do seu casal dos Vales. O Jaime, naquele seu feitio um tanto arisco temperado pelas agruras da vida, entrou pela porta do seu soto com o ar de quem tinha ido ali a Bragança encomendar umas mercearias no armazém do Domingos Lopes. E ofereceu uma rodada aos presentes. Como tinham cedido na replantação dos pinheiros, nem dava para se sentirem heróis ou caudilhos de um levantamento. Sobrava apenas uma leve amargura, como de moinha de Outono, a ensombrar-lhes a alma.

Em resumo:
Para regar a hortinha da Vale-da-Frunha-d’Além ainda por lá andava, nesse Verão, um sachito com que o mano participara na odisseia da floresta, crismando-o de arranca-pinheiros.

Para sossego de consciência do seminarista, não houvera morte de homem, a sedição acabara em bem, com o acatamento da autoridade e a floresta medrava lá em cima à lei da natureza…
Finalmente, rezam as crónicas, não foi por causa de pai preso que ele não veio engrossar as fileiras dos ministros do Senhor.

Hoje a floresta faz cinquenta anos, está frondosa e até que alindou o dorso nu da serra. Para consolo dos ecologistas encartados constitui notável contributo para a preservação do lobo ibérico que lá vai abocanhando ao desfastio alguma canhona distraída que lhes passe a jeito. E também do javali que cata meticulosamente as castanhas tombadas do ouriço e cabouca os batatais que lhe ficam à mão.

Mas permanece como a pegada de um governo que exerceu o seu poder autocraticamente e ao arrepio dos direitos comunais − memória de chaga mal sarada na alma da comunidade.

Os poucos velhos que se recusam a abandonar a aldeia e os jovens agricultores, que o Governo louva mas não ajuda, persistem em agricultar essa terra que sobrou da floresta, sabendo que trabalham para sustentação do lobo ibérico, que está de saúde se recomenda, e do javali, que os figuros da cidade adoram ostentar como troféu das suas caçadas. E, se não vier alguma trovoada à moda antiga, ainda sobra qualquer coisita para o pobre do lavrador que, não sendo espécie protegida, está em risco de extinção.

______
[1] in Em Defesa de Aquilino Ribeiro, organização de Alfredo Caldeira e Diana Andringa, Edições Terramar, Lisboa 1994.
O processo em questão fora movido ao autor pela publicação do seu romance Quando os Lobos Uivam, que tem por tema a florestação dos baldios na Serra da Nave, saído em finais de 1958.


N.Ed. As fotografias que ilustram a narrativa são da autoria de António Fernandes

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Amigo

Pela simpatia,afabilidade e carinho do povo de Rebordaínhos, onde muitas portas teimam em se manter abertas.

ENTRE QUEM É!

Olímpia Pereira


AMIGO

Para ti esta dica:

Quando a Chave já é tosca,
Mas de bom trato na fechadura,
Não force, nem use a força,
Que nunca vai ficar na rua,

PORQUE:

Aquele que a rode,
Que entre e se acomode.

Não pense no aspecto,
Nem tão pouco no transtorno,
Porque além do afecto,
São favores que retorno.

..A CASA É SUA.

Orlando Martins

sábado, 8 de novembro de 2008

Organizar a fileira do cogumelo

Já não é a primeira vez que publicamos um post com informação sobre a produção de cogumelos (veja a nossa etiqueta cogumelos) pela leitura deste artigo publicado no Mensageiro, vemos que mais uns passos significativos neste domínio estão a ser dados, nomeadamente ao nível da formação de apanhadores, organização do projecto, circuitos de comercialização.
Continuo a pensar que Rebordainhos deve estar atenta a este assunto, pode vir a ser um complemento à castanha e batata.

Noticia do Mensageiro

Associação cria pólo experimental com junta de freguesia “A ARBOREA está a organizar o mercado do cogumelo de Vinhais e, neste momento, temos em experimentação um método de organização”, explicou António Borges, da ARBOREA, Associação Florestal da Terra Fria Transmontana, no decorrer das VI Jornadas do Castanheiro, realizadas no passado fim-de-semana em Vinhais, e integradas na Rural Castanea, feira da castanha. “O mercado de cogumelos já existe, só que está por baixo da mesa. O que queremos é colocá-lo.....................

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Temos um novo membro do Blog

É a Tilinha!

E assim se vai provando que, grão a grão, enche a galinha o papo! De gente nova é que nós precisamos. E com sangue na guelra!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Jornal Mensageiro
comunidade fotográfica

Esta foi uma das duas fotos vencedoras do concurso "foto da semana" do Jornal Mensageiro online, é da autoria de uma natural de Rebordaínhos a Fátima Stocker.

As duas fotos vencedoras foram publicadas na edição impressa do referido jornal.

Parabéns Fátima ! Soutelo - Fonte de mergulho


Clique aqui para visualizar todas as fotos

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Montaria

Pela segunda vez, a nossa aldeia foi escolhida pela NORCAÇA para a realização da montaria ao javali que teve lugar no dia 18 de Outubro.

O dia amanheceu com ameaça de chuva, mas depressa o sol deu ares da sua graça. Era o dia da montaria e São Pedro tinha de estar do lado dos caçadores!
O local da concentração foi na sede da Junta de Freguesia, onde os caçadores confirmavam a inscrição e seguiam para o tão esperado "mata-bicho". Eram 68 caçadores mais alguns acompanhantes.

E mais não digo! Deixo uma reportagem do certame em jeito de fotografias, pois lá dizem os entendidos que "uma imagem vale mais do que mil palavras".
Embora não haja uma prova fotográfica do resultado da caçada, asseguro-vos que se traduziu em 7 javalis.





Nota: O meu reconhecimento a todos que colaboraram na elaboração deste post.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Uma doçura de comentário

Não é hábito publicarmos comentários, mas, aquele que a seguir transcrevemos, pela sua candura, por ter sido colocado num post da minha cunhada Augusta sobre sua mãe e minha sogra (a quem, desde que casei, sempre tratei por mãe) merece, no meu entender, este destaque.´Trata-se, essencialmente, de um agradecimento à Carla Pereira Rodrigues que logo no seu primeiro comentário (e creio que numa das suas primeiras visitas ao Blog) nos brinda com tão gentis recordações.

Anónimo carla pereira rodrigues disse...

Era uma das senhoras que mais gostava de visitar nas ferias de verao porque la tinha sempre uns rebuçaditos prontos para oferecer.e certo que ja os havia a venda,mas aqueles eram decerto mais doces porque eram dados com carinho.
lembranças muito doces.

28/Out/2008 12:31:00

Obrigado Carla! por este doce que nos deixaste no Post


Onde estão os meus sapatos?



A Carla em criança, com a Ifigénia, sua mãe (filha da tia Zulmira).

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Magusto Tradicional (convite)


Terá lugar no sábado dia 1 de Novembro um Magusto Tradicional na nossa Freguesia, veja o convite publicado no

sábado, 25 de outubro de 2008

Há trinta e tais...


Na página da Direcção Geral dos Monumentos Nacionais existem duas fotografias do Pelourinho de Rebordainhos - aquelas que reproduzimos aqui - e que irão, também, substituir a primeira que publicámos, cópia de muito inferior qualidade de uma das presentes.

Foi o Evaristo que fez o favor de no-las enviar e de identificar os três raparigos que lá estão. Cito-o numa informação que me parece importante. Diz ele: ambas foram tiradas pelo ténico dos MN após o tio Jaime informar que, por ameaça de ruína, iria cimentar os degraus da base: era Inverno (não sei se 70/71 ou 71/72).

Vamos, agora, ao desafio: quem identifica os raparigos e os ganapos fotografados?

(Para os mais distraídos: clicando sobre a imagem ela abre-se em tamanho maior)

Fátima Stocker

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Recolha de Cantigas da segada




Tarde de amena cavaqueira no Prado, frente à taberna de baixo. A senhora Irene que me perdoe, mas nem sequer o seu sorriso cativante me fez habituar a chamar “Café Central” ao seu estabelecimento.

Não sei precisar a data, mas estávamos, seguramente, nos primeiros anos da década de 90 do século passado. Eu estava empenhada em recolher aspectos de um quotidiano que via desaparecer em cada Verão que assomava. Dispunha de poucos meios, mas isso não me preocupava porque o meu intento era pessoal: queria registos para quando a memória me faltasse. Feliz a hora em que, de tal, me lembrei.

Os registos que agora se publicam poderão ter, para quem os ouve, o toque da nostalgia. Para mim…

Estávamos, então, no Prado. O Rafael fazia de mestre-de-cerimónias e orientava-me para que eu não perdesse pitada. Já nem me lembrava como eram magníficas aquelas vozes, dadas por Deus, mas buriladas pelo sentir que só a vida confere. São elas:

Octávio (das cabanas, irmão da Ester)
Victor Martins
João Veigas
João Pereira (Fouce)
(A sr.ª Irene
também deu um arzinho da sua graça)

A certa altura apareceu uma personagem fora do contexto. Não sei se o Octávio se envergonhou, mas deu por terminada a cantoria no Prado. Prosseguimos em nossa casa, agora só com o meu pai e o João Veigas que também se cansaria, deixando o Fouce sozinho a aturar as madurezas da filha, provando a paciência de santo que sempre teve. Bem-hajam todos, sobretudo os dois que já estão no Céu – Octávio e meu pai – e não souberam o quanto lhes fiquei grata.

Fátima Stocker
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Dado o tamanho da recolha (cerca de uma hora), é provável que a reprodução demore um bocadinho mais do que é habitual. É só ter alguma paciência.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

À descoberta dos cogumelos

Não pretendo ensinar o padre-nosso ao cura, porque nem sou botânica, nem tenho a veleidade de saber tudo sobre cogumelos que é a palavra mais usada para tratar toda esta família de fungos.
Mas se tiverem tempo e disponibilidade serão surpreendidos, com a quantidade e variedade desses fungos aos quais quem aqui nasceu e vive conhece pelos nomes populares de níscaros, de frades, de pinheiras, de carneiras.
Aqui as pessoas, na sua grande sabedoria, herdada de gerações sem conta, conhece, à distância essa diversidade, dentro da familiaridade.
E era bom que os citadinos saíssem dos seus alcatifados aposentos e viessem ao encontro da Natureza. Talvez pudessem saborear estas iguarias cozinhadas com presunto, toucinho ou vitela mirandesa. O manjar seria inesquecível!!!

Não tente identificar cogumelos apenas com base em imagens. Existem diversas espécies perigosas e mesmo letais. Saber identificá-las com precisão requer experiência e informação rigorosa.
A autora deste post não se responsabiliza pelos usos incorrectos das informações aqui disponibilizadas.


quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ares da Serra




V - O TIO RASCA DOS PEREIROS

por
António Augusto Fernandes

Tarde canicular de fins de Agosto. O sol descambava já por detrás da Serra de Bousende e lá vinha ele, mais uma vez, aos bordões, arrastando os socos de amieiro ferrados de brocha larga pela poeira, a caminho dos Pereiros por um carreirão mais torto que linha num bolso, como por lá se dizia. Estacava a espaços, oscilando mal sustido pelas pernas escanchadas, a discutir muito gesticuladamente consigo próprio.

Andava nisto há anos. Chegava depois de almoço à taverna do ti António Trocho, cumprimentava os circunstantes e abancava junto a uma das mesitas do chincalhão arroxeada do vinho de muitas litradas servidas na jogatana, sempre muito compostinho no seu colete de bolsinho tabaqueiro sobre a camisa branca abotoada até à maçã de Adão, muito saliente no pescoço esgalgado de grou. Depois de dois dedos de prosa com os circunstantes, pedia o meio quartilho do intróito que ia bebericando muito pausadamente, muito compenetradamente, com estalidos da língua de bom apreciador. Uma liturgia!

Lá pelo meio da tarde, depois de virados alguns copos, sacava do bolso da jaqueta um carolo de centeio negro, um naco de queijo cabreiro e a navalha peliqueira. Com método, lascava alternadamente cibitos de pão e de queijo que depois ia moendo com os vagares de quem tem todo o tempo do mundo e os dentes ralos. Sem muitas conversas com quem entrava a enxugar de uma assentada o copo de carrascão para limpar a garganta da poeira dos caminhos ou a mercar o macinho de Kentucky a oito tostões, ia respondendo à salvação de uns e outros com uma tranquilidade de senhor que em sua câmara recebe preito dos seus servos. Todos os dias de todos os anos ia repetindo estes gestos sacramentais, de tal modo que, lá para o fim, já nem precisava de vinho para se entornar:

- Basta dar-lhe uma pouca de água e indoujá-lo para derreter o sarro que traz na barriga, que dá o mesmo resultado – garantia o Pilatos, um outro piteireiro com crónica, mas mais rafeiro, ainda sem o estilo nem o estatuto do tio Rasca.

Era uma instituição este tio Rasca, João na pia baptismal. Alto, muito direito nos seus oitenta anos, enxuto de carnes, de bigodinho rectangular como era usança de quantos haviam feito a campanha da primeira Grande Guerra, com uns olhitos pequenos e piscos, de feição mais perscrutadora ainda quando derrubava a cabeça à banda, como as catatuas, para fitar o interlocutor num esforço de compreensão. Com frases sábias e curtas, mas sobretudo com grandes silêncios, ia discorrendo sobre o tempo, os seus tempos, as fainas da lavoura, enquanto os copos sucessivos lhe não toldavam o entendimento e entaramelavam a língua. Nessa altura calava-se e dormitava um pouco, apoiado ao porretinho que não o abandonava.

Pela tardinha, cumprido com exactidão o ritual de fazer a medida para a jornada, já muito piongonheiro, erguia-se um pouco cambaleante, despedia-se com o até amanhã sacramental e lançava os socos à árdua empresa do regresso: mais de dois quilómetros por caminhos de cabras! Muitas vezes, nos troços mais íngremes, o equilíbrio precário e uns vislumbres de prudência aconselhavam-no a arrastar os fundilhos das calças pelo areão do carreiro. Um dia por outro, as pernas recusavam-se à penitência e, em alturas de calmaria, pernoitava ao toro de uma giesta negral, acaçapado como uma lebre. Nas tardes curtas de invernia, quando escurecia inopinadamente ou o nevão adregava de apagar os pontos de referência na paisagem, perdia-se, tardava em arribar e os familiares, temerosos de o largarem assim na intempérie, acudiam num grande alarde de lampiões e injúrias ao impenitente peregrino. Tempo e cuspo mal gastos! No dia seguinte, de novo se atirava à via-sacra com a obstinação de romeiro que demanda Santiago de Compostela para encher a cabacinha e remir os seus pecados.

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Como se iniciara aquele ritual da peregrinação quotidiana e inevitável dos Pereiros até à tasca de Rebordainhos era matéria de discussão entre os vários exegetas: saturação da vida insonsa dos Pereiros, opinava a corrente existencialista; mero gosto pela pinga, discordavam os de filosofia mais rasteira; desentendimento com os conterrâneos, entendia a mor parte, com uns lumes de sociologia. Esta última opinião era de facto a mais consensual, que o caso não era para menos: os Pereiros eram, nesses tempos, uma poveca com meia dúzia de casas de granito negro ajoujadas em torno de uma capelita pouco maior que uma curriça caiada de branco. Perdida lá nos fundões da serra, em deslado da ribeira a que emprestava o nome, o sol amanhecia-lhe tarde e despedia-se cedo e, talvez por este défice de luz, aquilo era uma gente azeda, perpetuamente roída de invejas vá-se lá saber de quê, pois que todos eram suficientemente pobres para morrerem de fome se não se matassem a trabalhar. Sinal de abastança já era a posse de um burrico ou de uma junta de vacas, excepção feita ao senhor Imbertinho alfaiate, proprietário de nobre cavalicoque que lhe dava direito a senhoria e a topar com dois dedos o chapelito de aba curta quando cumprimentava o gentio de cima da montada.

E tão quezilentos eram de feitio que se tinham afeito ao vezo de consumir nos tribunais da comarca algum tostão sobejo das colheitas e escapo à dízima e ao pagamento das avenças pela Senhora da Serra. Mais prazenteiramente entregavam os magros cobres na justiça do que na liquidação do rol dos fiados na venda, mesmo que isso viesse resultar num ainda mais magro passadio de caldo e batatas na roda do ano. Quase toda a gente, ou no papel de queixoso ou no de arguido, andava enredada em querelas mesquinhas, para grande gáudio dos advogados que sabiamente iam gerindo a mamata. Ora aí estava motivo cabonde para que o tio Rasca renegasse de conterrâneos tão arrevezados e somíticos que nem tasca tinham onde um cristão pudesse condignamente matar a sede e purgar o desgosto de pertencer a tal raça.

De vila era crismada pelos de lá de baixo a cabeça de freguesia, porque tinha um pelourinho, cambado, é certo, mas sinal inequívoco de foral velho e de prerrogativas antigas. Ademais rezava a crónica oral colectiva que tivera cadeia nos tempos remotos dos afonsinos. De resto, pobre aldeia montesinha, Rebordainhos lá ia vivendo, num aperto muito franciscano, do que lhe davam os soutos, do centeio arduamente esgaravatado nas lombas escalvadas da serra de Nogueira e da batata criada nos terrenos mais lentos das pregas da serra. Se não pelo estatuto, ao menos pelos seus ares levados, pela superioridade orográfica e pelo feitio cordato dos seus habitantes, sempre a vila olhara com alguma sobranceria para os Pereiros, sepultados lá nos cafundós da serra. Quando adregava de à conversa virem os dos Pereiros, era hábito canónico alguém perguntar, quase como quem recita uma jaculatória, quando é que Deus se lembraria de dar um piparote no coruto da serra e enterrar de vez tão ruim casta.

Mas, como se vê, de tal casta não era o Tio João Rasca. Pelo contrário. Era um tipo franco e teso que fizera crónica na sua mocidade. O mais badalado dos seus fastos passara-se nos tempos do volfrâmio, quando um calhau do tamanho de uma batata, desenterrado pela biqueira descuidosa do tamanco, poderia representar para o pecúlio familiar mais que meio ano agarrado à rabiça do arado ou a esgaravatar fragas com as ganchas.

O frémito volframista fez estremecer a serra como uma febre de maleitas, e o tio João, embora já não fosse propriamente um rapaz, não escapou incólume a essa fome da riqueza súbita. Lá matutou o plano que se lhe mostrava infalível e tratou de aliciar o genro para a marosca. O Bateitas, mais timorato, ainda resistiu, mas o Rasca tanto lhe moeu o juízo, porque torna, porque deixa, que acabou por embarcar na aventura, e toca de se meterem a butes até às minas de Veigas que, cortando a direito, eram já ali, a seguir à curva grande da ribeira. Mas, ou porque a mofina os perseguisse, ou porque a azáfama dos preparativos tivesse dado muito nas vistas, (que aqueles dos Pereiros, rais os partira! gente mais espiolheira e intriguista não cobre a rosa do sol!), mal se preparavam para ensacar os primeiros calhaus, saltam de lá os guardas e, por mais que desembelinhassem as gâmbias na retirada, não se livraram de umas estadulhadas bem assentes nos lombos. Desanimados e desancados, os argonautas regressaram a penates pela calada da noite sem o velo de ouro e, sobretudo, sem tugir nem mugir. A poveca, que era pequena e de língua desembestada no que a costumes diz respeito, toscou a odisseia. E, bem depressa, algum Homero se deu a glosar o feito glorioso em métrica sofrível, mas de veneno cabonde. À socapa pelas quelhas da aldeia, a plenos pulmões pelos campos, na rega das batatas ou na sega dos pães, a trova atrevida alastrava cada vez mais desaustinada, seguindo a música popular do Raspa:

O Rasca diz que sim,
O Bateitas diz que não;
Foram às minas a Veigas,
Logo deram c’o filão!
Apanharam muitas chinas,
Mas não eram das do chão!

E mais do que lhes pesariam as pedras de volfro se as tivessem pilhado, mais que as bordoadas aparadas no costado, muito mais lhes doíam os versos que se espalhavam como a pneumónica.
Mas agora, ali na tasca, quando alguém tentava ainda atazaná-lo com a cantiga, ele rematava, com uns longes de desprendimento filosófico:
Ora adeus! Cantigas!... Tomara-me eu mas é nesse tempo!

***
Como íamos dizendo, por esse entardecer abafadiço de Agosto, já os gados recolhiam aos currais e, na eira do Outeiro, esmorecia o arfar gosmento da malhadeira, lá vinha o tio Rasca cumprindo as estações da sua via-sacra até aos Pereiros, depois de ter atestado bem a medida para o caminho na tasca do tio Trocho. Cruzámo-nos à saída da aldeia, no alto da Portela. Eu, estudantinho em férias, depois de um esforçado dia a alombar sacos na malha do meu tio Zé Çuca, fora desencardir o coiro da poeira e da comichão áspera dos cuanhos ao nosso tanque de Vale-da-Frunha em que uma bica vertia a água fresca da nascentinha minguada encanada lá de riba dos castanheiros do passal. Regressava já a casa, muito alceiro de chinelos e calções e no descaramento juvenil do tronco nu, com a trouxinha da roupa suja debaixo do braço:

− Então, tio João, já de volta até aos Pereiros? – lancei à laia de saudação.
Nem me respondeu. Especado nas pernas altas de grou, bambas do vinho e muito escanchadas para não desabar, cravou em mim os olhitos piscos de piteireiro, escancarou uma boca grande de incredulidade e lançou-me com arreganho:
− Oh! carvalho!... Vossemecê está despido!?... Tape-me essas tetas, carvalho! – E forcejava por arregalar as pálpebras, pesadas do tinto, para mais convictamente sublinhar a sua escândula, reiterando:
− Tape-me essas tetas, carvalho!... − E sustinha a sua indignação procurando argumentos no entendimento zúbio do vinho. Depois, como quem arrasa um contendor com argumento definitivo, rematou:
− Olhe que eu, em sessenta anos de casado, nunca vi as tetas da minha mulher! – E, como do Velho do Restelo canta o Épico, meneava a cabeça, descontente.

Aturdido pela veemência da objurgatória, mesmo insciente da malícia intrínseca à nudez das minhas mamas de macho, e sobretudo intimidado pela grandeza da modéstia conjugal do tio Rasca, instintivamente gasalhei as ditas debaixo da toalha. Mas ele, de consciência em paz depois de aplicado o correctivo, retomava o monólogo interrompido e passava por mim, alheado já da minha pessoa e da nudez dos meus peitos. Ainda me voltei, meio esparvoado, parafusando sobre a relatividade dos códigos morais que regem o destino da humanidade em geral e de cada um em particular: borracho ele, eu impudico... e ambos tão inocentes! A sombra esguia e negra perdia-se já por detrás da sebe de escarambunheiros que bordejavam a curva do carreirão dos Pereiros a seguir à Casa da Aula. Nunca mais o vi.

O tio Rasca (que a terra lhe seja leve!) partiu há muito, com a medida bem feita de anos e de quartilhos. Mas decerto levava no seu activo, para as contas a prestar ao Criador, a lição de moral e bons costumes com que me chamara ao caminho dos justos.