Fotografia de Raul Coelho tirada de Olhares.com
Nesta belíssima fotografia, tirada em 2006, vemos o tio António Martins, ou António Piloto como todos o conhecem no povo, figura muito querida por toda a gente da aldeia.
O tio Piloto é casado com a tia Maria, que é da Graça, mas a quem todos chamam a Fecisma, alcunha que herdou do nome adulterado de sua mãe. Ambos trabalharam muito, cultivando as suas terras. Fizeram-no quase sempre sem recurso a máquinas, com as próprias mãos armadas de enxadas e amparados pela junta de vacas, numa labuta tremenda. Era na extensão do trabalho que se distinguiam dos vizinhos.
No Verão também eu me fazia vizinho e, quase sempre, antes das cinco da madrugada, era ouvi-los a falar um com o outro e com os animais (porcos, coelhos, galinhas):
- Reco, reco... anda lá p'ra trás, ladrão! Ó Antonho, ajuda-me aqui a abrir a porta dos porcos!
Pouco depois, já saíam com o carro para o trabalho e aquele chiar melancólico era, para mim, como o último toque do despertador.
Como todo o povo, cultivavam pão e trigo, linguagem que o aldeão transmontano sabe interpretar. Mas o seu orgulho maior eram as batatas. Terras e terras cheias delas certificadas.
- "Houve um ano em que fizeram um concurso e eu concorri. Fiquei em segundo lugar. Vê lá bem: em Portugal inteiro só houve um homem que produziu mais batatas do que eu. E éramos 800 a concorrer!
- "Era muito trabalho! Mas eu gostava daquilo!" – A luz que lhe ilumina o olhar confirma, uma por uma, cada palavra que profere.
O tio António, junto aos seus silos, no ano do concurso dos produtores de batata. Teve direito a uma deslocação da gente do cinema de Lisboa que lhe ofereceu a fotografia.
Hoje, o tio António já não tem a sua junta de vacas. Nem consigo imaginar o quanto lhe deve ter custado desfazer-se dos animais, ele que falava da cria como se de pessoas sábias e inteligentes se tratasse. "Compreendem tudo", dizia, "aprendem tudo; quase já não é preciso mandá-las!" Mas a idade, que dá passos mais largos do que as nossas pernas e chega mais depressa do que os sonhos concretizados, assim o exigiu e o tio António resignou-se a trabalhar menos.
O tio António foi Presidente da Junta de Rebordaínhos e nunca recebeu um tostão por isso. Chegada a idade, e tentando acrescentar alguma coisa à reforma, o regime, que devia ser justo para se chamar democrático, respondeu-lhe que, para poder acrescentar a reforma, tinha de proceder aos descontos devidos. De que vencimento, é que lhe não souberam dizer!
O tio António é homem de poucas letras mas de muito saber e argúcia. Onde outros viam obstáculos, ele tentava vislumbrar oportunidades. Por ser assim é que se decidiu, há mais de cinquenta anos, a escrever a Salazar. “Tu és maluco” – diziam-lhe – “ele nem vai ler a carta”; “nem sequer sabes a direcção para onde escrever!” Nenhum argumento o demoveu, convencido que estava desta verdade: “nada temos a perder.” Dando uso à perfeita caligrafia que os senhores professores sempre exigiram e que as circunstâncias impunham, lá disse ao Presidente do Conselho que a igreja paroquial de Rebordaínhos ruíra; que o povo tirou do descanso e do bolso magro o necessário para a reconstruir, que a obra, não lha podendo mostrar, acreditasse nele, embora sem luxos, orgulhava qualquer um, mas que faltavam cinquenta contos para dar o trabalho por findo. Pouco tempo depois, o dinheiro aparecia e o povo pôde voltar reunir-se com o Senhor num lugar digno de ambos.
O tio Piloto e a tia Maria criaram cinco filhos que mandaram estudar para Lisboa, que por lá ficaram, mas que visitam os pais sempre que podem, trazendo consigo os seus filhos.
Quem olhar atentamente para a fotografia que abre este artigo reparará que, entre a casa e o carro de bois, se vê a cabeça da tia Maria. Preocupado com o carro de bois, o mais certo é que o fotógrafo nem sequer tenha reparado que estava a captar uma realidade antiga, quase intemporal: a realidade da mulher aldeã, sempre a trabalhar, dividindo as horas do dia entre duas labutas, a da casa e a da terra.
Muito do êxito do tio Piloto vem-lhe da força e do querer da tia Maria, mulher que nunca andou devagar e cujas mãos nunca se viram paradas. Camisolas, meotes de lã ou de linha, vestidos das raparigas ou calções dos rapazes, tudo saía das suas mãos habilidosas e do seu muito bom gosto, tudo feito durante os longos serões de Inverno, em sua casa ou na dos Fouces seus vizinhos e parentes. E as mãos que davam corpo a tamanhas belezas eram as mesmas que, durante o dia, espalhavam estrume, apanhavam batatas e agarravam na enxada para arrancar ervas daninhas. Depois de muito bem lavadas, nos dias ou no tempo certo, coziam o pão e tratavam do fumeiro, alimentando a família com fartura.
A Tia Maria e o seu delicioso fumeiro
Fotografia tirada pela Olímpia (Natal de 2007)
No passado dia 15 de Março, o tio António completou 81 anos. Num gesto pleno de beleza, o seu filho Zé (que fazia anos no dia seguinte) decidiu homenagear o pai e convidou a família e os amigos para o jantar de inauguração
do seu hotel em Mondim de Basto, data que fez coincidir com a do aniversário do pai. A emoção foi geral e constante. Hotel com tais começos, bem merece que o futuro lhe sorria!
O tio António, a tia Maria e três dos seus filhos: Orlando, Maria Augusta e Zé (sentado). Fotografia tirada pela neta Ana.
Nota: as palavras sublinhadas são ligações. Basta um clique sobre elas para que se abra a página sugerida. Em todo o caso, fica aqui o endereço do hotel do Zé em Mondim de Basto:
http://www.aguahotels.pt/
Fátima e João Stocker