quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Actividades Económicas



I - AGRICULTURA

A FAMÍLIA DA SENHORA MARGARIDA




Hoje retomo o tema das actividades económicas da aldeia. Foram bastantes as pessoas que aceitaram falar comigo e, acredito, sentem-se um pouco defraudados por não verem nada publicado. A todos peço desculpa, lembrando, em minha defesa, que não foi por descaso e, muito menos, por desamor.

Porque a nossa terra faz parte do mundo rural, parece-me justo que inicie esta série referindo quem se dedica exclusivamente à agricultura e dela tira o seu sustento. De entre esses, destaco aqueles que devem ser os maiores proprietários: os herdeiros do sr. João Pires, ou sr. João Santo, como se preferir e a família não levará a mal.

Tudo somado, trabalham uma área de cerca de 62 hectares. A senhora Margarida é a cabeça de casal e tem no Toninho, o filho mais velho, o seu braço direito. Com eles, a tempo inteiro, também trabalha o Manuel, mas a Luísa e o Carlos não falham, ele nas férias porque está longe, em França; ela nas folgas e nas férias porque está mais perto, em Macedo.

Como acontece com todos na nossa terra, os muitos hectares desta família espalham-se por todo o termo da aldeia, o que acrescenta trabalho e despesa à produção. De acordo com a tradição, a castanha, a batata e o centeio são a principal fonte de rendimento, embora os tempos tenham dado nova feição ao trabalho. Possuem dois tractores, segadeira de feno, arrancadora de batatas, enfardadeira e outras máquinas que, se não substituem inteiramente a força humana, aliviam-na muito. Sem estas máquinas e sem poder contar com ninguém porque, no povo, quase só restam os velhos, seria impossível trabalhar área tão grande. Compensa ter tantas despesas com máquinas? Respondem que não, mas também não vêem grandes alternativas.

– “Ó mãe, está na hora de ir deitar as vacas!”, diz o Toninho, do cimo da magnífica escadaria de granito da casa. O cabelo revolto denuncia a sesta que acabou de dormir, costume há muito perdido nas cidades, mas tão necessário àqueles para quem o dia começa antes de o Sol arribar no céu. A senhora Margarida debagava uns erbanços que tinha a secar, pois é nessas tarefas, ou a fazer renda ou meia, que as mulheres de Rebordaínhos “dormem” a sesta, mas como os erbanços podem esperar e as vacas têm que comer, lá foi ela levá-las ao lameiro. Mal comparado, estas vacas são rainhas: da loje para o lameiro e do lameiro para a loje, percorrem as ruas da aldeia como majestades sereníssimas. Comem e descansam! Anda que no tempo do sr. João não era assim, não, que tinham que bulir muito! Estas são jungidas para semear nabal e batatas e para agradar a terra - meia dúzia de vezes, e pronto, está o ano feito!

O trabalho é muito. O Manuel ainda vai ao café, mas a mãe e os outros filhos nunca se vêem desocupados. Os dedos de conversa trocam-se enquanto descarregam o tractor, ou pelo caminho quando levam a vianda aos porcos. Mas não falham aos vizinhos se os encontram a braços com trabalhos mais pesados.

A casa, herdada do pai, foi arranjada e alargada, parecendo um palácio com as suas paredes brancas e janelas emolduradas em cantaria lavrada. O interesse de cada um confunde-se com o interesse de todos e, talvez por isso, vão conseguindo amealhar o bastante para terem conforto e desafogo. Se o mundo andasse direito, tanto esforço seria compensado com bastante lucro, mas como o mundo anda mais torto do que aquelas ervas engatadeiras que engatam pelos paus acima e lançam umas guias enroladas como rabo de porco, quem ganha são os intermediários que vendem caro como o lume aquilo que compraram por dez réis de mel coado.

“No tempo do meu pai, diz o Toninho e a mãe confirma, vendíamos o quilo do pão a 50$00 e a saca de adubo custava 600$00. Agora, pagam-nos o pão a 16 cêntimos e a saca de adubo custa 20 €! As batatas foram vendidas, este ano, a 10 cêntimos..." Basta fazer as contas para se perceber a dimensão do desprezo que tem sido dado à nossa agricultura. Devido a tais circunstâncias, aqueles que permanecem na terra, a trabalham e dela retiram o sustento merecem ser louvados e reconhecidos.

Fátima Stocker

domingo, 30 de novembro de 2008

Recordações brancas

O dia amanheceu com um brilho diferente, mais luz, mais beleza, um manto branco cobria a paisagem.
De repente surgiu em mim a ideia de ir por aí fotografar para aqueles que embora sendo da aldeia mas que estão longe, também pudessem usufruir deste lindo espectáculo, ficam as imagens e garanto-vos que estava mesmo muito frio...


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Equipa de Futebol de Rebordainhos
Vencedora de Torneio em 1986


Esta fotografia faz parte de um conjunto enviado pelo César Baptista que se encontra no Brasil e que vai acompanhando o nosso Blog.

O Orlando do tio Aniceto fez o favor de nos dar algumas informações. Não sabe onde pára a taça, mas diz que se tratou de um torneio de Salsas em 1986. Os campeões fotografados são (da esquerda para a direita e de cima para baixo): Manuel Pires (da sr.ª Margarida); Alexandre Pires; Carlos Gomes, Orlando Ferreira (do tio Aniceto); Toninho Pires, Víctor Martins (da Esmeralda) e Vaz Pereira (da tia Hélia).

Ora, se não me engano, só o Orlando e o Víctor é que andam por fora (França e Vila Real, respectivamente). Todos os outros mantêm-se na nossa terra, uns mais em Bragança e outros mais em Rebordaínhos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Concurso de Fotografia

O Outono é talvez uma das estações do ano
mais apreciada pelos fotógrafos, pela luz e
pelas cores da natureza
com os seus diferentes cambiantes.




Se gostas de fotografia participa no concurso organizado pela Azimute - Associação de desportos de aventura, juventude e ambiente - sobre o tema "O Inverno em Trás-os-Montes" a decorrer até dia 26 de Dezembro de 2008.


Para mais informações consulta o site aqui.




quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Rebordainhos quer Centro de Dia

Artigo publicado hoje no Jornal Nordeste

Associação pretende transformar a antiga escola primária num equipamento de apoio aos idosos

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Uma recolha efectuada em 1978

A Maria Augusta Pilota já nem se deve lembrar desta relíquia. Gravou-a em 1978, como trabalho de recolha para uma cadeira do seu curso de Geografia. Gentilmente, ofereceu-ma, sabendo o quanto gosto destas coisas. Trinta anos depois, eu já dava o conteúdo como perdido, mas as tecnologias permitiram o milagre de recuperarmos alguns registos e transferi-los para formato mp3 - trabalho de persistência do João.

O volume está baixo, pois foi a forma de diminuirmos os ruídos que a fita original apresentava.

Fátima




A casa do Tio António Piloto

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Ares da Serra




VI - TERRAS DE PÃO


À memória de meu Pai, um homem duro mas justo



por
António Augusto Fernandes





(…) Mais informa da intervenção da P.I.D.E. para tentar descobrir os autores do arrancamento de algumas árvores na serra de Nogueira: “Foram descobertos um ou dois e os Serviços entregaram depois novas árvores que a população que as tinha arrancado se encarregou de colocar de novo:”
(Extracto do Processo movido a Aquilino Ribeiro pela publicação de Quando os Lobos Uivam, romance que tem por tema a florestação dos baldios. 07.04.59, [fls. 43 a 44]) [1]

Corria quente aquele Verão de 1958.
O misto resfolegava esfalfado sobre as duas fitas de aço, lançando baforadas de fumo negro, depois de quatro horas a lutar com os cem quilómetros que subiam da foz do Tua até ali, à cota mais alta da CP, na estação de Rossas. Parou consolado à sombra fresca da meia dúzia de nogueiras a que o chefe da estação dedicava os bastos ócios que o trânsito madraço de quatro composições diárias lhe permitia.

Da segunda classe saltou um adolescente espigadote balouçando a maleta de cartão. De fato preto, gravata preta, boina preta, era o provável seminarista, em tudo conforme com os regulamentos seminarísticos dos anos cinquenta, de regresso para as férias de Verão. Depois de um ano de ausência, desde a estação de Salsas que os seus olhos augados da terra vinham espiando as alturas da serra de Nogueira onde Rebordainhos se fora encarrapitar. E quando o comboio atacou a recta dos Roubões, antes de encostar à plataforma da gare, já o olhar se lhe prendia às alturas do Alto da Cabeça, onde jogara à bola com os da sua igualha, à Eira da Cabecinha onde se avistavam os primeiros medeiros da aldeia e o Armindo barbeiro lhe cortava as melenas. E suspirou de alívio.

Na plataforma da estação deserta, sufocada pela canícula da tarde e pelas poeiras que o suão levantava dos campos ressequidos, procurou com o olhar erradio a comitiva familiar que devia esperá-lo. Nada. Só depois de o comboio arrancar e dobrar a curva que desce para o túnel de Arufe é que reparou no mano mais novo que atravessava a linha. Crestado dos ares bravios da serra, a camisa de popelina listrada pela cruz de santo André das alças que lhe seguravam as pantalonas de cotim já um pouco curtas, avançava indeciso. Estava bem crescido o dianho do moço! Mas estranhou-lhe os modos. Ele sempre zombeteiro, a magicar na próxima partida que lhe iria pregar, parecia constrangido, quase hirto. Sem um gesto, sem desenterrar as mãos dos bolsos, desferiu-lhe à queima-roupa, como quem quer desincumbir-se rapidamente de recado que lhe frige a alma: − O pai esteve na cadeia!

Ora essa! Assim, sem mais! A notícia deu-lhe um baque na alma sensível de seminarista. Em boa verdade, com o feitio arrebatadiço que se lhe conhecia, não seria muito de estranhar que tivesse quebrado as trombas a algum bebedolas menos conforme com as etiquetas do soto onde governava a vida, ou pregado um par de lostras nalgum moinante que lhe moesse o juízo. Mas tais percalços não eram de estranhar e estavam em conformidade com os brandos costumes da serra. Não era decerto por tal ninharia que ia um cristão malhar com os ossos na cadeia! Ainda por cima o Jaime polícia! Lá rebentio de génio era ele, mas enfim, nunca seria caso para prisão!...

E, enquanto demandavam a aldeia pelo carreirão de Arufe ia rememorando aqueles escassos cinco anos de vida na aldeia, quando o pai, indisposto com os nepotismos da polícia onde as promoções eram regidas por empenhos e conivências, voltara à aldeia natal trazendo consigo revivida aquela fome antiquíssima de terra, uma fome herdada dos antepassados, funda como as raízes fundas que nela tinham lançado. Atirara-se com afã a desfazer os bocados que andavam a monte na Corredoura, na Ladeira, no Pórto, onde quer que pudesse colher mais dois alqueires de centeio.

O Pai tinha os seus repentes, bem entendido, mas no fundo era um sentimental capaz de verter a sua lagrimazita às escondidas e, sobretudo, era um homem com profundo sentido de justiça. Nesses anos magros a seguir à guerra, fora dele a iniciativa de aumentar para doze mil e quinhentos réis a jorna aos cavadores, recordado ainda dos tempos que ele próprio levara agarrado ao cabo do enxadão. E, por essa memória, a pobreza dos mais pobres merecia-lhe um grande respeito e a fome de quem trabalha o dos outros via-a como a mais negra das injustiças num mundo mal feito. Exigia trabalho que se visse e escolhia os trabalhadores mais valentes, mas tratava-os com a consideração devida a quem trabalha. Seria ríspido e não se ensaiava para dar um recado. Mas era generoso se um pobre lhe batia à porta com fome e ironizava os seus confrades nas Conferências de S. Vicente de Paula quando na saqueta das esmolas abundavam as moedas de cobre: não é assim que os pobres tiram a barriga de misérias

Era também a ele que a ciganada recorria quando faziam questão em baptizar algum filho. − Ó homem, não seja por causa disso que o lacru fica mouro! E à conta disso se viu padrinho de para cima de meia dúzia de ciganitos. Tinha um sentido de humor um tanto sardónico e mais que um lhe ficou a dever a alcunha. Amigo dos seus amigos, era correntio e folgazão nos jogos de ar livre aos domingos, quando ameaçava os adversários do chincalhão de os levar em pó e vento, e homem de força quando era preciso dominar pelos cornos um bezerro bravo recalcitrante ao jugo.

A vida não lhe fora nada meiga. Criado com muita estreiteza pela tia Antonha Pastora já viúva, naquele casinhoto negro do Covelo, não se envergonhava de confessar que muitas fominhas rapara e só aos vinte anos, quando assentara praça, deixara os socos de amieiro para estrear os primeiros sapatos. Enfim, o pouco que subira na vida subira-o a pulso e honradamente.

E o seminarista estimava-o e admirava-o por tudo isso. E ainda pela recordação supremamente grata de lhe ver a compenetração com que aos domingos acendia a vela do altar de Santa Maria Madalena, ajoelhando sempre diante do altar da grande pecadora arrependida, padroeira da freguesia, cuja imagem mandara restaurar a expensas suas num santeiro de Braga.

Por tudo isso lhe custava encaixar essa história da prisão do pai. E, de repente, passou-lhe pela mente o grande desarranjo: podia lá chegar a padre, sendo filho de pai preso!? Ele bem estranhara que, durante uns tempos, as cartas chegadas ao seminário não mostrassem aquele belo cursivo de quem redigiu muitos autos de zaragatas nas feiras do 12 e dos 21, em Bragança, de quem apontou muito calote no rol dos fiados, mas sim a caligrafia titubeante da mãe, com menos arte para relatar coisas e loisas da aldeia. Lá tentara explicar para consigo o desacerto na correspondência com o aperto dos afazeres da lavoura somados às preocupações dos calotes abusivos que a magreza do viver aldeão multiplicava como tortulhos no Outono. Não, que a vida na serra andava cada vez mais cainha e muito complicada para todos: os filho nasciam bastos como os cabeçudos na charca do Espinheiro, os rendimentos da lavoura eram mais que escassos, ainda que andassem de sementio até a pedriça do Alto do Sirgo e os pedregulhais das Curreliças que mal davam sustento ao tojo rastiço, quanto mais às paveias de centeio. Ainda por cima, para ajudar o pai que é pobre, coelhos e perdizes iam retraçando o pouco que a terra dava.

E só à hora do caldo veio a saber que a história era bem outra!
As coisas tinham começado alguns meses antes. Uns engenheiros, armados de fitas métricas e teodolitos, dados a muitas inquirições sobre matrizes e estremas, iam cravando bandarilhas de mau agouro pelo longo dorso que vai da Malhada Velha aos cumes da serra, às Três Marras, ponto de encontro dos concelhos de Bragança, Vinhais e Macedo de Cavaleiros.

Os aldeanos olhavam toda essa estranha movimentação de soslaio. A coisa cheirava-lhes a esturro, porque era certo e sabido que o governo só se lembrava deles para os cardar. Ora, mandar que suas excelências, os senhores engenheiros, viessem sujar as botas de calfe nas poeiras da serra não havia de ser no interesse dos lapoiços que a escarduçavam por mor de mais umas pousadas de pão. Quanto a inquirições, eles bem se fechavam em copas: − sei lá de quem são as terras, onde ficam as estremas! Não sabiam eles outra coisa! Estas invasões dos baldios não vinham nos jornais e disso não falava a Emissora Nacional, não, que andava tudo bem açaimado pelo senhor Governo! Mas, pelo que corria à boca pequena por feiras e romarias, futuravam eles que o acontecido lá para baixo, para as Beiras, mais tarde ou mais cedo lhes iria bater à porta. O que eles sabiam muito bem era que aqueles pedaços de terra por cima da Malhada Velha até à cota dos mil e duzentos metros, do Vale dos Azebros ao Cabeço do Pau e ao Lombo das Terças, quando calhava de o Inverno trazer dois ou três nevões que matassem a bicheza, adubassem as terras delgadas e fizessem borbulhar as nascentes, as espigas faziam dobrar as hastes do centeio, de gradas, porque lá reza o ditado: ano de neve, paga o pobre o que deve, ou o outro que diz o mesmo por outras palavras: ano de pão, sete neves e um nevão. E era também dali que saía a melhor batata certificada: nas covas mais lentas e de húmus mais gordo medravam os batatais com direito a que se lhe especasse uma tabuleta com algarismos pintados a zarcão, conferindo-lhes o direito a ser vendida como batata de semente certificada, o que dobrava o preço.

Ali, naquelas alturas lançando a vista para o horizonte, sobre o vale de Macedo de Cavaleiros, em frente, ou, sobre a esquerda, ao planalto de Miranda, enfarinhado no azul da distância, atrás de um coelho ou agarrado à rabiça do arado, um homem sentia-se de alma lavada e como se fosse dono do mundo. Era um espaço de liberdade, dessa liberdade tão cara ao serrano. Naqueles descampados, ceifados os pães, os gados pasciam livremente as espigas perdidas pelos segadores ou a relva tenra que brotava com as primeiras águas do Outono. As giestas e urzes que despontavam pelo pedregulhal eram de quem as quisesse arrancar para com elas fazer carvão, esquentar o forno ou atiçar o lume nas manhãs de codo. Aquela corda de outeiros, isentos de senhorio, eram de todos, mas eram sobretudo dos mais pobre que não tinham de seu leira de jeito ou touça para acender a lareira no Inverno. Eram terrenos baldios? Pois que fossem, mas era deles o proveito! Já assim era no tempo dos avós e dos avós dos avós, e nunca ninguém se incomodara com isso! Esses baldios eram bem o símbolo da sua liberdade e independência, já que não podiam ser coutados nem sisados pelo poder central. E se há coisa odiosa para o serrano é que lhe toquem na terra que sente como sua, ou que alguém venha de fora pôr-lhe o cangote debaixo do jugo. Por mor de um migalho de terra quantos não se tinham já perdido!

É bem verdade que aquilo ficava longe que nem seiscentos diabos, lá para cima, a dois passos da capelinha da Senhora da Serra no picoto mais alto da Nogueira, onde no tempo dos mouros (ou seria de Carlos Magno e dos Doze Pares de França?), Nossa Senhora aparecera a uma pastorinha muda, de tamancos, que Nossa Senhora não tem engulho dos pobres, e depois marcara com neve, no dia mais quente de Agosto, o sítio e modos como queria que lhe fizessem uma capelinha. Era a Nossa Senhora deles, que os de Rebordãos bem quiseram mudar a capela para onde a avistassem da aldeia, mas obra feita de dia esborralhava-se milagrosamente durante a noite. E ao fim de muito caturrarem, a capelinha bem que teve de ser feita onde Nossa Senhora a queria, que era a olhar para Rebordainhos, que Ela, pelos modos, preferia aos de Rebordãos.

Pois é, um homem demorava uma manhã inteira para ir regar quatro sucos de batatas e, no tempo das acarrejas, tinha que jungir os bois ainda com escuro, se queria o carreto pronto antes de ir comer as batatas do almoço. Mas deixá-lo! Era deles, e… o tempo dá-o Deus de graça!

Até o tio Zé Çuca, monárquico convicto, que era fino, lia A Voz e desempenhava, como por descendência dinástica, o cargo de Presidente da Junta desde que lhe morrera o pai, o ti António Caminha, embora apoiasse a Situação e admirasse Salazar, desta vez achou que a Situação exorbitava, borrifou-se para o Salazar e acrescentou a sua indignação à dos demais.

Os Serviços Florestais começaram por construir uma casita toda liró, bem melhor que as da aldeia: reluzindo de branca, enconchadinha numa ruga da serra, com uma nascentinha de água leve e fria à ilharga, voltada a sul donde no Inverno espreita o sol criador e com vistas desafogadas para meio mundo, mais feita para poeta contemplativo que para Guarda-florestal.

E logo nos começos do Inverno as máquinas invadiram os corutos da serra e vá de arrotear o maninho, de afundir nos covachos milhares de pinheiritos tenros, de abetos, de bétulas… Se ainda aldemenos os Serviços se lembrassem de plantar carvalhos e castanheiros que era o que a serra reconhecia como seu desde que o mundo é mundo! Mas não… vinham lá com essas esquisitices da Terra Quente… − Rais os partissem a todos mais à pata que os pôs!

Máquinas e engenheiros já tinham partido e o sossego parecia ter regressado à serra. Aos domingos, no adro, depois da missa, não se falava de outra coisa e, enquanto as mulheres corriam a esverçar o caldo de couves, os homens davam uma saltada até à Cruzinha, levantando os olhos para aquela lombada da serra, na esperança de que a sarna tinha secado. É o tinhas! Ao longo de toda a cumeeira, os pinheiritos tinham pegado com arreganho e a rabugem verde-escura começava a pintar os terrenos onde dantes crescia o centeio e a batata. E, intrigados, quedavam-se em conjecturas: e agora?... e de quem é aquilo? e que torna e que deixa... A coisa começava a cheirar a esturro.

Até que um domingo, depois do almoço, os sinos se puseram num bimbalhar doido de toque a rebate. Acudiam as gentes a indagar onde era o fogo. Sobre o muro do adro onde no Inverno se arrematavam os chispes e orelheiras prometidas ao S. Sebastião, alguém ia despachando quem chegava: que desandassem em busca de enxada, de sachola, de picareta e ala para a Malhada Velha que a serra havia de ficar como era dantes.

A gemte começou de sse juntar e era tanta que era estranha cousa de se veer − diria o Cronista se ao sucedido assistira.

Munindo-se cada qual de ferramenta mais azada para o efeito e muitos também de uma pinga, que nestas alturas dá sempre jeito, esquentando-se mutuamente os ânimos com vozes façanhudas e esporádicos gorgolejos nas botelhas galegas de pele de cabra, quando passaram a Ribeira, na subida para os Vales, já se evocavam os grandes feitos guerreiros com que na escola se enfeitava a história pátria: espanhóis e Aljubarrota, mouros e Afonso Henriques, Índia e Vasco da Gama, tudo abundava no exemplo de como as coisas têm que ser feitas quando vêm mexer com quem está quedo. E era deveras inflamado o espírito belicoso das hostes. Tomaram o caminho dos Vales que, apesar de mais empinado, os punha lá riba em três tempos. Um nevoeiro cerrado abatera-se sobre a serra como manta cúmplice que os acobertasse de olhos coscuvilheiros, que estas coisas querem-se feitas a recato, como negócio entre homem e mulher. Enquanto o diabo esfrega um olho, imolaram a maior parte das hastezinhas tenras que lhes tinham invadido as terras de pão e alguns dos feros arrancadores trouxeram-nas à laia de troféus justamente arrebatados a inimigo vencido em valorosa peleja.

Viveram-se tempos de incerteza. Será que o Governo os tinha esquecido outra vez e tudo voltava ao que era dantes? Agora esquecera! Os polainudos da GNR começaram a rondar a aldeia, entravam nas tabernas com falinhas mansas, ofereciam o seu copo: quem tinha tocado o sino a rebate?... quem tinha acicatado os fregueses na arranca dos pinheiros?... quem tinha cometido o desacato contra o Estado?... Ninguém fora, ninguém ouvira nada, ninguém sabia de nada. Desistiram, encalhados na pertinácia serrana.

As inquirições pareciam ter dado em águas de bacalhau e os ânimos iam serenando. Sempre valera a pena o finca-pé!...

Até que um dia apareceu um jipe do Estado com uns sujeitos de ar sinistro. Nem parou. Atravessou a aldeia e pelos caminhos dos carros de bois subiu até aos Vales, como quem sabe ao que vem. Sem dizer água-vai os sujeitos de má catadura catrafilaram o Raul e enfiaram-no no jipe, que regressou à aldeia e estacou no Largo do Prado em frente da Taberna de Baixo. Com o mesmo despacho deram voz de prisão ao Jaime que nesse momento tinha vindo à porta do soto inquirir da novidade. Era o que eles receavam: a PIDE, não podendo prender uma povoação inteira, deitava os gatázios a quem muito bem entendia para escarmento dos demais: ao Jaime porque, sendo dono da taberna, pelas conversas que se soltam entre os fregueses depois de uns quantos quartilhos empinados, devia ter ouvido pela certa alguma coisa mais sobre o assunto da Floresta. Ademais, sendo polícia, embora de licença sem vencimento, tinha obrigação de informar os seus superiores de todos os movimentos sediciosos da população. Ao Raul, porque, morando no ermo dos Vales, a dois passos da zona florestada, tinha de saber pela certa quem lhe passara à porta para ir vindimar os pinheirinhos. Esta lógica caseira não convencia ninguém e serviu apenas para camuflar canhestramente os autores da feia delação. Veio-se a saber mais tarde que os dois sacrificados nas aras da sanha policiesca tinham sido denunciados por motivos bem pouco políticos e ainda menos patrióticos: o Jaime pelo guarda-florestal recentemente nomeado, fraca rês vinda da Terra Quente, a quem recusara alongar o rol dos fiados. O Raul por um vizinho da Quinta dos Vales que com ele mantinha pendências de estremas mal definidas ou marcos manhosos que se movimentavam a coberto da noite. E lá os levaram para a cadeia da Rua do Heroísmo, no Porto.

Viveram-se dias negros, pois que todos, quem mais, quem menos, se sentiam na pele dos dois caçados pela polícia política e em todos doía a consciência colectiva dessa aleivosia. A tia Lídia viera ocupar o lugar do marido na Taberna de Baixo chorosa e aflita. Lá de baixo a correspondência dos dois reclusos ia contando que não eram maltratados e a comida era razoável. Não fora o desarranjo trazido aos negócios de cada um pela ausência forçada, animavam eles, desdramatizando a situação, quase se podiam dizer umas férias à conta do Estado. O que deveras lhes doía na alma eram as grades da prisão. O serrano, preso nem com uma linha se quer ver! Periodicamente eram abordados blandiciosamente pela polícia: − que nada tinham contra eles… que bastava dizerem quem fora o da ideia, que a eles nada acontecia. O Raul entrincheirava-se na sua escusa: que mal saía daquele fim do mundo que eram os Vales, o que é que ele podia saber? Em tal dia até andava a lavrar lá p´rós lados de Lanção!... O Jaime insistia no seu álibi: nesse dia tinha ele ido ao vinho lá para a Terra Quente. Até tinha factura passada e tudo
Ninguém se descosia, nada feito.

Pela aldeia, os dias passavam macambúzios, pela indecisão do caminho a tomar, até que o Pe Amílcar achou por bem descer à cidade a encontrar-se com o Pe Caminha, cunhado do Jaime, que, enquanto Director da Escola Profissional de Santa Clara, tinha entrada franca no Ministério do Interior. Passaram-se semanas caturrando dum lado e doutro, mexeram-se todos os pauzinhos e num domingo depois da missa, o Pe Amílcar, ainda antes de se desparamentar, dava notícias aos paroquianos:

Tudo na mesma. O senhor Jaime e o senhor Raul não dizem nada e a polícia só os deixa vir embora se o povo plantar de novo as árvores arrancadas.

Cá fora, no adro, discutiu-se rijamente. Por um lado, aquilo cheirava-lhes a forte humilhação, como se o povo não tivesse razão em defender o que era seu. Por outro lado, que mais culpados eram aqueles dois que os outros, para irem malhar com os ossos na cadeia!?... Depois de muito parlamentar, a muito custo optaram pela humilhação.

De novo subiram aos altos da Malhada Velha, mas agora com a amargura de quem sobe ao calvário. Cheios de má vontade lá foram replantando quanto tinham arrancado. E tudo pegou gorando, para seu espanto, a confiança que depositavam nas leis da botânica: bicheza brava aqueles pinheiros! pegavam, mesmo com um nó na raiz!

Depois de dois meses de cárcere, os deportados eram depositados no Largo do Prado. O Raul correu a matar saudade do seu casal dos Vales. O Jaime, naquele seu feitio um tanto arisco temperado pelas agruras da vida, entrou pela porta do seu soto com o ar de quem tinha ido ali a Bragança encomendar umas mercearias no armazém do Domingos Lopes. E ofereceu uma rodada aos presentes. Como tinham cedido na replantação dos pinheiros, nem dava para se sentirem heróis ou caudilhos de um levantamento. Sobrava apenas uma leve amargura, como de moinha de Outono, a ensombrar-lhes a alma.

Em resumo:
Para regar a hortinha da Vale-da-Frunha-d’Além ainda por lá andava, nesse Verão, um sachito com que o mano participara na odisseia da floresta, crismando-o de arranca-pinheiros.

Para sossego de consciência do seminarista, não houvera morte de homem, a sedição acabara em bem, com o acatamento da autoridade e a floresta medrava lá em cima à lei da natureza…
Finalmente, rezam as crónicas, não foi por causa de pai preso que ele não veio engrossar as fileiras dos ministros do Senhor.

Hoje a floresta faz cinquenta anos, está frondosa e até que alindou o dorso nu da serra. Para consolo dos ecologistas encartados constitui notável contributo para a preservação do lobo ibérico que lá vai abocanhando ao desfastio alguma canhona distraída que lhes passe a jeito. E também do javali que cata meticulosamente as castanhas tombadas do ouriço e cabouca os batatais que lhe ficam à mão.

Mas permanece como a pegada de um governo que exerceu o seu poder autocraticamente e ao arrepio dos direitos comunais − memória de chaga mal sarada na alma da comunidade.

Os poucos velhos que se recusam a abandonar a aldeia e os jovens agricultores, que o Governo louva mas não ajuda, persistem em agricultar essa terra que sobrou da floresta, sabendo que trabalham para sustentação do lobo ibérico, que está de saúde se recomenda, e do javali, que os figuros da cidade adoram ostentar como troféu das suas caçadas. E, se não vier alguma trovoada à moda antiga, ainda sobra qualquer coisita para o pobre do lavrador que, não sendo espécie protegida, está em risco de extinção.

______
[1] in Em Defesa de Aquilino Ribeiro, organização de Alfredo Caldeira e Diana Andringa, Edições Terramar, Lisboa 1994.
O processo em questão fora movido ao autor pela publicação do seu romance Quando os Lobos Uivam, que tem por tema a florestação dos baldios na Serra da Nave, saído em finais de 1958.


N.Ed. As fotografias que ilustram a narrativa são da autoria de António Fernandes

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Amigo

Pela simpatia,afabilidade e carinho do povo de Rebordaínhos, onde muitas portas teimam em se manter abertas.

ENTRE QUEM É!

Olímpia Pereira


AMIGO

Para ti esta dica:

Quando a Chave já é tosca,
Mas de bom trato na fechadura,
Não force, nem use a força,
Que nunca vai ficar na rua,

PORQUE:

Aquele que a rode,
Que entre e se acomode.

Não pense no aspecto,
Nem tão pouco no transtorno,
Porque além do afecto,
São favores que retorno.

..A CASA É SUA.

Orlando Martins

sábado, 8 de novembro de 2008

Organizar a fileira do cogumelo

Já não é a primeira vez que publicamos um post com informação sobre a produção de cogumelos (veja a nossa etiqueta cogumelos) pela leitura deste artigo publicado no Mensageiro, vemos que mais uns passos significativos neste domínio estão a ser dados, nomeadamente ao nível da formação de apanhadores, organização do projecto, circuitos de comercialização.
Continuo a pensar que Rebordainhos deve estar atenta a este assunto, pode vir a ser um complemento à castanha e batata.

Noticia do Mensageiro

Associação cria pólo experimental com junta de freguesia “A ARBOREA está a organizar o mercado do cogumelo de Vinhais e, neste momento, temos em experimentação um método de organização”, explicou António Borges, da ARBOREA, Associação Florestal da Terra Fria Transmontana, no decorrer das VI Jornadas do Castanheiro, realizadas no passado fim-de-semana em Vinhais, e integradas na Rural Castanea, feira da castanha. “O mercado de cogumelos já existe, só que está por baixo da mesa. O que queremos é colocá-lo.....................

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Temos um novo membro do Blog

É a Tilinha!

E assim se vai provando que, grão a grão, enche a galinha o papo! De gente nova é que nós precisamos. E com sangue na guelra!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Jornal Mensageiro
comunidade fotográfica

Esta foi uma das duas fotos vencedoras do concurso "foto da semana" do Jornal Mensageiro online, é da autoria de uma natural de Rebordaínhos a Fátima Stocker.

As duas fotos vencedoras foram publicadas na edição impressa do referido jornal.

Parabéns Fátima ! Soutelo - Fonte de mergulho


Clique aqui para visualizar todas as fotos

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Montaria

Pela segunda vez, a nossa aldeia foi escolhida pela NORCAÇA para a realização da montaria ao javali que teve lugar no dia 18 de Outubro.

O dia amanheceu com ameaça de chuva, mas depressa o sol deu ares da sua graça. Era o dia da montaria e São Pedro tinha de estar do lado dos caçadores!
O local da concentração foi na sede da Junta de Freguesia, onde os caçadores confirmavam a inscrição e seguiam para o tão esperado "mata-bicho". Eram 68 caçadores mais alguns acompanhantes.

E mais não digo! Deixo uma reportagem do certame em jeito de fotografias, pois lá dizem os entendidos que "uma imagem vale mais do que mil palavras".
Embora não haja uma prova fotográfica do resultado da caçada, asseguro-vos que se traduziu em 7 javalis.





Nota: O meu reconhecimento a todos que colaboraram na elaboração deste post.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Uma doçura de comentário

Não é hábito publicarmos comentários, mas, aquele que a seguir transcrevemos, pela sua candura, por ter sido colocado num post da minha cunhada Augusta sobre sua mãe e minha sogra (a quem, desde que casei, sempre tratei por mãe) merece, no meu entender, este destaque.´Trata-se, essencialmente, de um agradecimento à Carla Pereira Rodrigues que logo no seu primeiro comentário (e creio que numa das suas primeiras visitas ao Blog) nos brinda com tão gentis recordações.

Anónimo carla pereira rodrigues disse...

Era uma das senhoras que mais gostava de visitar nas ferias de verao porque la tinha sempre uns rebuçaditos prontos para oferecer.e certo que ja os havia a venda,mas aqueles eram decerto mais doces porque eram dados com carinho.
lembranças muito doces.

28/Out/2008 12:31:00

Obrigado Carla! por este doce que nos deixaste no Post


Onde estão os meus sapatos?



A Carla em criança, com a Ifigénia, sua mãe (filha da tia Zulmira).

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Magusto Tradicional (convite)


Terá lugar no sábado dia 1 de Novembro um Magusto Tradicional na nossa Freguesia, veja o convite publicado no

sábado, 25 de outubro de 2008

Há trinta e tais...


Na página da Direcção Geral dos Monumentos Nacionais existem duas fotografias do Pelourinho de Rebordainhos - aquelas que reproduzimos aqui - e que irão, também, substituir a primeira que publicámos, cópia de muito inferior qualidade de uma das presentes.

Foi o Evaristo que fez o favor de no-las enviar e de identificar os três raparigos que lá estão. Cito-o numa informação que me parece importante. Diz ele: ambas foram tiradas pelo ténico dos MN após o tio Jaime informar que, por ameaça de ruína, iria cimentar os degraus da base: era Inverno (não sei se 70/71 ou 71/72).

Vamos, agora, ao desafio: quem identifica os raparigos e os ganapos fotografados?

(Para os mais distraídos: clicando sobre a imagem ela abre-se em tamanho maior)

Fátima Stocker

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Recolha de Cantigas da segada




Tarde de amena cavaqueira no Prado, frente à taberna de baixo. A senhora Irene que me perdoe, mas nem sequer o seu sorriso cativante me fez habituar a chamar “Café Central” ao seu estabelecimento.

Não sei precisar a data, mas estávamos, seguramente, nos primeiros anos da década de 90 do século passado. Eu estava empenhada em recolher aspectos de um quotidiano que via desaparecer em cada Verão que assomava. Dispunha de poucos meios, mas isso não me preocupava porque o meu intento era pessoal: queria registos para quando a memória me faltasse. Feliz a hora em que, de tal, me lembrei.

Os registos que agora se publicam poderão ter, para quem os ouve, o toque da nostalgia. Para mim…

Estávamos, então, no Prado. O Rafael fazia de mestre-de-cerimónias e orientava-me para que eu não perdesse pitada. Já nem me lembrava como eram magníficas aquelas vozes, dadas por Deus, mas buriladas pelo sentir que só a vida confere. São elas:

Octávio (das cabanas, irmão da Ester)
Victor Martins
João Veigas
João Pereira (Fouce)
(A sr.ª Irene
também deu um arzinho da sua graça)

A certa altura apareceu uma personagem fora do contexto. Não sei se o Octávio se envergonhou, mas deu por terminada a cantoria no Prado. Prosseguimos em nossa casa, agora só com o meu pai e o João Veigas que também se cansaria, deixando o Fouce sozinho a aturar as madurezas da filha, provando a paciência de santo que sempre teve. Bem-hajam todos, sobretudo os dois que já estão no Céu – Octávio e meu pai – e não souberam o quanto lhes fiquei grata.

Fátima Stocker
_______
Dado o tamanho da recolha (cerca de uma hora), é provável que a reprodução demore um bocadinho mais do que é habitual. É só ter alguma paciência.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

À descoberta dos cogumelos

Não pretendo ensinar o padre-nosso ao cura, porque nem sou botânica, nem tenho a veleidade de saber tudo sobre cogumelos que é a palavra mais usada para tratar toda esta família de fungos.
Mas se tiverem tempo e disponibilidade serão surpreendidos, com a quantidade e variedade desses fungos aos quais quem aqui nasceu e vive conhece pelos nomes populares de níscaros, de frades, de pinheiras, de carneiras.
Aqui as pessoas, na sua grande sabedoria, herdada de gerações sem conta, conhece, à distância essa diversidade, dentro da familiaridade.
E era bom que os citadinos saíssem dos seus alcatifados aposentos e viessem ao encontro da Natureza. Talvez pudessem saborear estas iguarias cozinhadas com presunto, toucinho ou vitela mirandesa. O manjar seria inesquecível!!!

Não tente identificar cogumelos apenas com base em imagens. Existem diversas espécies perigosas e mesmo letais. Saber identificá-las com precisão requer experiência e informação rigorosa.
A autora deste post não se responsabiliza pelos usos incorrectos das informações aqui disponibilizadas.


quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ares da Serra




V - O TIO RASCA DOS PEREIROS

por
António Augusto Fernandes

Tarde canicular de fins de Agosto. O sol descambava já por detrás da Serra de Bousende e lá vinha ele, mais uma vez, aos bordões, arrastando os socos de amieiro ferrados de brocha larga pela poeira, a caminho dos Pereiros por um carreirão mais torto que linha num bolso, como por lá se dizia. Estacava a espaços, oscilando mal sustido pelas pernas escanchadas, a discutir muito gesticuladamente consigo próprio.

Andava nisto há anos. Chegava depois de almoço à taverna do ti António Trocho, cumprimentava os circunstantes e abancava junto a uma das mesitas do chincalhão arroxeada do vinho de muitas litradas servidas na jogatana, sempre muito compostinho no seu colete de bolsinho tabaqueiro sobre a camisa branca abotoada até à maçã de Adão, muito saliente no pescoço esgalgado de grou. Depois de dois dedos de prosa com os circunstantes, pedia o meio quartilho do intróito que ia bebericando muito pausadamente, muito compenetradamente, com estalidos da língua de bom apreciador. Uma liturgia!

Lá pelo meio da tarde, depois de virados alguns copos, sacava do bolso da jaqueta um carolo de centeio negro, um naco de queijo cabreiro e a navalha peliqueira. Com método, lascava alternadamente cibitos de pão e de queijo que depois ia moendo com os vagares de quem tem todo o tempo do mundo e os dentes ralos. Sem muitas conversas com quem entrava a enxugar de uma assentada o copo de carrascão para limpar a garganta da poeira dos caminhos ou a mercar o macinho de Kentucky a oito tostões, ia respondendo à salvação de uns e outros com uma tranquilidade de senhor que em sua câmara recebe preito dos seus servos. Todos os dias de todos os anos ia repetindo estes gestos sacramentais, de tal modo que, lá para o fim, já nem precisava de vinho para se entornar:

- Basta dar-lhe uma pouca de água e indoujá-lo para derreter o sarro que traz na barriga, que dá o mesmo resultado – garantia o Pilatos, um outro piteireiro com crónica, mas mais rafeiro, ainda sem o estilo nem o estatuto do tio Rasca.

Era uma instituição este tio Rasca, João na pia baptismal. Alto, muito direito nos seus oitenta anos, enxuto de carnes, de bigodinho rectangular como era usança de quantos haviam feito a campanha da primeira Grande Guerra, com uns olhitos pequenos e piscos, de feição mais perscrutadora ainda quando derrubava a cabeça à banda, como as catatuas, para fitar o interlocutor num esforço de compreensão. Com frases sábias e curtas, mas sobretudo com grandes silêncios, ia discorrendo sobre o tempo, os seus tempos, as fainas da lavoura, enquanto os copos sucessivos lhe não toldavam o entendimento e entaramelavam a língua. Nessa altura calava-se e dormitava um pouco, apoiado ao porretinho que não o abandonava.

Pela tardinha, cumprido com exactidão o ritual de fazer a medida para a jornada, já muito piongonheiro, erguia-se um pouco cambaleante, despedia-se com o até amanhã sacramental e lançava os socos à árdua empresa do regresso: mais de dois quilómetros por caminhos de cabras! Muitas vezes, nos troços mais íngremes, o equilíbrio precário e uns vislumbres de prudência aconselhavam-no a arrastar os fundilhos das calças pelo areão do carreiro. Um dia por outro, as pernas recusavam-se à penitência e, em alturas de calmaria, pernoitava ao toro de uma giesta negral, acaçapado como uma lebre. Nas tardes curtas de invernia, quando escurecia inopinadamente ou o nevão adregava de apagar os pontos de referência na paisagem, perdia-se, tardava em arribar e os familiares, temerosos de o largarem assim na intempérie, acudiam num grande alarde de lampiões e injúrias ao impenitente peregrino. Tempo e cuspo mal gastos! No dia seguinte, de novo se atirava à via-sacra com a obstinação de romeiro que demanda Santiago de Compostela para encher a cabacinha e remir os seus pecados.

***

Como se iniciara aquele ritual da peregrinação quotidiana e inevitável dos Pereiros até à tasca de Rebordainhos era matéria de discussão entre os vários exegetas: saturação da vida insonsa dos Pereiros, opinava a corrente existencialista; mero gosto pela pinga, discordavam os de filosofia mais rasteira; desentendimento com os conterrâneos, entendia a mor parte, com uns lumes de sociologia. Esta última opinião era de facto a mais consensual, que o caso não era para menos: os Pereiros eram, nesses tempos, uma poveca com meia dúzia de casas de granito negro ajoujadas em torno de uma capelita pouco maior que uma curriça caiada de branco. Perdida lá nos fundões da serra, em deslado da ribeira a que emprestava o nome, o sol amanhecia-lhe tarde e despedia-se cedo e, talvez por este défice de luz, aquilo era uma gente azeda, perpetuamente roída de invejas vá-se lá saber de quê, pois que todos eram suficientemente pobres para morrerem de fome se não se matassem a trabalhar. Sinal de abastança já era a posse de um burrico ou de uma junta de vacas, excepção feita ao senhor Imbertinho alfaiate, proprietário de nobre cavalicoque que lhe dava direito a senhoria e a topar com dois dedos o chapelito de aba curta quando cumprimentava o gentio de cima da montada.

E tão quezilentos eram de feitio que se tinham afeito ao vezo de consumir nos tribunais da comarca algum tostão sobejo das colheitas e escapo à dízima e ao pagamento das avenças pela Senhora da Serra. Mais prazenteiramente entregavam os magros cobres na justiça do que na liquidação do rol dos fiados na venda, mesmo que isso viesse resultar num ainda mais magro passadio de caldo e batatas na roda do ano. Quase toda a gente, ou no papel de queixoso ou no de arguido, andava enredada em querelas mesquinhas, para grande gáudio dos advogados que sabiamente iam gerindo a mamata. Ora aí estava motivo cabonde para que o tio Rasca renegasse de conterrâneos tão arrevezados e somíticos que nem tasca tinham onde um cristão pudesse condignamente matar a sede e purgar o desgosto de pertencer a tal raça.

De vila era crismada pelos de lá de baixo a cabeça de freguesia, porque tinha um pelourinho, cambado, é certo, mas sinal inequívoco de foral velho e de prerrogativas antigas. Ademais rezava a crónica oral colectiva que tivera cadeia nos tempos remotos dos afonsinos. De resto, pobre aldeia montesinha, Rebordainhos lá ia vivendo, num aperto muito franciscano, do que lhe davam os soutos, do centeio arduamente esgaravatado nas lombas escalvadas da serra de Nogueira e da batata criada nos terrenos mais lentos das pregas da serra. Se não pelo estatuto, ao menos pelos seus ares levados, pela superioridade orográfica e pelo feitio cordato dos seus habitantes, sempre a vila olhara com alguma sobranceria para os Pereiros, sepultados lá nos cafundós da serra. Quando adregava de à conversa virem os dos Pereiros, era hábito canónico alguém perguntar, quase como quem recita uma jaculatória, quando é que Deus se lembraria de dar um piparote no coruto da serra e enterrar de vez tão ruim casta.

Mas, como se vê, de tal casta não era o Tio João Rasca. Pelo contrário. Era um tipo franco e teso que fizera crónica na sua mocidade. O mais badalado dos seus fastos passara-se nos tempos do volfrâmio, quando um calhau do tamanho de uma batata, desenterrado pela biqueira descuidosa do tamanco, poderia representar para o pecúlio familiar mais que meio ano agarrado à rabiça do arado ou a esgaravatar fragas com as ganchas.

O frémito volframista fez estremecer a serra como uma febre de maleitas, e o tio João, embora já não fosse propriamente um rapaz, não escapou incólume a essa fome da riqueza súbita. Lá matutou o plano que se lhe mostrava infalível e tratou de aliciar o genro para a marosca. O Bateitas, mais timorato, ainda resistiu, mas o Rasca tanto lhe moeu o juízo, porque torna, porque deixa, que acabou por embarcar na aventura, e toca de se meterem a butes até às minas de Veigas que, cortando a direito, eram já ali, a seguir à curva grande da ribeira. Mas, ou porque a mofina os perseguisse, ou porque a azáfama dos preparativos tivesse dado muito nas vistas, (que aqueles dos Pereiros, rais os partira! gente mais espiolheira e intriguista não cobre a rosa do sol!), mal se preparavam para ensacar os primeiros calhaus, saltam de lá os guardas e, por mais que desembelinhassem as gâmbias na retirada, não se livraram de umas estadulhadas bem assentes nos lombos. Desanimados e desancados, os argonautas regressaram a penates pela calada da noite sem o velo de ouro e, sobretudo, sem tugir nem mugir. A poveca, que era pequena e de língua desembestada no que a costumes diz respeito, toscou a odisseia. E, bem depressa, algum Homero se deu a glosar o feito glorioso em métrica sofrível, mas de veneno cabonde. À socapa pelas quelhas da aldeia, a plenos pulmões pelos campos, na rega das batatas ou na sega dos pães, a trova atrevida alastrava cada vez mais desaustinada, seguindo a música popular do Raspa:

O Rasca diz que sim,
O Bateitas diz que não;
Foram às minas a Veigas,
Logo deram c’o filão!
Apanharam muitas chinas,
Mas não eram das do chão!

E mais do que lhes pesariam as pedras de volfro se as tivessem pilhado, mais que as bordoadas aparadas no costado, muito mais lhes doíam os versos que se espalhavam como a pneumónica.
Mas agora, ali na tasca, quando alguém tentava ainda atazaná-lo com a cantiga, ele rematava, com uns longes de desprendimento filosófico:
Ora adeus! Cantigas!... Tomara-me eu mas é nesse tempo!

***
Como íamos dizendo, por esse entardecer abafadiço de Agosto, já os gados recolhiam aos currais e, na eira do Outeiro, esmorecia o arfar gosmento da malhadeira, lá vinha o tio Rasca cumprindo as estações da sua via-sacra até aos Pereiros, depois de ter atestado bem a medida para o caminho na tasca do tio Trocho. Cruzámo-nos à saída da aldeia, no alto da Portela. Eu, estudantinho em férias, depois de um esforçado dia a alombar sacos na malha do meu tio Zé Çuca, fora desencardir o coiro da poeira e da comichão áspera dos cuanhos ao nosso tanque de Vale-da-Frunha em que uma bica vertia a água fresca da nascentinha minguada encanada lá de riba dos castanheiros do passal. Regressava já a casa, muito alceiro de chinelos e calções e no descaramento juvenil do tronco nu, com a trouxinha da roupa suja debaixo do braço:

− Então, tio João, já de volta até aos Pereiros? – lancei à laia de saudação.
Nem me respondeu. Especado nas pernas altas de grou, bambas do vinho e muito escanchadas para não desabar, cravou em mim os olhitos piscos de piteireiro, escancarou uma boca grande de incredulidade e lançou-me com arreganho:
− Oh! carvalho!... Vossemecê está despido!?... Tape-me essas tetas, carvalho! – E forcejava por arregalar as pálpebras, pesadas do tinto, para mais convictamente sublinhar a sua escândula, reiterando:
− Tape-me essas tetas, carvalho!... − E sustinha a sua indignação procurando argumentos no entendimento zúbio do vinho. Depois, como quem arrasa um contendor com argumento definitivo, rematou:
− Olhe que eu, em sessenta anos de casado, nunca vi as tetas da minha mulher! – E, como do Velho do Restelo canta o Épico, meneava a cabeça, descontente.

Aturdido pela veemência da objurgatória, mesmo insciente da malícia intrínseca à nudez das minhas mamas de macho, e sobretudo intimidado pela grandeza da modéstia conjugal do tio Rasca, instintivamente gasalhei as ditas debaixo da toalha. Mas ele, de consciência em paz depois de aplicado o correctivo, retomava o monólogo interrompido e passava por mim, alheado já da minha pessoa e da nudez dos meus peitos. Ainda me voltei, meio esparvoado, parafusando sobre a relatividade dos códigos morais que regem o destino da humanidade em geral e de cada um em particular: borracho ele, eu impudico... e ambos tão inocentes! A sombra esguia e negra perdia-se já por detrás da sebe de escarambunheiros que bordejavam a curva do carreirão dos Pereiros a seguir à Casa da Aula. Nunca mais o vi.

O tio Rasca (que a terra lhe seja leve!) partiu há muito, com a medida bem feita de anos e de quartilhos. Mas decerto levava no seu activo, para as contas a prestar ao Criador, a lição de moral e bons costumes com que me chamara ao caminho dos justos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Tia Maria
O cardador

Este é um esboço de um trabalho que todos podemos fazer para que a tradição se não perca com o tempo.

Bem-haja, tia Maria, por aceitar desenrolar o novelo da memória.

Recolha efectuada pela Fátima e Olímpia junto da Tia Maria
Rebordaínhos - Agosto de 2008




A letra é a seguinte:

Cardador que carda la lana
Carda a preta, carda a branca
Ai carda também a mocita
Debaixo da manta!

Ai sumiei na minha horta
Manjaronas às mancheias
Ai tanto custaram a Deus
As bonitas com'as feias!

Do outro lado do rio
Lá tenho os mous marmelos
Ai s'o barqueiro num mos passa
Lá se me perdim d'amarelos!

"A minha mãe ganhou bem copos de vinho fino a cantá-la aos cardadores em Vilar d'Ouro!" Assim se refere a tia Maria a esta cantiga que sempre conhecemos como a "cantiga da tia Fecisma". Começava-a com um lai-lai lai-lai-lai... e acompanhava-a com as mãos a desenharem o gesto de quem carda a lã. Na sua voz grave, cantou-a até que a vida se lhe sumiu e, também por causa dela, deixou-nos uma saudade alegre.

Fátima Stocker

Jornal Mensageiro
comunidade fotográfica




Parabéns Lurdes






Foram duas as fotos vencedoras desta semana publicadas na edição impressa do Jornal Mensageiro, uma delas é de uma natural de Rebordaínhos a Lurdes Pereira, aqui fica o registo de mais uma excelente foto.


sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Bragança
À descoberta de cogumelos

Ao ler a noticia no Mensageiro pensei logo em dar a informação no Blog, as nossas "caminheiras e fotografas" bem podiam juntar o útil ao agradável e depois darem a informação de como correu a iniciativa, que se me afigura muito interessante.

O Centro de Ciência Viva de Bragança promove uma saída de campo
para identificação de cogumelos silvestres, no próximo dia 18 (Sábado).A saída está programada para as 9h00 na sede do Centro. A participação é gratuita, mas está sujeita a inscrição prévia, através do site
www.braganca.cienciaviva.pt ou do telefone 273313169 - Manuel Teles

Augusta, Lurdes, Regina, Milita, ponham Rebordaínhos a mexer, bonitas fotos e textos cá para fora, já que os homens da terra não participam , eles que façam a merenda e assegurem o transporte. Vocês ainda vão criar uma confraria! Nem arrisco a dizer o nome para não me zurzirem.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Jornal Mensageiro - Comunidade fotográfica

Enquanto o Outono nos vai presenteando com dias ensolarados que mais parece Primavera, Rebordaínhos continua a brilhar com lindas fotos no concurso online do "Mensageiro".




Foto vencedora enviada pela Fátima Stocker





Foram enviadas mais duas fotos da Olímpia e duas do João Stocker e outra da Fátima, para ver o resto das fotos clique aqui

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Peregrinações à Senhora da Serra


As peregrinações à Nossa Senhora da Serra , paróquia de Rebordãos, fazem parte do imaginário de qualquer habitante das povoações que circundam a belíssima serra de Nogueira.
Para mim, esta é seguramente uma das mais belas serras de Portugal, onde a cada passo se podem desfrutar das mais belas paisagens que o nosso país possui. Certo que esta é a opinião de uma transmontana ferrenha e que defende o seu torrão em qualquer lugar do mundo. Mas, quem duvidar desta opinião, porque não “mete os pés ao caminho”, e vem verificar a veracidade desta afirmação?




Uma amostra da bela vista da
Serra da Nogueira






Bom, mas o motivo desta minha narrativa, não se prende tanto com a beleza da serra, mas sim com o Santuário que se situa no seu ponto mais alto.
Diz a lenda que, andando uma menina muda a pastorear o seu rebanho, lhe apareceu Nossa Senhora que lhe pediu para dizer aos seus conterrâneos – de Rebordãos -, que lhe construíssem uma Igreja no ponto mais alto da serra de Nogueira.
A menina assim fez e, como apareceu a falar, todos acreditaram naquilo que a mesma lhes transmitiu.
Mas… no alto da serra? Tinham de subir pelo carvalhal acima? Uma subida tão acentuada que, muitos há que lhe chamam “pingão”? Então decidiram construir a capela sim, mas no início da subida. Afinal, era serra na mesma, e a Santa não se devia importar muito.
De imediato deitaram mãos à obra. Mas, se durante o dia construíam uma parede, a mesma havia de ser deitada abaixo durante a noite. Tantas vezes teimaram em construir que, outras tantas as paredes vieram abaixo, até que, Nossa Senhora decidiu aparecer novamente à menina muda, e lhe transmitiu que no dia 5 de Agosto, o lugar onde queria que lhe construíssem a Igreja, haveria de estar marcado com neve. Assim foi e, os habitantes de Rebordãos decidiram acatar a vontade da Santa e lá construíram a Igreja, e o culto foi-se perpetuando pelos tempos até aos dias de hoje.
Não sei bem a época em que tal aconteceu mas, numa das esquinas da Igreja estão inscritas duas datas: 1659 e 1671, ambas posteriores à construção da Igreja Matriz de Rebordãos que, de acordo com o inscrito no exterior, esta aconteceu em 1611, e no interior em 1614.
Não sei se é do conhecimento de toda a gente. Mas sabem que Nossa Senhora da Serra também se chama Nossa Senhora das Neves?
A festa inicialmente era realizada no dia 5 de Agosto mas, porque nessa altura ainda existiam muitos trabalhos agrícolas, ficou decidido realizar-se a 8 de Setembro, quando as colheitas já estavam devidamente guardadas.
De realçar no entanto que, ainda hoje, no dia 5 de Agosto é celebrada uma missa e são arrematados os quartéis (os que ainda estão disponíveis, pois muitos há que os têm alugado permanentemente) e as tabernas onde, nos dias das celebrações se hão-de saborear excelentes nacos de vitela assada.
Para além da festa propriamente dita, realiza-se anualmente uma novena – de 30 de Agosto a 7 de Setembro. E são inúmeros os fiéis que, ou alugam um quartel para aí permanecerem durante a novena e dia da festa, ou diariamente aí se deslocam a pé ou de carro para assistirem às celebrações dando cumprimento a promessas anteriormente feitas, ou então , pelo simples gosto de caminhar.
Lembro-me de em garota, ansiar pela chegada da Senhora da Serra, porque nessa altura, as meninas tinham direito a uma boneca pequenina, daquelas que tinham um elástico a unir as duas pernas e outro a manter os braços juntinhos ao corpo e, que depois, com a nossa criatividade, haveríamos de vestir com roupas por nós costuradas. Aos rapazes, a sorte trazia-lhes um tractor ou um camião de lata, que haveriam de exibir e conduzir carregados de terra , por estradas previamente bem alisadas numa qualquer rua da aldeia.

Por estas bandas, Setembro não existe sem pelo menos uma ida a pé à Senhora da Serra. Este ano, um grupo de três manas, mais a vizinha Tininha, anteciparam a ida. As férias de algumas acabavam antes e havia que cumprir o ritual.
A caminhada iniciou-se por volta das 8 da manhã e, para nossa surpresa, a Fininha tinha-se mesmo levantado para nos acompanhar. E lá partimos com a desconfiança de que, a mesma Fininha, haveria de desistir. Afinal, costuma “enjoar” quando anda a pé!

Em Vila Seco encontrámos o Toninho mais as suas ovelhas. E não é que também ele se interrogou se a Fininha chegaria ao fim da caminhada?








A Olímpia, Amélia e Tina





Subimos pela Malhada Velha até à casa da floresta. Uma casa linda que, se reconstruída, bons momentos de calma e sossego poderia proporcionar a quem dela quisesse usufruir, e serviria concomitantemente como fonte de receitas para a junta de freguesia.



A casa da Floresta








Um pouco mais acima encontramos a recém – baptizada “fonte do peregrino” e, fazendo jus à nossa condição, saciámos a sede com aquela fresquíssima e puríssima água . Outras necessidades humanas básicas foram ainda satisfeitas mas, refiro-me aqui apenas à satisfação com que fomos comendo as deliciosas amoras silvestres que fomos encontrando pelo caminho.



A Fonte do Peregrino







Ninguém se queixava das pernas porque a nossa alma estava completamente preenchida. As belezas naturais que podemos desfrutar em todo o percurso são soberbas. A zona das bétulas é fantástica e, nunca por lá passo que não me lembre do filme do Dr. Jivago quando, o mesmo procurava incessantemente Lara. Depois deparamo-nos com um pinheiro que, carinhosamente adquiriu a forma de cabana pronta a abrigar um peregrino que pretenda descansar à sua sombra. E depois… começam a avistar-se as mais diversas aldeias que circundam a serra. É um mar de imagens indescritíveis. O melhor é saborear!












Finalmente, já no alto, a nossa boleia de regresso já estava à espera. Cumprimos o prometido e, não é que a Fininha aguentou firme o 10 km de caminhada?

O Levi Mata garantia o regresso de carro

Para mim, a peregrinação haveria de continuar durante os nove dias da novena. Mas desta feita com partida de Bragança, passagem por Rebordãos e subida do pingão, num total de 15,2 Km. Mas tive sempre a companhia de duas amigas e o apoio do gabinete ao peregrino que desde há uns dois ou três anos existe junto ao Santuário. Aí somos recebidas por um grupo de enfermeiras e outras pessoas que, voluntariamente aí permanecem para, com todo o carinho aliviarem os pés com reconfortantes banhos quentes e massagens ou, para quem não tenha necessidade de tais cuidados, com um delicioso café.




Fotografia tirada em Rebordãos

domingo, 5 de outubro de 2008

Ecos do Meu Sentir


II - A PRIMEIRA MATRIARCA?....

por

FILINTO MARTINS


A vida não se aprende nos livros… aprende-se no Blogue de Rebordainhos…Não dizem a idade, mas para serem as primeiras a utilizar a ambulância tudo se descobre… Se naquele tempo houvesse televisão… Sempre terá sido a Fátima a servir-se de uma “ambulância” para poder nascer na cidade e não em casa. A Maria Augusta não foi de ambulância, veio de ambulância, a “burra grande” da tia Ana Costa. Era um luxo.

Pelos vistos só esquecemos aquilo que queremos e como tal, nem adiantava dizerem-nos que tinha vindo no bico da cegonha, porque não havia cegonhas na nossa terra.

"Amar e trabalhar são as duas chaves para tudo o que dá vida e significado" – Freud.

Alta, magra, sulcos vincados no rosto tisnado pela lareira, vestida de negro dos pés à cabeça…

Envelhecer é uma arte. Ao contrário dos animais, a espécie humana vive muito para além da reprodução e continua a desenvolver-se durante a sua existência. Será apenas um factor de risco e não uma doença.

Foram estas algumas das razões que me levaram a comungar ideias nunca pensadas há décadas atrás, porém a minha manhã dos 59 anos será igual à dos 60, que se aproxima.

É esta a imagem que tenho da tia Felecíssima, a quem eu, quando pequenote fazia alguns recados e em troca recebia uns amendoins ou rebuçados e não só…

Quando nasceu a sua Augusta, eu ia a sua casa com alguma frequência e aí era um moço de alguns recados:
-“Traze-me uns guiços”… quero que o lume arda melhor.

A Augusta chorava e logo ela pegava num pano em que deitava açúcar e com uma linha fazia uma chupeta. Remédio sagrado… chupava para regalo da avó que logo exclamava: “isso, minha Augusta”. Espero bem que ela não tenha diabetes, se os tiver fica a saber que foi por amor.

Ainda pequenote, sem escola para frequentar e pouco amigo de andar com as vacas nos lameiros… lá ia outra vez … lá vinha outro recado:
- “Olha, toma lá este dinheiro e vai à taberna comprar-me pregos.”

A distância era pequena e lá ia eu todo contente:
- "Senhor Ernesto, queria este dinheiro de pregos, para a tia Felecíssima."

Nunca tinha visto pregos assim. Trouxe a encomenda que entreguei com um olhar de surpresa. Afinal eram cigarros. Com muito cuidado e prática, a tia Felecíssima passou, suavemente, a língua no papel que embrulhava o dito prego, pegou num tição do lume e acendeu-o. Dadas umas passas continuou as suas tarefas domésticas, sem tirar olho da sua menina.

Nunca tinha visto uma mulher fumar! Isso era coisa de homens e já maduros. Terá sido ela a primeira Matriarca de Rebordainhos, do século passado? Nunca ouvi uma crítica ao seu hábito… Ah! Grande mulher! De trás da serra…

Ora, sempre que eu andava por lá, o recado era o mesmo: “vai-me buscar pregos”.

Na altura eu até nem me importaria, porque não havia televisão, playstation, internet, blogues… mas havia o Mendonça, figura que metia medo a mulheres e crianças. Só ele sabia arranjar foles e albardas para burros, porém quando estava com areia na asa… aquele narigão avermelhado, alto, andar lento, olhar fulminante e os seus apetrechos de trabalho eram suficientes para ter logo medo, porque os mais velhos nos diziam “vem aí o Mendonça que te capa”.

Com medo de encontrar o Mendonça e ficar sem o meu instrumento que muito prezo, certo dia lembrei-me de pregar uma partida à tia Felecíssima…

Como era seu hábito não acabar o cigarro pelos afazeres e cuidar da neta, deixava a prisca no banco ou no fogão, que depois acabava… até nisso ela era poupada. Puxando pela minha imaginação, retirei algum tabaco e meti-lhe cinza. Ah! Vício desgraçado e distracção a minha… acendeu a prisca e logo a cinza lhe foi para a boca, que não a impediu dum grito: “filho da puta, foste tu!” (A Augusta não ouviu).

Suponho que desci os degraus dois a dois e nem o Mendonça me agarrava…

O tempo cura tudo. E como diz o provérbio:”Todo o mundo quer conhecer o paraíso, mas ninguém quer morrer”, também eu continuei a ir para junto da tia Felecíssima, pois nem eu sabia que era a sogra do meu irmão, nem ela dizia que ele era seu genro… lembro-me bem que, com muito carinho, ouvia-a: “vou aquecer estas meias para o senhor António, que está a chegar”.

Nem todos podem ser ilustres, mas todos podem ser bons.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

António Augusto Fernandes...

... o nosso Tonho acabou de lançar um livro e depositou em nós a enorme honra de sermos os mensageiros da notícia.

Há gestos que, de tão gentis, nos sensibilizam ao ponto de nos deixarem sem palavras.

A obra, editada pelo Centro de Estudos Aquilino Ribeiro, é uma colectânia de ensaios fruto dos seus estudos e intitula-se:

AQUILINO RIBEIRO - SOB O SIGNO DA TERRA E DO HOMEM

Na contracapa do livro é o próprio filho de Aquilino Ribeiro quem avaliza a qualidade da análise do António. Diz assim:

Entre os nomes que, desde longe, integraram o Centro de Estudos e que mais contribuíram para a qualidade da investigação que ali tem sido desenvolvida, evidencia-se o do Dr. António Augusto Fernandes. Os seus escritos e as suas intervenções públicas acerca de Aquilino sempre revelaram ampla familiaridade com a obra do escritor e invulgar inteligência para evidenciar como os aspectos circunscritos, que analisava, se integravam coerentemente no mesmo todo e, como tal, deveriam ser entendidos. O livro, que presentemente assina, corresponde a esses registos antecedentes, vertidos agora em moldes definitivos. Não creio que, a partir daqui, seja possível a qualquer investigador ou ensaísta tentar uma abordagem da produção aquiliniana sem tomar em linha de conta a palavra e as opiniões do Dr. António Augusto Fernandes. Ele acumula as qualidades que meu pai prezava nos que dedicam à pesquisa literária: -erudição, discernimento e aquela dose de imaginação necessária para sair dos caminhos que outros já trilharam e, partindo daí, construir uma hipótese de trabalho plausível, cujo desenvolvimento, seguindo uma metodologia lógica, permita chegar mais próximo da verdade.

Eng. Aquilino Ribeiro Machado

Na dobra interior da capa, o professor Henrique Almeida vai mais longe, referindo o valor literário dos textos do António:

Parte significativa da ficção aquiliniana encontra nestes ensaios uma muito rara sensibilidade literária, caldeada com uma sólida cultura humanista. O estilo de António A. Fernandes agarra e seduz o leitor, que se deixa enlevar pela sua escrita cristalina e se rende à arguta análise hermenêutica. A sedutora criatividade que transparece nestes textos serve modelarmente o propósito de conduzir à leitura apaixonada de Aquilino, tal o eflúvio de emoções estéticas que exala de cada página. Só de quando em vez aparecem livros assim, ao nível dos melhores estudos de referência, entre aqueles capazes de entender a portentosa obra artística de Aquilino Ribeiro.

Henrique Almeida (professor da Universidade Católica)

Deixo aqui uma passagem do ensaio dedicado a "O Homem que Matou o Diabo":

Macário percorre, de facto, a sua Estrada de Santiago, mas uma Estrada de Santiago em negativo, seja prque a percorre de Ocidente para Oriente; seja porque do espírito se vai convertendo à carne. É pois um peregrinar de desconversão, de um misticismo virado do avesso.

Cavaleiro não confirmado em graça, qual Lancelote, vai, como ele, sentir o aguilhão das tentações e, fraquejar. É, por isso, extremamente significativo que na sua inábil tentativa de se despojar da ganga mística que ainda o aperreia, Macário se sujeite, em seu operar, ao pendor místico de um amor platónico mal seguro em seu travejamento. Ainda que consciente da missão de que se investira, três vezes cairá, renegando da dama por quem se entrega à Ventura.
(pp233, 234)
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A obra pode ser adquirida no editor (pela modestíssima quantia de 10€):

CENTRO DE ESTUDOS AQUILINO RIBEIRO
UNIVERSIDADE CATÓLICA
ESTRADA DA CIRCUNVALAÇÃO
3504 -505 VISEU

ou:
cear.aquilinoribeiro@gmail.com