domingo, 22 de março de 2009

ECOS DO MEU SENTIR


IV - VOLTEMOS À NOSSA ESCOLA PRIMÁRIA
por

FILINTO MARTINS

Uma escola reflecte o passado, o presente e o futuro.



O passado está patente na plêiade de antigos alunos que mesmo criados com carolos de centeio, carne gorda “rijada” e torradas de pão de quinze dias com unto, olharam mais além. O presente está neste blogue de Rebordainhos de que nem todas as aldeias, quase desertas, se podem orgulhar. O futuro que só a Deus pertence, está na semente que todos vamos lançando aqui e acolá, mesmo que o terreno tenha fragas, urzes, giestas… estará sempre como recordação naquela escola branca, com seis janelas, linda, grande… plantada no lugar mais arejado da aldeia, isolada… noutras aldeias seria ali o cemitério… o culto dos vivos dará sempre mais frutos que o dos mortos, merecedores do nosso respeito e admiração.

Suponho que tive sorte, nascendo a 3 de Outubro para a 7 entrar para a escola, como ditava o calendário de então. Agora começa um mês antes e termina um mês depois… Provavelmente porque já não é preciso sacudir a rama na apanha das batatas, virar o feno, ir com as vacas… novas tecnologias. Ainda bem, sem a mínima ironia. Não é preciso aprender de cor os rios e os seus afluentes e muito menos as linhas dos extintos caminhos-de-ferro. Basta consultar a NET e até horários e preços estão disponíveis.

7 de Outubro de 1955 – o sino da igreja nunca mais tocava… já estávamos à porta da Escola, onde nunca tinha entrado, quando umas leves badaladas ecoaram naquela manhã, efeito das mãos da Sara, que puxara o cadeado do sino, mais tarde, o mesmo, serviria para tocar a rebate e ir para a enxertia, no dizer do tio Leque… É claro que se tivesse sido duzentos anos antes, pensar-se-ia que era o terramoto de Lisboa.

Entrámos numa sala muito grande, com carteiras compridas, janelas muito amplas, um quadro negro, uma braseira, uma mesa, uma cadeira, alguns livros a um canto. Ao fundo, encostados à parede, dois armários onde se destacavam um carro de bois com “engarelas”, um arado, uma grade, tudo em madeira… que bonitos eram… ai se nós pudéssemos mexer neles!

Após esta primeira descoberta, eis que surge o senhor professor, Joaquim Francisco Ribom. Ninguém na aldeia ousava pronunciar o seu nome, mas o seu “ofício – Senhor Professor”. E quando passava a caminho da escola, de casa ou da Igreja, todo o ancião descobria a cabeça e com uma leve vénia, dizia: “Bom dia, Senhor Professor”, qual biblioteca ambulante.

Aquela figura esguia, alta, cabelo branco, olhos perscrutadores, fato e gravata, porte aristocrático, parecia o epítome do conservadorismo agressivo da época. Tirava um lenço branco do bolso das calças vincadas e com ele limpava a saliva dos cantos da boca. Com um olhar fixo e fulminante, acomodou-nos nas longas carteiras. Silêncio sepulcral.

Estava ansioso, acho que sem candeia no nariz, em abrir a sacola de pano de serapilheira, tirar o livro único e a pedra ainda limpinha, que tinha comprado na taberna do tio Trocho. Naquele tempo não distinguia uma única letra, a minha pré-primária foi ir com as vacas, andar aos pássaros, ir aos guiços para a lareira… Fiquei imenso tempo à espera… não apareceu nada escrito na minha lousa, todavia regressei a casa todo radiante porque já vinha da escola! Aquele livro com a águia, a égua, a igreja, o ovo, as uvas… decerto folheado vezes sem conta, sem identificar o significante, mas era aluno…

Os dias sucediam-se aos dias.

Já licenciado em Psicologia, o meu ego saiu muitas vezes recompensado com as palavras doces que a senhora Dona Maria, que visitava sempre que ia a Rebordainhos, me dizia passeando no seu quintal, junto a uma biquinha… um relógio de sol… confidências! “Olha, Filintão, uma vez a aluna… estava a aprender a juntar sílabas obtendo a palavra final, associada a uma imagem. Eu dizia-lhe: pa – pa e to - to. Ora lê. Resposta pronta: parreco.” Hoje digo eu: excelente resposta. Noutra ocasião a mesma aluna, tentando juntar a + pi + to, respondeu: subiote. O significante era o que menos interessava, todavia o significado era fruto duma socialização primária, ainda sem o Magalhães.

Estas recordações com a senhora Dona Maria e o senhor professor, tendo como testemunha o senhor Carlos, eram como o perfume das peras e maçãs que tão bem guardava na memória, na alcofa da sala de jantar da sua casa junto à Igreja. Voltaremos lá noutra ocasião.

O tratamento “Filintão”, que eu achava ser depreciativo e sinónimo de burro, naquela época, hoje recordo-o com carinho e saudade, pois o primeiro brinquedo que tive foram eles que mo ofereceram – uma gaita de foles - que a minha mãe guardava com carinho e especial atenção, dizendo sempre: “Foram os senhores professores e o senhor Carlos que te ofereceram”.

O Senhor Carlos, não sendo professor, era uma pessoa muito querida e respeitada. Estou a vê-lo passar para Vale-das-Vinhas, com um sachinho ao ombro e saudando tudo e todos. Jogando à sueca, ao “xincalhão”, na taberna do tio Trocho, saboreando o seu cigarrinho. A cada passo, mais atento ao tempo que ao jogo, puxava do seu relógio de bolso do seu colete, que muito prezava usar, a curta distância conferia as horas. “… é o último jogo…” bebia apressadamente o seu Sumol para iludir o cheiro do tabaco e ei-lo, em passo aligeirado, a caminho de casa… por ele não vinha mal ao mundo.

Obrigado, senhor professor, obrigado senhora Dona Maria, sinto orgulho de ter sido vosso aluno. Ela, lá onde se encontra, sabe que eu não gostava de chamar “senhora professora”, pelo carinho que sentia, gostava e gosto, pois para mim será sempre “senhora Dona Maria”. A autoridade era “professor”, ela era mais que professora. Até a sua terra natal – Carrapatas – que nunca visitei, continua na minha mente como algo diáfano, pois quando à saída de Macedo, vejo a placa Carrapatas, o meu espírito tem sempre presente os três grandes amigos.

Paz às suas almas.

terça-feira, 17 de março de 2009

Sra. Perpétua - Até um dia

A notícia da perda de mais um elemento da nossa comunidade é sempre uma tarefa assaz difícil de concretizar.

Cabe-nos, no entanto, o dever de o fazermos. Há filhos de Rebordainhos espalhados por todo o mundo que, sejam boas ou más, anseiam por notícias da nossa terra.


Rebordainhos está mais pobre. A "tia Perpétua" partiu.

A partir de agora, passar na rua do Outeiro, não mais será a mesma coisa. Já não ouviremos aquele cumprimento da "tia Perpétua" - "Então que tal?"

Por mim, tenho o orgulho e a certeza de constar entre aqueles que ela considerava. Assim espero que, onde quer que esteja, me oiça dizer:


ATÉ SEMPRE SRª PERPÉTUA
Augusta Mata

sexta-feira, 13 de março de 2009

Casamento das Novas


Vamos lá, minha gente, deixemos o torpor e as desculpas de que não há novos. Está a chegar o tempo de serrar as velhas e de casar as novas. Neste domingo ou no próximo?


Para avivar a memória dos mais esquecidos, aqui ficam as falas:



― Ó padre Amaral!

― Olá Compadre!

― Palhas alhas leva o vento!

― Que é que dizes?

― Vamos fazer um casamento!

― É verdade, é verdade! Então quem é que há-de ser?

― Há-de ser... há-de ser... há-de ser a...

― Então quem é que há-de ser o marido?

― Há-de ser... há-de ser... há-de ser o...

― Ah! ah! ah! É bem bô, é bem bô! E então, o que é que lhe queres dar de dote?

― Ũa toalha de estopa, onde o diabo limpa o cu, que limpem eles a boca!

―Ah! ah! ah! É bem bô, é bem bô!

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Outros dotes / pinhas

― Ũa toalha de linho, onde o diabo limpa o cu, que limpem eles o focinho!

― A porra do burro p'ra fazer um sobiote

― Os quilhões do Padre Santo, p'ra que lhe sirvam de almofada

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Julio Caro Baroja é um grande nome da cultura espanhola. Na sua obra "El Carnaval" defende a tese, segundo a qual, muito mais do que o tempo litúrgico que antecede a Quaresma, o Carnaval é uma festa com manifestações espalhadas por todo o ano, começando em Janeiro e terminando em Dezembro. Essa conclusão resultou do estudo de inúmeras festas aldeãs e citadinas de todo o território peninsular, com especial destaque para o Norte, Portugal incluído. Rebordaínhos dá razão a este sábio. Pensemos no nosso “Dia de Reis”, no “Entrudo” propriamente dito, na “Serra das Velhas” e no “Casamento das Novas”, cerimónias burlescas que celebramos a meio da Quaresma! A esta lista gosto de acrescentar a brincadeira do fim da malha, do ir buscar a rapariga a casa da família, para a levar no birgo. Se pensarmos assim, temos manifestações do Entrudo desde Janeiro até Julho / Agosto.

O Entrudo é a aceitação momentânea do interdito. Caro Baroja cita uma mascarada organizada por Filipe IV (o nosso III) em pleno séc. XVII. D. Filipe, o defensor do catolicismo, obcecado pela religião e instigador da Inquisição aceita mascarar-se de ajudante de câmara e participar num casamento fingido. Ou seja: na corte católica fez-se chacota com a religião e os seus sacramentos. Alguém de lá deve ter passado a Quaresma em Rebordaínhos.

Para a Germana


Germana: qual destas duas senhoras Anas é a Ana tua mãe?



Para que toda a gente entenda: a Germana é de Arufe de onde saiu há quinze anos e disse-nos que era filha da Sr.ª Ana e do Sr. António. Disse, ainda, que se lembra dos meus pais, mas parece que se não lembra de mim e nem eu dela.

Abençoada internet que nos permite estes (re)encontros.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Contas

Aquele lume do lar de Inverno, tenho a certeza, continua a acender a memória e a aquecer a saudade de todos quantos frequentam o nosso Rebordainhos. Eram longos os serões, ou assim me pareciam. Certas noites debulhava-se o milho, maçaroca contra maçaroca, mãos pequeninas a tentarem imitar os gestos dos grandes. Noutras, o homem da casa pisava o unto enquanto a mulher fazia malha: meotes e camisolas que calçavam e vestiam toda a família. Ora, porque o gesto da mão não é impeditivo da palavra, à medida que as agulhas puxavam a lã e a maça batia na banha branca, lá se iam contando histórias, naquela forma de dizer tão própria da oralidade. Que idade terão as contas da nossa infância?

Inicio aqui a publicação de uma série de contas no exacto registo em que as ouvi da boca de minha mãe, meu pai e tia Helena, cheia de pena de que a escrita não possa mostrar sorrisos e trejeitos nem fazer ouvir o riso nem o tom de voz de quem as ia dizendo. Quem se lembrar de mais faça o favor de ir acrescentando!

I - O ALFAIATE

Era uma vez um alfaiate. Ia de noite para a aldeia dele e passou numa canada. Uma silva prendeu-o. Esteve toda a noite:

– "Ó senhor, deixe-me, por favor, não trago dinheiro!"

Toda a noite a dizer isso! Trazia um cruzado no bolso e deitou-o para trás, para ver se o homem que ele julgava que o estava a prender, se ia embora.

De madrugada sentiu falar de trás dele. Olhou para trás e viu que estava preso pela silva. Tirou a tesoura do bolso e cortou-a. Ao fim disse:

- "Se fosses um homem fazia-te na mesma!"

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

ENTRUDO

O dia iniciou-se com a seguinte questão: “Então que comemos hoje?”
Claro que são vários os dias a iniciarem-se com uma pergunta semelhante. Mas hoje, porque é entrudo, a pergunta adquire outro sentido. É que nos tempos da casa do pai e da mãe, hoje era dia de se comer a orelha, a queixada, um salpicão e uma ou duas chouriças do porco que se tinha matado no início do inverno. Noutras casas, comia-se o salpicão da língua e umas chouriças bocheiras a acompanhar um arrozinho de espigos.
No dia de hoje, enchia-se a barriga de chicha, pois a partir de quarta-feira de cinzas era (e ainda é para alguns) dia de comer peixe, como o haveriam e hão-de ser todas as sextas-feiras da quaresma.
Bom, mas como a tradição já não é o que era, o almoço transformou-se num delicioso rancho, caprichosamente cozinhado pelo cozinheiro cá de casa.

Mas o dia não estaria completo se não rumasse até Rebordainhos para ver se encontrava o entrudo. Imaginei que iria deparar-me com algumas raparigas enfuliçadas e enfarinhadas. Mas ... nada!
“Então já não há marafonas?”
“E onde estão as raparigas?”
Bem, marafonas não encontrei, mas a Lurdes da srª Áurea ainda deu um ar da sua graça, e, "como quem sai aos seus, não degenera", costurou uns disfarces que, apesar de influenciados por outras culturas e costumes, lá nos lembraram que hoje é dia de carnaval.
Depois de um passeio pelos caminhos da aldeia, regressei a Bragança com uma questão a bailar-me na cabeça: Será que ainda fazem o boneco do entrudo? E se a resposta for afirmativa, qual a será a bafejada pela sorte de o ver depositado durante a noite, na sua porta ou varanda?
... Um dia destes saberemos a resposta.
Agora, resta-nos esperar pelo meio da quaresma para conhecermos os novos casais da aldeia, e qual a serventia que os rapazes vão dar às velhas depois de as serrarem!
"Palhas alhas leva o veeeeeeeeeeento!"
Lembram-se?
Augusta Mata

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

DIA DE CONCELHO

por

António Augusto Fernandes


Naquele tempo, mais ou menos por esta altura do ano, quando o Inverno ia já de abalada e as carvalhas enxugavam as últimas lágrimas da invernia, quando pelas touças começava de se ouvir a flauta alvissareira do cuco e os passarinhos esvoaçavam atrás das passarinhas, era chegado o tempo do primeiro concelho.

Essa palavra que, no antigamente, andava prenhe de sentido, ia buscar o seu significado às raízes mais profundas do étimo concilium – reunião da assembleia do povo, e tinha a ver com antiquíssimos costumes comunitários dos povoados perdidos nos picotos das serranias de Trás-os-Montes, esquecidos de El-rei e deslembrados da senhora República, que forçosamente iam buscar ao seu sentir comunitário a maneira de sobreviverem.

O primeiro concelho do ano tinha lugar por esta altura, nos começos da Primavera. O Presidente da Junta comunicava a decisão ao Sr. Padre e este, por sua vez, no fim da celebração dominical, anunciava ao povo: “no domingo que vem, há concelho”. Nesse domingo a missa tinha lugar mais cedo, logo ao raiar da alva e o Sr. Padre declarava toda a gente dispensada do preceito que proibia “trabalhos servis nos domingos e festas de guarda”. Depois do mata-bicho, o sino grande lançava do alto do campanário um pregão alegre, quase festivo, o toque a concelho e os vizinhos iam-se agrupando, conversadores, cada qual artilhado com a ferramenta que lhe aprouvesse ou mais necessária alvitrasse para as tarefas do dia, e dirigiam-se para uma das quatro entradas da povoação. O objectivo deste primeiro concelho era reparar os caminhos comunais que davam serventia às terras de amanho e que as enxurradas grossas da invernia tinham escaboucado.

As leis comunitárias estatuíam que cada agregado familiar enviasse o seu representante. As famílias onde não houvesse varão válido faziam-se representar no concelho por uma mulher ou mocito já espigadote. Quem, por algum motivo, se via impedido de participar pagava jeira a quem o substituísse ou obsequiava o concelho com um garrafão de vinho, o que, naqueles tempos escassos em pecúnia e abundantes em mão-de-obra, equivalia aproximadamente ao valor de uma jeira. Mas, por tradição, apenas as duas pessoas gradas da aldeia – o padre e o professor – se esquivavam a acamaradar nessa obrigação, substituindo-a pela coima. Mesmo o Sr. Lopes Direito, colheiteiro grado, de lameiros gordos e vastos soutos, ausente na capital, se fazia representar pelo seu administrador, o Sr. Carlos Ribom, que lá se integrava na malta trabalhadora com umas ganas muito democráticas: mãos macias e sachito ocioso, mais de enfeitar que outra coisa, ia parolando com o pessoal e distribuindo dos definitivos pequenos a quem como ele não prescindia do paivante nos queixos. O que não era despiciendo, pois que, tanto ou mais que o trabalho, era de valia o espírito convivial implícito na tarefa, verdadeiro ritual de consolidação da comunidade aldeã em que se reforçavam os velhos laços de vizinhança e entreajuda. Até aqueles poucos que, tendo vindo de fora, por lá assentavam arraiais passavam a usufruir do estatuto de vizinhos a partir da sua participação nesse ritual de iniciação.

Um cavava, outro carreava pedra, este empurrava um carrinho de mão, aquele deslocava um penedo com o ferro de desmonte e assim, sob a orientação dos anciãos do povo, se remendavam os caminhos, atulhando os fundões que a água abrira e as rodeiras que as rodas maciças dos carros de bois tinham afundado em demasia. E, entre risos e conversas, rememoravam-se velhos casos que já faziam parte da crónica colectiva da aldeia, rediziam-se ditos velhos que, sancionados pelo carimbo do como diz o outro, entravam na cultura da comunidade a caminho de se tornarem proverbiais. À hora do almoço, bebia-se da mesma cabaça, trocava-se de pitança com o comensal mais próximo, e, acedendo sem mais formalidades ao convite do és servido?, provava-se o presunto do vizinho e gabava-se o refogado da comadre. Ria-se das mesmas velhas chalaças do outro ano, os rapazotes mais espirituosos lançavam a sua pilhéria às moçoilas que tinham vindo trazer o almoço a algum familiar… E, neste conviver amigo, a rudeza bravia dos serranos amaciava, embebida de uma poalha de fraternidade.

Estes concelhos podiam realizar-se ainda por outros motivos de interesse geral ou de apoio comunitário, como a necessidade de acudir ao descalabro da igreja ou da escola, de reconstruir o palheiro ardido do vizinho. Mas de marcação fixa eram dois: este, o do arranjo dos caminhos e, logo adiante, no começo do Verão, o do conserto das poças comunais de rega.
Na serra, as águas brotam finas e frias, saudáveis e gratas ao palato, mas são escassas as nascentes, esparsas e flébeis em seu lacrimejar. Há, por isso, que aproveitá-las com parcimónia para dessedentar hortejos e batatais quando a estiagem caustica as lombadas da serra. E, como essas águas são de todos, gratuitamente dadas por Deus a quem delas precisar, todos aqueles que delas beneficiavam eram chamados a concelho para limpar as poças dos juncos que lá medravam, retirar as lamas arrastadas pelas enxurradas e calafetar as galerias abertas pelos leirões. Quem não comparecesse alienava, para esse ano, os seus direitos de rega que constavam em rol de que tomava conta o tio Zé Çuca, presidente da Junta de Freguesia.

E era das coisas bonitas de ouvir, no silêncio das tardes abafadiças de Agosto, quando a calma declinava, o tagarelar das águas, gorgulhando pelas agueiras, bulhando com os seixinhos, na pressa tranparente de matar a sede do batatal ou do talhão de feijões.

Hoje, a aldeia já não é a mesma e já não se toca a concelho. Hoje, felizmente, já quase desapareceram os tugúrios de granito e barro, colmatados de telha vã, para darem lugar a casas inspiradas em moldes recolhidos por franças e araganças. Felizmente as máquinas realizam as tarefas mais gravosas que então se faziam a pá e picareta e derreavam os quadris a um cristão. Felizmente!

Mas hoje, infelizmente, está a pique de se perder o sentido comunitário da existência implícito nessas tarefas de entreajuda. E cada dia que passa, corremos o risco de cada indivíduo se ir sentindo mais pobre, mais enconchado nas suas miúdas preocupações individuais.

Dá Deus as nozes a quem não tem dentes: hoje, que Rebordainhos vive decentemente, que tem luz, que tem água canalizada e ruas calcetadas, que vai à cidade quando muito bem entende… hoje Rebordainhos está velho, quase sem crianças, à beira se transformar numa aldeia de casas novas habitadas por ausências.

É por isso que daqui vai um obrigado enorme para todos aqueles que teimam em não deixar que a nossa aldeia morra. Bem-hajam!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Montaria




No próximo dia 22 de Fevereiro, Rebordaínhos vai ser palco de mais uma Montaria ao Javali, promovida pela Associação de Caçadores de Rebordainhos.

O tempo está bom (mesmo o friozinho da manhã) e convida à participação!


Aqui fica o cartaz do programa (clicar na imagem para ampliar).

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Almofada de Poetas

O Rui Freixedelo, respondendo ao meu apelo, fez o favor de nos enviar uma série de fotografias da última nevada, caída a 1 de Fevereiro.




O Rui vai desculpar-me, mas não resisti à tentação de fazer com a fotografia do pelourinho, aquilo que Estaline fazia com aquelas em que figuravam as personalidades que ia matando: apagava-as! O meu motivo é menos feio - pretendi, apenas, realçar a beleza única daquele símbolo da nossa liberdade. O trabalho resultou um pouco canhestro, mas as ferramentas disponíveis não me permitiram fazer melhor...







As fotografias são todas muito bonitas, mas apetece-me publicar estas porque, mal as vi, me surgiu a legenda que deixei em título.



Vistos assim, os castanheiros são como estátuas gregas: nuas, belas e perfeitas!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Fragas

O granito ouve-se nas palavras dos que nasceram nas fragas: a sua aspereza, mas também um brilho discreto e vário, notado, apenas, pela atenção dos amantes.
São as fragas das serranias que recortam o céu e talham o perfil dos sonhos, modelando castelos onde vivem mouras encantadas ou princesas sem idade. As fragas são tronos esculpidos à nossa medida e cada um de nós é rei sempre que nelas se acoita.

Nas fragas, a luz do Sol nascente, daquele Sol que se adivinha apenas, é coada pela névoa que abraça os cumes mais elevados. A névoa, sombra diáfana dos anjos, adoça-lhe a intensidade e confere-lhe tons de púrpura transparentes. Ao mesmo tempo, ínfimas partículas de brilho puro dançam no ar e são como estrelas semeadas, embora mais intensas e mais próximas, mas também mais efémeras.

Pouco a pouco, como se a luz tivesse peso, a coroa de névoa vai descendo, empurrada para os vales, e a aurora surge em todo o seu esplendor. Um rubro intenso cobre o horizonte em abundâncias sem fim. Não tarda, chegará a hora do azul iridescente e o dia ganhará nitidez, convocando para o bulício.

Nas fragas, a maravilha repete-se todos os dias e a beleza abençoa os madrugadores que se atrevem a desafiar o inverno.

Jan. 2005

domingo, 1 de fevereiro de 2009

GRATIDÃO

Nem sei como dar-vos conta da gratidão que sinto. Compreendereis que seja parca nas palavras e que vos una a todos num bem-haja do tamanho do meu ser.

Que Deus vos abençoe!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

BOLINA

BOLINA



Quebrei aquela grande onda
Que rasguei ao rebentar
E no momento de a devolver
Fui com ela navegar.

Já sem vela nem cordame,
Nem timoneiro ao leme,
Fui lentamente e ao de leve
Para que ninguém me chame.

Naquela térrea carcaça,
Com bolinantes ventos fora,
Me arrastei no frio lastro,
E assim me fiz de barcaça.

Fui barco de casco duro,
Que nem rochedo nem muro,
Me impediram de amar,
As ondas nos contos
Que tu prolongas.


Humildemente

Orlando

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O NOSSO JOÃO PARTIU


Anteontem, dia 26 de Janeiro o nosso João partiu.
Quisera ter habilidade para as letras e, assim poder transmitir-lhe a admiração que sentíamos por ele. Também não tive cabeça para memorizar as belíssimas palavras que a nossa irmã Tina lhe dedicou no cartão que acompanhou as flores oferecidas por todos os cunhados. Apenas retive umas que diziam mais ou menos assim “…obrigada por teres sido um dos Pereiras”.
Das muitas iniciativas que ele teve, este blog é sem dúvida aquela pela qual nós nutrimos mais carinho.
Porque adoptou a nossa aldeia como sua (costumava dizer que os locais que mais gostava eram Rebordainhos e o mar), vamos todos colaborar para que este espaço continue com a força e qualidade que ele tanto gostava?
Amigos, contamos convosco.
Para ti João, apenas te digo, até um dia e obrigada por teres sido quem foste.
Augusta

sábado, 24 de janeiro de 2009

ARES DA SERRA

VIII - O ZEQUINHA LELÉ E GARRETT

por

ANTÓNIOAUGUSTO FERNANDES



Mal acabara de largar o calçonico rachado para entrar no bê-a-ba, e logo aí pela segunda classe, na velha escola da Portela, calhou-me de acamaradar com o pândego do Zé Manel da tia Laurinda, vulgo o Zequinha Lélé, pequeno pastor de profissão e estudante de primeiras letras nas horas vagas. Ele já por lá andava quando eu cheguei e por lá ficou ainda a lutar denodadamente pelo diploma da quarta classe quando levantei arraiais para outros climas.

Cabeça granítica para letras e algarismos, é verdade, mas um artista, o Zequinha! Sim, senhores, um verdadeiro artista! Visceralmente avesso às operações aritméticas, às serras de Portugal e aos ramais dos caminhos-de-ferro e mais ainda ao frete estuporado dos ditados, era vítima permanente de serviço à férula do senhor Francisco Ribom. Mas portava-se como um valentaço de dez anos, fosse frente à palmatória, sem verter lágrima depois de meia dúzia de bolos, fosse a levar o caldo ao pai, perdido por lá com as ovelhas. Quando as sombras começavam de se caldear com o negrume do casario, era homem para agarrar na marmita e num chuço de carvalho e de se embrenhar pelos Montes onde o pai, o tio Domingos, e os cães do gado guardavam as canhonas, sem medo a lobos ou almas penadas, uns e outras bastos por aqueles sítios, ao que se dizia. E por lá passava a noite nas cancelas, embrulhado numa manta dentro do carreto, se o frio já apertava, ou num pequeno respaldo de colmo virado a norte e sustentado por estacas num ângulo de quarenta e cinco graus, se estiava. Por estas valentias ele era o herói que eu invejava às escondidas.

Mas não só por isso. O que ele era mesmo, era um artista, a primeira de muitas personificações de Orfeu com que me foi dado topar nas andanças da vida.

Nas tardes de Verão, quando o sol marrava já na serra dos Pereiros, a calma declinava e os gados recolhiam ao remanso dos currais, da sua esconsa varanda de granito talhado a picão (que já não existe) fazia palco. De cócoras como os escribas egípcios, ripava do pífaro que ele próprio talhara em vara de calineiro e ali se entretinha a esparzir sobre a pacatez da aldeia, mofina nos seus casebres amodorrados na tristura do granito negro e do musgo das invernias, trilos melancólicos que falavam da terra e das ceifas, dos gados e das touças de carvalhos negrejando a sul, pelas encostas do Cabeço Cercado. E eu, analfabeto musical, pasmava para o pequeno protegido de Apolo que, pela sua flauta, dizia de si, de todas as coisas que argamassavam o nosso pequeno mundo e de outras que, não sendo deste mundo, povoavam as histórias fantásticas do ti Zé Miguel nos serões de Inverno.

Do pequeno novelo cinzento pousado no chão emanava música serena e animalmente, como cantam os tentilhões. De repente suspendia a musicata, largava pulo de gamo, espinoteava como jerico picado de atavão, lançava uma casquinada de fauno e arrebatava-nos para a pândega – travessuras em que a sua criatividade se transcendia e que, as mais das vezes, nos granjeavam umas boas nalgadas. Ou então escamugia-se, nem o diacho sabia para onde. E às horas do caldo, do alto da varanda, a tia Laurinda atroava os ares em brados sonoros como os que no Vale de Josafat hão-de acordar os mortos: Ó Zé Mmaneeeeeeeel!… E ele lá aparecia, com os seus vagares, quando muito bem calhava.

Mas a sua arte maior era a harmónica, a plebeia gaita-de-beiços, ou seja, o realejo, que ele trazia sempre dependurado de um atilho preso à presilha do cinto, não fosse o diabo sumi-lo pelos alçapões dos bolsos das calças surradas. Um amolgado realejo que o pai lhe comprara por cinco mil réis na feira dos Chãos, para o caçar ao pé de si pelos montes atrás das ovelhas.

Pequeno Mozart sem o saber, melodia que lhe embatesse nos tímpanos jorrava-lhe espontaneamente pelo realejo, mais corredia que o cantochão da tabuada ou a lenga-lenga das serras de Portugal.

E foi assim que, um dia, ele veio surpreender a malta da carica e da bilharda com uns versos muito mazorros e patriotiqueiros, ouvidos na Feira dos Chãos, esse espaço mítico do cosmopolitismo serrano, onde tudo se vendia e mercava, onde, a molhar o alboroque, se apanhavam pifos monumentais, onde se rachavam cabeças com a mesma naturalidade com que se talhavam melancias, onde cegos, vagabundos e marchantes faziam presentes todas as notícias trazidas do vasto mundo que ficava para lá das serras... Campestre, risonho, levemente escarnica e sério, como os jograis dos frisos góticos, ali, naquela tarde, depois da guerra com o ditado e a aritmética, nos despejou os versos que ouvira na Feira dos Chãos. Tocava-os no realejo e cantava-os de seguida para nós, seu público fedelho, encostados ao fueiro da bilharda ou de cócoras, deixado suspenso o piparote na carica, banhados em deleite e embasbacamento. Começava assim:

Vasco da Gama pró mar,
Coutinho para aviador,
Amália para cantar,
Garrett para escritor.


Passava nessa altura, suponho, o centenário da morte de Garrett e aquilo tornou-se numa espécie de hino que muitas vezes berrávamos heroicamente aos pinotes pelos quatro cantos do pátio da escola. Por isso se me quedou nos escaninhos da memória, como brinquedo escangalhado, essa quadra que assim rezava das glórias pátrias. Soava-me bem, caíra-me no goto: Garrett para escritor. Viessem de algum aedo ambulante, dos que pelos caminhos os vendiam em folhetos a cinco tostões, ou de algum poetastro da situação que tivesse revolvido imortalizar o evento, fosse quem fosse o ignoto bardo, o resultado é que os toscos versos tiveram o condão de introduzir Garrett no panteão privativo dos meus paradigmas pátrios, lado a lado com o Pedro Álvares Cabral e o Matateu, o Nuno Álvares Pereira e o tio Rasca dos Pereiros, o Camões e o Nuno, que já andava na quarta classe e que fez um verso que era assim: ó Cafarnaum, Cafarnaum, marco do meio mundo! Era um grande poeta o Nuno! Eu não percebia muito bem aquilo do Cafarnaum, nem por que diabo havia de ser o marco do meio do mundo, porque eu era dos pequenos da primeira classe, mas que o Nuno era um grande poeta não fazia dúvida. E sentia-me muito honrado, porque o Nuno era meu primo.

Pouco depois, ainda na primária, apareceu um outro motivo, mais forte ainda, para eu adoptar Garrett como meu poeta de eleição: durante as férias, que se estendiam do domingo anterior à Páscoa até ao domingo da Pascoela, nos dias de meia primavera, as menininhas da sala da D. Maria tinham por hábito convergir para o largo da Casa da Aula. Depois de cochicharem os últimos enredos e apreciarem com ar entendido as respectivas toilettes, armavam umas danças de roda só delas, interditas ao rapazio. Enlaçavam as mãos e desenhavam uma larga roda que ia ondulando ao sabor da melodia que entoavam nas suas vozitas de soprano ainda a cheirar a leite, fazendo esvoaçar como arvelas coloridas os laçarotes do cabelo. E essa melopeia, assim esparzida no langor do entardecer, que se me coalhou na memória ligeiramente nublada da infância, foi a definitiva sagração do meu Garrett. Cantavam assim as petizas:

Eu tinha umas asas brancas
Asas que um anjo me deu
Que em me cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.

E não é que as mocinhas, levantando e baixando os bracitos, ondeando na luz branda do entardecer, tinham mesmo asas!


Eram brancas, brancas, brancas
Como as do anjo que mas deu...
.........................................
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...

Eu não atinava lá muito bem com essa coisa da luz funesta, mas enfeitiçava-me de mistério e, quando a cantoria descaía para tom menor, bem adivinhava que algo de terrível iria, por certo, acontecer.

O ritmo abrandava, a melodia fundia-se na quietude da tarde e vinha o remate, muito lento, muito triste:
E as minhas asas brancas
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram,
Nunca mais voei ao céu.

As sílfides baixavam as asas, findava o bailado e, pelos ares, como penas brancas caindo de asas brancas, volteavam, sacudidas pela flébil brisa vespertina, as pétalas brancas das cerejeiras bravas que cresciam no pátio da escola.

Foi assim que a poesia me bateu à porta e Garrett se me tornou alguém familiar.
Pouco depois, para que a magia se adensasse, aconteceu-me ainda aquele Pescador da Barca Bela que aparecia num certo manual que tinha na capa uma parelha de criancinhas muito louras e aplicadas sobre um livro aberto:

Pescador da barca bela
Onde vás pescar com ela
Que é tão bela,
ó pescador?

Como eu fantasiava as ondas do mar que meus olhos serranos nunca haviam contemplado e transfigurava a barcaça que ilustrava o poema e me apavorava das desgraças vindouras do pescador!... Ainda que nada soubesse de sereias nem das artimanhas com que é usança sua (ainda hoje) enfeitiçarem os pescadores, vagamente intuía que pescadores somos todos nós e que a vida não é para brincadeiras.

Nos dias que correm, menos disponível para esse sortilégio da poesia e empedernido na profissão de esquartejar textos em busca de predicados e complementos circunstanciais, volto a subscrever totalmente o Garrett da minha infância, saudando o Zequinha, pequeno e bárbaro bardo que mo revelou com o seu realejo. E ainda hoje, quando adrega de me soar a música dos versos de Camilo Pessanha

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva grácil, na escuridão tranquila, /…/

é ainda a flauta do Zequinha Lelé que eu ouço, vinda da infância, das sombras do crepúsculo e do cimo das escadas da tia Laurinda, borbulhando velhas melopeias que faziam da pobreza desses tempos pedaços de paraíso que eram nossos sem que disso tivéssemos consciência.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Para a tia Helena

A tia Helena partiu. Deixo-lhe aqui o que lhe escrevi há quase três anos, para que possa ler do Céu!

........................... Esta flor é para si
........................... que não pode ler o que lhe escrevo,
........................... que talvez não saiba que hoje é o seu aniversário
........................... e, menos ainda, que completou noventa anos!

........................... Parabéns, tia Helena!

jasmim.JPG

........................... Os parabéns não são só para si;
...........................
são para mim, que a tenho
........................... e a tive sempre, acompanhando-me -
........................... sombra corpórea de minha mãe.

........................... Sei que se alegrou com as minhas alegrias
........................... mais do que eu própria;
........................... que se afligiu com os meus tropeções
........................... mais do que eu me feri;
........................... que acreditou em mim
........................... mais do que eu supunha valer
........................... e que me amou
........................... mais do que eu a mim mesma.

........................... Os parabéns são para si e são para mim, que continuo a tê-la!


Fátima Stocker, 12 de Março de 2006

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Reis ( complemento)

Caros amigos:
Porque ontem (hoje), o post dos Reis ficou incompleto, aqui vai o complemento, com um pedido de desculpas.
Augusta Mata

domingo, 11 de janeiro de 2009

DIA DE REIS EM REBORDAINHOS




Em tempos idos, o dia de Reis em Rebordainhos exercia na miudagem uma multiplicidade de sentimentos. Por um lado, existia a curiosidade em saber quem era a pessoa que vestia aquele fato tão estranho, mas por outro inspirava um sentimento de medo, uma vez que nesses tempos os mais velhos costumavam dizer-nos que não se podia saber quem era o careto porque, se algo acontecesse, alguma maldição ou acidente de percurso, e o rapaz morresse com o fato vestido, a sua alma iria direitinha para o inferno.
“Diziam que assim que põe a careta, traz o diabo vestido” – lembrou-nos a Lurdes.
Assim, o careto naqueles tempos, nunca destapava a cara, que ocultava com aquela máscara de lata pintada de vermelho. Para assustar ainda mais, os “olhos” eram realçados por umas olheiras brancas e um azul intenso …
“Então, não pode tirar a máscara porquê? O careto sem máscara é um homem como outro qualquer!”- afirma o Toninho Rodrigo
Bem, às raparigas mais velhas, era vê-las correr e esconderem-se para não serem chocalhadas pelo careto, que corria, saltava à frente dos cantadores dos reis. Depois, uma vez entrado em qualquer casa, pedia: “chouricinha, chouricinha”, enquanto encimava a foice que trazia numa das mãos em direcção aos chouriços que secavam no fumeiro. E dali não saía sem uma chouriça, ou salpicão, mais uma moeda espetada na maçã que trazia na outra mão.
Bom, mas comecemos pelo início. O dia de Reis, celebra-se habitualmente no dia convencionado no calendário. No entanto, se esse dia coincidir com um dia de trabalho, então passa para o domingo imediatamente a seguir.
O responsável pela sua organização é o mordomo das almas que é nomeado pelo mordomo do ano anterior, no dia 1 de Janeiro. Este ano, calhou a vez ao Sr. JOSÉ FERNANDES, que, tal como os outros em anos anteriores, de imediato começa a sua função juntando os cantadores ao serão em sua casa para os ensaios, e que no dia tem por missão a recolha das esmolas para as almas.
O próprio dia começa com um “mata – bicho” reforçado em casa do mordomo. De seguida dirigem-se à porta principal da igreja onde começam por rezar às almas e cantam também uma ou duas estrofes.
Depois começa a volta ao povo, sempre encaminhados pelo careto. Ele traça o rumo, e anuncia a sua chegada com as chocalhadas.

Conforme o desejo dos moradores, numas casas rezam por quem já partiu deste mundo, e noutras cantam uma ou duas quadras.
De visita aos moradores próximos do cemitério, interrompem a jornada para, à porta deste rezarem por todas as almas que ali têm os seus corpos sepultados. Acabam a sua caminhada a cantar os reis em casa do mordomo onde os espera um almoço melhorado. A tarefa de o confeccionar coube este ano à FERNANDA (esposa do ZÉ)
Tomando conhecimento desta tradição, o ano passado, o sr padre fez questão que os cantadores também cantassem na Igreja. E , tal como no ano anterior, também este ano, os reis foram cantados na Igreja.


Não podíamos acabar sem uma referência especial aos cantadores. Foram eles: FRANCISCO MARTINS; CASIMIRO PIRES; MANUEL FERREIRA E ANTÓNIO PIRES (o Toninho da sra Margarida).
O careto, continuou a ser muito bem representado pelo ROGÉRIO

Nota: O fato já não é o mesmo que conhecemos noutros tempos. Está bastante diferente. Mas, para que a memória persista, fotografámos os dois anteriores, bem como a antiga máscara.

.............................E já agora, aqui estão algumas das estrofes cantadas

...........................................Em tais festas como estas,
...........................................Cantam-se os reis aos fidalgos,
...........................................Também nós os cantaremos,
...........................................A estes senhores honrados.

...........................................Ó Virgem Santa Maria,
...........................................Vós sois a estreta do mar
...........................................Sem a vossa protecção
...........................................Não podemos navegar

...........................................Oh! que rico cacho de uvas,
...........................................Criado em Santarém,
...........................................Oh! Valha-me Deus que assim tarda,
...........................................Este vinho que não vem.

...........................................Oh! que rico pinheirinho,
...........................................A que porta foi nascer,
...........................................À porta destes senhores,
...........................................Que nos vêm dar de beber.

...........................................Venha vinho venha vinho,
...........................................Que eu água não sei beber,
...........................................A água tem sanguessugas,
...........................................Tenho medo de morrer.

...........................................Rei Gaspar e Baltasar,
...........................................São três reis com Belchior,
...........................................Todos os três vão adorar,
...........................................Jesus Cristo Redentor.

Milita; Tilinha e Augusta



sábado, 10 de janeiro de 2009

O Baile



Serenamente caía sobre mim e fui-me vestindo de branco – manifestação de alegria pura!



Entreguei-me nos braços da neve e ela envolveu-me com a ternura dos amantes. Extasiei-me com ela e dancei ao som da música do vento, e era o vento que nos guiava pela rua que estava escura.

De madrugada, todos os passos estavam marcados, denunciando o enlevo prolongado.

Na neve nem sempre se passa incógnito.
Fátima Stocker, Jan. 2005

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Prémio Dardos

A Web é um mundo enorme! Sabemos quantos nos visitam mas não sabemos quem, até que um dia, do outro lado da rede, os visitantes decidem dizer: estive aqui! Foi isso que fez o Alexandre Castro, o brigantino do "Viver um Conto". Mais: decidiu atribuir-nos um prémio (não sei quem o criou), aquele que pode ser visto e lido abaixo. Já visitei a página do Alexandre e, porque gostei do que vi, aconselho a que, querendo e podendo, os nossos leitores o façam também.

Obrigada, pois, ao Alexandre do http://viverumconto.blogspot.com/



Informações sobre o Prémio Dardos

Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogger emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais... os quais, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e os seus pensamentos logicamente escritos.

Estes selos foram criados com a intenção de promover o salutar convívio entre os bloggers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web. "


Confesso que não transcrevi as regras, que são três, porque não vou cumprir uma delas!

Em nome do administrador, dos membros e dos colaboradores do Rebordainhos:

Fátima Stocker

domingo, 21 de dezembro de 2008

ARES DA SERRA

VII - O PRESÉPIO DO DOUTOR CALEJA
(…aqui havia uma fraga…)

por
António Augusto Fernandes

O vinte e quatro de Dezembro amanhecera límpido, sem amostra de nuvem que maculasse o espelho azul do céu. A geada rebrilhava intensamente nos telhados e na erva dos lameiros. As vozes das raparigas a caminho da fonte retiniam no ar translúcido com vibrações de cristal e o trroc- trroc dos socos ferrados de brocha larga sobre a lama congelada tinha ressonâncias de passos ecoando em catedral vazia. A névoa recalcada atulhava, lá em baixo, o vale da Ribeira dos Pereiros, como um mar de algodão onde apetecia rebolar-se a gente, alastrando desde a ladeira das Ribas até aos contrafortes da serra de Bornes. Mas, pela tarde, o mar de algodão foi-se evolando numa gaze fina de névoa a marinhar pela encosta da Fraga do Berrão. Num repente a luminosidade do dia amorteceu e o céu ficou zúbio, num anoitecer precoce que polvilhava tudo de tristeza.

– A névoa subiu à serra, Doutor. Senhas de neve! Temos aí neve da grossa, e não tarda! – dizia o Jaime, especado no traço da porta da Taberna de Baixo.
– Pori... – respondia o Zé Bernardo, estacando o passo … E, apontando o nariz batatudo para o céu cor de chumbo, rematava: − É bem capaz.
Isso queriam eles! porque, nevão caído, perdidos e achados era pelos montes, atrás dos coelhos engaranhados pelo frio ao toro das urzeiras ou tolhidos na corrida pela neve ainda fresca. E perdiam-se num silêncio de divagações cinegéticas…

Fosse por esse comum amor pela caça, fosse pela identidade de feitios, ambos de poucas palavras, ambos um tanto de candeias às avessas com a vida, ou até pelo vago parentesco, entre eles nascera uma cumplicidade quase fraterna. De tal maneira que o Jaime o convidava amiúde para cear lá em casa, sobretudo em vésperas de caçada, quando se tratava de escolher pólvora e chumbo e de meter nos cartuchos as buchas de papelão. Era também o Doutor quem o acompanhava quando ia de longada até à Terra Quente, em demanda do bom vinho, que a serra não o dava e o das redondezas, valha-o Deus! gelava nas pipas com o sincelo. E quando os tremenhos da vida o chamavam a algum lado, não hesitava em confiar o governo do soto ao Zé Bernardo: mercearia, ferragens, chitas, vinho incluído, que o Zé Bernardo… é como quem guarda almas – rematava o Jaime a sublinhar a confiança que depositava no seu lugar-tenente. E era! Se, por um acaso muito provável, a alma lhe pedia meio quartilhito, emborcava-o, sim senhor, mas depositava na gaveta dos trocos a paga. À noite, quando o dono tornava das suas voltas, o Zé Bernardo, que não sabia ler, apresentava um papel pardo de cartucho repleto de hieróglifos que só ele entendia, e desfiava o rol de todas as transacções havidas ao longo do dia.

Retomavam a conversa:
– Pelos vistos, já levas aí a consoada… − observava o Jaime.
– É verdade – tornava o outro, voltando a cabeça e fitando com desvelo a enorme troncha que trouxera da sua belguita do tamanho de uma sala, talhada no baldio, à Ribeira do Catrapeiro. A couve acogulava a cesta dependurada do cabo da sachola que trazia ao ombro e enchia-o daquele orgulho que só sabe sentir quem é proprietário pobre de dois palmos de terra que se trazem mais limpos e escarolados que o chão de casa.

– Ouve lá, ó Doutor, porque é que não trazes a couve e vens comê-la connosco na Portela? – convidava o Jaime, adivinhando-lhe o desconsolo de uma consoada repassada de solidão e cismas em frente das brasas, na furna negra da sua choupana.
– Nã… nestes dias, cada mocho a seu souto. – E rumava já em direcção ao barraco de pedra solta que negrejava, encostado a uma fraga descomunal.

Com certeza se lembram ainda daquela fraga do Prado que o povo se habituara a ver como um ex-libris da aldeia, postada no topo nascente do Prado e que o progresso estilhaçou como estilhaça sempre muitas outras coisas na sua caminhada!... Bem no centro da aldeia, ali resistira desde sempre como símbolo da fibra serrana, de antes quebrar que torcer. A fraga com o olmo e o freixo que morreram de velhos marcavam a singularidade do velho Largo do Prado. Modernizado o Largo do Prado, ficou apenas mais um largo, parelho doutro largo qualquer.
***
Era ali que morava o Zé Bernardo, naquela lojita de terra batida e telha vã, delimitada por três paredes adossadas à Fraga do Prado. Sem janelas, o dia só ali entrava pela porta ou alguma talisca deixada por telha arrancada pelo temporal e as paredes negrejavam mais que o caldeiro de cozer a vianda dos porcos.

Morava sozinho. A mitigar-lhe a solidão, em tempos, fizera-lhe companhia uma cabra, a famosa cabra do Doutor, que ele atrelava a si com uma guita quando ia por lá a ganhar a jeira. Enquanto ele derrancava o esqueleto agarrado ao cabo do enxadão, a cabra fazia pela vida tasquinhando a erva bravia que crescia na berma dos caminhos ou nas poulas dos baldios, presa pela guita ao toro de uma giesta. O animal, que era manso como o pão e tinha alma de gente, dormia a um canto sobre uma fachoca de palha e dava-lhe o leite do mata-bicho. E tão asseado era que até parece que nem apestava o raio do bicho que tinha artes de se aliviar enquanto andava por lá! Já velha e durázia, não teve coragem de a matar: vendeu-a a um peliqueiro de Carção pelo preço da pele.

E ali se mantinha num passadio frugal que envergonharia S. Pacómio, anacoreta no deserto. Da mãe, a tia Camila Carroucha herdara a sombra das paredes, o nariz batatudo e uma tez morena mais que a conta que lhe valera a alcunha de Carroucha. Agreste alcunha era essa: mas soava mais agreste ainda na bárbara pronúncia do tch galaico-português que na serra se mantivera desde os tempos em que daqueles cerros se rechaçara a mourama: Carroutcha. E de tal modo se lhe colou a alcunha que poucos na aldeia sabiam que o Zé Carroucho trazia da pia baptismal o nome cristão de José Bernardo. Até que um dia o Jaime da Taberna de Baixo o rebaptizou de Doutor Caleja, vá-se lá saber porquê. Talvez para lhe despir a bárbara alcunha de Carroucho, talvez por ter nascido na mais esconsa caleja da terra, lá para os lados do Covelo. O novo chamadouro pegou, sancionado pela fama de um médico de Macedo de Cavaleiros que dava pelo nome de Dr. Calejo. E assim passou a ser o Doutor Caleja para vizinhos e amigos. Com o andar dos tempos, por mor da brevidade, ficou apenas o Doutor.

Como quem nada tem nada perde, no tempo em que o Brasil ainda fazia dinheiro, o Doutor também arriscou uma saltada até à banda de lá. Mas, como cão sem coleira que não aceita dono, não se acadimou a medir tempo e litros de feijão preto atrás de um balcão na Tijuca. Mordiam-no saudades dos caminhos desimpedidos da serra, dos roquelhos que medravam nas touças pelo Outono, da lazarina com que ia avezando o seu coelhito pelos montes e, mal se pilhou com o dinheiro da passagem, veio retomar o senhorio da sua choça, mais sereno, mais ascético, mais despojado de ambições. Quando, à tardinha, se sentava num calhau em frente do tugúrio, esmoendo com os vagares de quem é dono de todo o tempo do mundo um cibo de bacalhau cru sobre o carolo de pão centeio e meia cebola, tinha o ar vagamente enfadado de Diógenes ou, sabe-se lá, de suserano dos vastos reinos que se estendiam do Prado até ao monte da Cabeça, onde ele conhecia todas as luras de raposa e todos os tourais onde os coelhos vinham bater o fandango em noites de luar.

Caladão, muito cordato, apenas abria a boca para contar alguma larota de caçador em que nem ele mesmo acreditaria lá muito. E só aos domingos, de quando em quando, saía deste comedimento para apanhar a sua cardina catártica. E então, muito tartamudo, com a beiçola gorda e roxa de vinho descaída para o queixo, soltava palavrão de fazer corar um preto. Até que a mocidade, que por ali se juntava no jogo do fito e do calhau, condescendia em lhe despejar uma romeia de água fresca pelo toutiço abaixo para aclarar as ideias. Mas na segunda-feira, logo à-pormanhã, com grandes papos sob os olhos e a beiça gorda ainda arroxeada da carraspana mal curtida, retomava o passadio austero dos dias ronceiros: agarrava do enxadão e ia e dar mais uma jorna a quem lha requisitara. A Lídia do Jaime, que o estimava como a parente chegado, repreendia-o com brandura: − Ó Zé, tu porque é que te emborrachas assim e és tão malcriado? O Zé Carroucho, cândido como criança travessa repesa da traquinice, assumia em voz sumida e sem levantar os olhos: − Lá calha…
***
Pois a névoa da manhã dera em marinhar pela encosta da Serra dos Pereiros e a noite cerrara muito temporã sob um céu de chumbo. Aquelas galinhas de aldeia, que incansavelmente esgaravatam o ciscalho das ruas e eram de uma inegável sensibilidade meteorológica, tinham recolhido ao poleiro ainda mais cedo que de costume, enganadas pela treva cediça. A pardalada grulha e zaragateira, adivinhando a neve, acolhera-se também aos medeiros onde a palha, além do agasalho, oferecia ainda algum grão perdido nas malhas. E a gente chegara-se também ao afago da fogueira onde cozia o pote da consoada. Como aos picos da serra a electricidade não arribara ainda, nem luzinhas multicolores salpicavam a treva, nem o silêncio era quebrado pelas melopeias natalícias que adocicam a azáfama mercantilista das grandes urbes. Um silêncio denso e mole gasalhava o casario agachado na treva, repleto de quietude e mistério − era a epifania dos grandes nevões.

Vendido o último quartilho de azeite para temperar o bacalhau da consoada e o último litro de tinto para o empurrar, como não esperasse mais clientes, o Jaime entendeu por bem fechar o soto. Chamou o filho mais novo que por ali cirandava:
– Ó Zé, leva essa peixota de bacalhau ali ao Doutor, e… toca para casa, que está a arrefecer.

O miúdo atravessou o Prado fazendo rodopiar a peixota do bacalhau dependurado pelo rabicho. Com a familiaridade de visita assídua, empurrou a porta perra da cabana do Doutor e despachou o recado:

– Ó ti Zé, tome lá que manda o meu pai. – E atirou a encomenda para cima da mesita de pinho onde o Doutor refeiçoava.

Desincumbido do recado, desandava já, quando atentou no coto de vela que ardia ao fundo do cortelho. Aproximou-se a fariscar: ora, sim senhor! O Doutor Caleja também tinha armado o seu presépio!

E de facto, sob a bênção suave do coto de vela surripiado na sacristia depois de despir a opa de tirar a esmola, o veludo de quatro farrapos de musgo macio almofadava o tampo gorduroso da arca onde guardava o pão e o toucinho de adubar o caldo. Sobre a macieza do musgo, à direita, uma estampa de Nossa Senhora da Serra que o Doutor trouxera da última festa que a nove de Setembro se celebra logo ali, no píncaro da serra da Nogueira. Que mais dá que seja Nossa Senhora da Serra ou outra? É Nossa Senhora e bonda! À esquerda, como não constava que nos arredores se armasse romaria em honra de S. José, figurava outra pagela que informava: imagem do milagroso Santo Ambrósio que se venera na sua capela de Vale-da-Porca – outra das devoções aceites pelo Zé Bernardo. O bordão e as longas barbas tanto assentavam no Santo Ambrósio como no S. José … o carapuço de bispo é que não vinha a calhar, mas paciência! Quem faz o que pode… Ao centro, sobre um manhuço de palhas centeias, sob o olhar atento da Senhora da Serra e do Santo Ambrósio de Vale-da-Porca, repousava o pequeno crucifixo que o Doutor, muito pragmático, desenganchara do seu rosário.

O pequeno, muito pasmado, ainda se dispunha a transigir com as outras inovações introduzidas na iconografia natalícia ao arrepio da tradição… mas esta do Menino Jesus deixava-o perplexo:
– Ó tio Zé… e... então o Menino Jesus? Isto assim não vale!
– Não tenho. – E quedou-se um momento de olhos postos nas largas labaredas da giesta que lambiam o bojo negro do pote da consoada. Depois, com ar de quem filosofa sobre a vida, com muita vida já vivida e muitas maleitas curtidas, sacando as palavras a custo, como quem as puxa nos alcatruzes do entendimento, acrescentou:
– Olha, Zé… tanto monta que o Menino esteja a nascer nas palhinhas ou já a morrer na cruz. Mal nascemos, já estamos de catrâmbias para a cova… E mal se morre já se está a nascer outra vez…

Calou-se, cansado de tão profunda tirada metafísica. Depois, de olhar parado nas brasas que remexia com um guiço, rematou:
– E diz lá ao teu pai que muito obrigado pelo bacalhau.

sábado, 20 de dezembro de 2008

É NATAL!


O Natal está à porta.
De seguida, mais um ano que termina e outro está quase a nascer.
Assim, e sem mais delongas, tenhamos a esperança de um ano melhor a todos os níveis.


Augusta Mata


PS: a esperança ainda não paga impostos, pois não?

A Flor



A FLOR

Virei costas, abalei mundo fora …
Cerrei olhos, chorando por amor,
Bati portas, feito surdo ao mundo,
Tal como errabundo de outrora…

Queria esquecer, sem recordar,
Numa amada vontade de dor,
Naquele anoitecer cinza de breu,
Com a vil esperança de regressar.
E assim, … livremente, lá fui eu…


Errei por pecaminoso caminho,
Nas longas, tristes noites que chorei,
Deleitado em frios pés descalços,
Nos percalços de rosas que pisei.

Fui sultão, gente, até pedagogo,
Naquele quente frio de carinho,
Com tudo o que dei e não pedia,
No vão arrasto do lúgubre lodo.
E assim livremente, eu vivia.

Também fui feliz, livre, e ouvi
Naquela vítrea luz do teu olhar,
O som no esgar da vida que fiz,
E a infeliz dor do que perdi.

Então, teimei renascer e voltar.
Do tempo que ficou, nesses cantos,
E assim, dedico-te mil encantos,
Para nesses tempos nunca ficar.

Assim pensei. …. mas…,

Acordei vagabundo sem amor,
Recordei,
brando e abandonado,
Naquele fundo de dó e de dor,
O Só,…, em que me
tinha tornado

Mesmo assim,……. de novo, beijei

A Flor.


Orlando Martins - 2008

domingo, 14 de dezembro de 2008

Neve na Serra de Nogueira

Mais uma vez a neve bateu às nossas portas durante a noite. Aqui em Bragança, apenas salpicou os carros estacionados nas ruas mas, lá em cima, nas serras de Nogueira e Montesinho, o branco foi rei mais uma vez. Impossível resistir! Depois de almoço, lá fomos nós para mais uma aventura na neve na Serra de Nogueira. Aqui deixo um cheirinho para quem, mais uma vez, não pode deliciar-se com este espectáculo. Aproveitem.

Augusta Mata

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

ECOS DO MEU SENTIR

III - DA CIDADE À SERRA
por

FILINTO MARTINS


Há dias fui ao “sótão da minha meninice…”.
Cheguei à Princesa do Tua numa manhã primaveril, não de comboio, mas como fidalgo de outros tempos. Entrei no Mercado, melhor, no edifício, pois as vendedoras eram apenas três, porém suficientes para comprar uma “raba” e uma couve… Fez-se luz: ao lado um sapateiro, como noutros tempos, tinha o calfe de umas botas na forma pregado com “cerzetas”, como outrora fazia o senhor Carlos.

Onde nasci? Suponho que em casa, no Covelo, e talvez a parteira tenha sido a tia Antónia… Tive sorte, fui registado vinte e dois dias depois da data do nascimento, com a assinatura do professor Francisco Joaquim Fernandes Ribom, que escreveu Rebordainhos sem acento (desculpa lá, Fátima) e rubricou as páginas da minha cédula, que guardo religiosamente, com a palavra Ribom a tinta azul, provavelmente daquela que nós mais tarde também usámos na escola. Tem sessenta anos a minha cédula (só as mulheres não dizem a idade). Ao folheá-la verifiquei que tive mesmo sorte, porque não fui daqueles que na mesma página tinham à esquerda a data do nascimento e à direita, na mesma página, morreu… (não fui de anjinho). Hoje, as cédulas omitem esse pormenor, sinal do progresso, do bem-estar, da esperança de vida, da diminuição da natalidade… menos zorros, mais prevenção.

Enquanto deambulava por Mirandela, cidade linda, com uma área de lazer que dá gosto, ouvi tocar os sinos de três igrejas, de forma monótona e repetitiva, mas com leve atraso uns dos outros, como o povo Português.

Segui viagem, vendo aqui e além uma ponte, um troço da antiga linha do caminho-de-ferro, porém não vislumbrei qualquer cantoneiro. Antigamente, quais estátuas, embelezavam a paisagem de Rossas até Bragança e ajudavam os condutores, nomeadamente o professor Ribom, que tocava em toda e qualquer curva que aparecesse, acenando para se ir à vontade e assim descansarem da sua monotonia. Este, para entrar na garagem, necessitava da ajuda do irmão, senhor Carlos, que lhe fazia um risco no chão para ele poder entrar. Excepto uma vez, em que passou ao lado do risco e o carro ficou sem pintura dum lado. Logo a Dona Maria acudiu: “não faz mal”. A que o senhor professor ripostou: “Ó Carlos, se tinha seguido o risco não batia”. Fazia agora falta o cantoneiro, pois nesta altura já não ia ao lado o Tio Jaime, que foi o seu mestre, por diversas vezes, para uma simples viagem a Bragança. Eu, no banco de trás, enquanto o Tio Jaime aconselhava o mestre: “mais à esquerda, mais à direita”, tremia, e a Dona Maria acrescentava: “Temos muito tempo, até vamos muito bem”. O senhor Carlos, bem cochichava: “Ah! Se fosse eu a conduzir”.

Ao atravessar Rossas, na passagem da linha de outrora, olhei para a estação, mas não vi o senhor Pinto, com a sua bandeira vermelha enrolada num pau, o “subiote”… aquele boné que ele só colocava para a passagem da automotora, constituíam apetrechos que para mim tinham muita importância na altura … Para que é serviriam? Pois atrás do guichet quando se comprava o bilhete, o último que comprei custou 101$50, para a longa viagem até ao Porto, ele nunca tinha boné?

Cheguei finalmente a Rebordainhos e logo verifiquei que afinal a casa do Tio Aníbal Fuseiro não se esborralhara por completo… não atropelei nenhum galináceo, tendo encontrado apenas o Alfredo, mais conhecido por Aidinhas, encostado à parede da casa da tia Joana do Outeiro, por quem o tio Benjamim, homem profundamente religioso, encomendou um padre-nosso pela alma dos parrecos da tia Joana, que tinham morrido, dado que já não havia mais por quem rezar. No curto trajecto que faltava não foi preciso travar, porque já não havia galinhas, nem os parrecos da tia Perpétua, que outrora eram música em qualquer poça de água, mesmo numa simples pegada de uma vaca.

Não ouvi qualquer chiar de carro de bois, como em tempos… O Alfredo gostava de apertar as “tarrachas” a fim de os vizinhos ouvirem bem e irem buscar as sacas das castanhas que aqui e além, de pé, esperavam pelo tractor ou jipe que as transportasse.

Regressei ao Porto, ao parque do Museu de Serralves, onde dias antes pude ver a realidade de outros tempos e ocorreu-me: “agora são os jovens das aldeias que têm que ir às cidades, para observar in loco, as vacas e as ovelhas”. Já que não fiz a viagem como o Jacinto e o Zé Fernandes, pude contemplar o silêncio, a paz, o sossego, o ar puro da serra de Nogueira. Que se passa? Afinal há mais vacas e vitelos ao lado da Avenida da Boavista que em Rebordainhos! Civilização?

Olhei para as escadas da casa da minha irmã e não vi, como sempre via, o meu pai apoiado a um cajado e descer, mal via o carro. Enquanto subia, para meu espanto, ouvi um toque de sino, só um e logo o Bino me elucidou: “é o relógio da Igreja”. Mas não se vê o relógio…

Fui até Bragança, tinha os meus dezoito anos, pimpão, sapato preto engraxado, calça com vinco, talvez com alguma brilhantina… parei na Sé. “O meu amigo pode dizer-me que horas são?” Resposta pronta de estudante: “olhe para o relógio da Sé!” Retorquiu-me o transmontano, que provavelmente viera à feira dos 12: “Se eu soubesse ler não lhas perguntava… eu até tenho relógio!”

Aquele simples toque levou-me ainda mais longe. Recordo, com saudade, o toque das Trindades, para o Terço, para a Missa, deram sinais, a concelho, incêndio, “morreu um anjinho” e aquele toque para as aulas, que a Sara dava tão bem…

Ainda pequenote, brincando ao pingue, à bilharda, ao pião, ao fito, com uma junta de bois feita de “bulharacos”, enfim, ao “rou-rou” – internet e Play Station da nossa actualidade – lembro-me de uma promessa do meu pai: “se apanhares a água para os pedreiros fazerem a “massa” para o palheiro, mandamos fazer umas botas ao Sr. Carlos sapateiro”. Lembro-me perfeitamente de apanhar a água da fonte das Ribas de cima, fonte pequenina, que hoje deve estar seca, com uma “remeia”, calculo.

Trabalho feito, promessa cumprida, pois o meu pai era homem de palavra. Só havia uma coisa que eu detestava que ele me mandasse fazer – ir com as vacas para o lameiro. Lá ia, mas sempre contrariado, a não ser que fosse para as Bouças e lá andasse o Pilatos. Com ele aprendia-se muito… se aprendia, cá voltaremos.

A ânsia de conseguir tão almejado prémio ajudou-me a esquecer as brincadeiras e a arranjar força para apanhar água. Ter umas botas como “os homens grandes” e não uns socos que o tio Grilo, artesão da terra, tão bem fazia e em determinados jogos e lutas eram uma arma poderosa nas canelas do mais atrevido.

Chegou a ordem: «Vai ao senhor Carlos para te tirar as medidas». Suponho que não falei com ninguém, era segredo, para depois aparecer com umas botas novas junto dos meus amigos de brincadeiras, mãos nos bolsos (era possível que estivessem rotos) para poder puxar as calças e assim mostrar a obra de arte.

«Senhor Carlos, o meu pai mandou-me vir tirar as medidas para umas botas. Olhe que são para a festa!». Resposta pronta do senhor Carlos: «Já devias ter vindo, pois tenho que as levar a Bragança para coser e pôr a sola de molho… isso demora». Pegou numa folha de papel seguida de ordem: «põe aqui o pé». Com um lápis obteve o desenho perfeito dos meus delicados pés.

No nosso tempo, tínhamos uma admiração especial por algumas pessoas da terra – Pe Amílcar, Professores, Armindo (barbeiro), que dava em dez minutos dez anos de rejuvenescimento e o senhor Carlos, ilustre sapateiro da aldeia, sem concorrência no negócio, deambulava pelas ruas com maior frequência, na altura das matanças. Pressentia, qual galgo a lebre ao longe, o cevado morto que no banco era presa fácil – «boas cedas» … arrancava sem o mínimo queixume do defunto. Nestas deambulações acompanhava-o sempre o seu avental de cabedal, aqui e ali com as marcas da navalha afiada que errara o alvo e, no seu andar aligeirado, meneava as nádegas salientes, efeito do seu banquinho de trabalho. Aquele seu lábio descaído, pensávamos nós, seria de molhar a linha para que após o furo com a sovela, melhor deslizasse aquela, mas não, era de nascença. Era uma pessoa que metia respeito e medo aos mais novos, desde que vissem os seus apetrechos – sovela, turquês, ‘luvas’, martelo e aquela faca tão afiada… Chamávamos-lhe «senhor Carlos» e não «tio Carlos». Porque seria? Respeito? Profissão ou medo? Mas era um homem bom.

Com o aproximar do prémio faltava um pormenor: «Senhor Carlos, mas eu queria daquelas botas que chiam!»
«Ó rapaz, isso não é fácil. Tens que ir à tua mãe que te dê (deve ter dito deia) duas fatias grossas de presunto magro, bem magro, rapara bem, para meter no meio das solas. Vais ver como chiam!»

E lá foi o ignorante pedir as ditas fatias de presunto, que embora analfabeta, a minha mãe prontamente me disse: «seu brutinho, o sapateiro quer é comer o presunto!».
Inocência ou ignorância?

Responda quem quiser, sei apenas que tive umas botas novas, por medida! Hoje, a civilização tem todos os modelos e mais alguns… cores e feitios à disposição de todos os pés mas, por medida, será para uma minoria…
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À excepção da primeira fotografia (enviada pela Céu) e da última (roubada daqui), as fotografias que ilustram o artigo são do próprio Filinto