
IV - VOLTEMOS À NOSSA ESCOLA PRIMÁRIA
FILINTO MARTINS
Uma escola reflecte o passado, o presente e o futuro.
O passado está patente na plêiade de antigos alunos que mesmo criados com carolos de centeio, carne gorda “rijada” e torradas de pão de quinze dias com unto, olharam mais além. O presente está neste blogue de Rebordainhos de que nem todas as aldeias, quase desertas, se podem orgulhar. O futuro que só a Deus pertence, está na semente que todos vamos lançando aqui e acolá, mesmo que o terreno tenha fragas, urzes, giestas… estará sempre como recordação naquela escola branca, com seis janelas, linda, grande… plantada no lugar mais arejado da aldeia, isolada… noutras aldeias seria ali o cemitério… o culto dos vivos dará sempre mais frutos que o dos mortos, merecedores do nosso respeito e admiração.
Suponho que tive sorte, nascendo a 3 de Outubro para a 7 entrar para a escola, como ditava o calendário de então. Agora começa um mês antes e termina um mês depois… Provavelmente porque já não é preciso sacudir a rama na apanha das batatas, virar o feno, ir com as vacas… novas tecnologias. Ainda bem, sem a mínima ironia. Não é preciso aprender de cor os rios e os seus afluentes e muito menos as linhas dos extintos caminhos-de-ferro. Basta consultar a NET e até horários e preços estão disponíveis.
7 de Outubro de 1955 – o sino da igreja nunca mais tocava… já estávamos à porta da Escola, onde nunca tinha entrado, quando umas leves badaladas ecoaram naquela manhã, efeito das mãos da Sara, que puxara o cadeado do sino, mais tarde, o mesmo, serviria para tocar a rebate e ir para a enxertia, no dizer do tio Leque… É claro que se tivesse sido duzentos anos antes, pensar-se-ia que era o terramoto de Lisboa.
Entrámos numa sala muito grande, com carteiras compridas, janelas muito amplas, um quadro negro, uma braseira, uma mesa, uma cadeira, alguns livros a um canto. Ao fundo, encostados à parede, dois armários onde se destacavam um carro de bois com “engarelas”, um arado, uma grade, tudo em madeira… que bonitos eram… ai se nós pudéssemos mexer neles!
Após esta primeira descoberta, eis que surge o senhor professor, Joaquim Francisco Ribom. Ninguém na aldeia ousava pronunciar o seu nome, mas o seu “ofício – Senhor Professor”. E quando passava a caminho da escola, de casa ou da Igreja, todo o ancião descobria a cabeça e com uma leve vénia, dizia: “Bom dia, Senhor Professor”, qual biblioteca ambulante.
Aquela figura esguia, alta, cabelo branco, olhos perscrutadores, fato e gravata, porte aristocrático, parecia o epítome do conservadorismo agressivo da época. Tirava um lenço branco do bolso das calças vincadas e com ele limpava a saliva dos cantos da boca. Com um olhar fixo e fulminante, acomodou-nos nas longas carteiras. Silêncio sepulcral.

Estava ansioso, acho que sem candeia no nariz, em abrir a sacola de pano de serapilheira, tirar o livro único e a pedra ainda limpinha, que tinha comprado na taberna do tio Trocho. Naquele tempo não distinguia uma única letra, a minha pré-primária foi ir com as vacas, andar aos pássaros, ir aos guiços para a lareira… Fiquei imenso tempo à espera… não apareceu nada escrito na minha lousa, todavia regressei a casa todo radiante porque já vinha da escola! Aquele livro com a águia, a égua, a igreja, o ovo, as uvas… decerto folheado vezes sem conta, sem identificar o significante, mas era aluno…
Os dias sucediam-se aos dias.
Já licenciado em Psicologia, o meu ego saiu muitas vezes recompensado com as palavras doces que a senhora Dona Maria, que visitava sempre que ia a Rebordainhos, me dizia passeando no seu quintal, junto a uma biquinha… um relógio de sol… confidências! “Olha, Filintão, uma vez a aluna… estava a aprender a juntar sílabas obtendo a palavra final, associada a uma imagem. Eu dizia-lhe: pa – pa e to - to. Ora lê. Resposta pronta: parreco.” Hoje digo eu: excelente resposta. Noutra ocasião a mesma aluna, tentando juntar a + pi + to, respondeu: subiote. O significante era o que menos interessava, todavia o significado era fruto duma socialização primária, ainda sem o Magalhães.
Estas recordações com a senhora Dona Maria e o senhor professor, tendo como testemunha o senhor Carlos, eram como o perfume das peras e maçãs que tão bem guardava na memória, na alcofa da sala de jantar da sua casa junto à Igreja. Voltaremos lá noutra ocasião.
O tratamento “Filintão”, que eu achava ser depreciativo e sinónimo de burro, naquela época, hoje recordo-o com carinho e saudade, pois o primeiro brinquedo que tive foram eles que mo ofereceram – uma gaita de foles - que a minha mãe guardava com carinho e especial atenção, dizendo sempre: “Foram os senhores professores e o senhor Carlos que te ofereceram”.
O Senhor Carlos, não sendo professor, era uma pessoa muito querida e respeitada. Estou a vê-lo passar para Vale-das-Vinhas, com um sachinho ao ombro e saudando tudo e todos. Jogando à sueca, ao “xincalhão”, na taberna do tio Trocho, saboreando o seu cigarrinho. A cada passo, mais atento ao tempo que ao jogo, puxava do seu relógio de bolso do seu colete, que muito prezava usar, a curta distância conferia as horas. “…
é o último jogo…” bebia apressadamente o seu Sumol para iludir o cheiro do tabaco e ei-lo, em passo aligeirado, a caminho de casa… por ele não vinha mal ao mundo.Obrigado, senhor professor, obrigado senhora Dona Maria, sinto orgulho de ter sido vosso aluno. Ela, lá onde se encontra, sabe que eu não gostava de chamar “senhora professora”, pelo carinho que sentia, gostava e gosto, pois para mim será sempre “senhora Dona Maria”. A autoridade era “professor”, ela era mais que professora. Até a sua terra natal – Carrapatas – que nunca visitei, continua na minha mente como algo diáfano, pois quando à saída de Macedo, vejo a placa Carrapatas, o meu espírito tem sempre presente os três grandes amigos.
Paz às suas almas.













Trabalho feito, promessa cumprida, pois o meu pai era homem de palavra. Só havia uma coisa que eu detestava que ele me mandasse fazer – ir com as vacas para o lameiro. Lá ia, mas sempre contrariado, a não ser que fosse para as Bouças e lá andasse o Pilatos. Com ele aprendia-se muito… se aprendia, cá voltaremos.